Irã, Trump e a Política em um Mundo Fragmentado
por Maria Luiza Falcão Silva
Em fevereiro de 2026, a nova escalada entre Estados Unidos e Irã volta a girar, formalmente, em torno do programa nuclear iraniano. O presidente Donald Trump exige um novo acordo, com prazos mais curtos e restrições mais rígidas do que o pacto de 2015.
O reforço da presença militar americana no Golfo adiciona urgência e dramatização à pressão. Teerã, por sua vez, sinaliza disposição para negociar — mas rejeita ultimatos acompanhados de ameaça explícita.
À primeira vista, trata-se de um roteiro conhecido: diplomacia coercitiva apoiada por demonstrações de força, enfrentando resistência estratégica combinada com negociação calibrada. No entanto, o ambiente em que essa disputa ocorre hoje é substancialmente diferente daquele que moldou crises anteriores. O mundo ao redor desse conflito mudou. E essa mudança é decisiva.
O acordo nuclear de 2015 foi construído em um contexto de maior coesão internacional. As sanções eram amplamente coordenadas entre Estados Unidos e Europa. A exclusão financeira tinha efeitos rápidos e profundos. A promessa de reintegração ao sistema global funcionava como incentivo claro. A arquitetura internacional era mais vertical e relativamente integrada.
Essa coerência é menor hoje.
A estratégia atual de Trump parte de uma lógica tradicional: elevar a pressão para forçar concessões. Os Estados Unidos mantêm poder militar incomparável, influência decisiva sobre os principais canais financeiros e alianças estratégicas na região. A mobilização de porta-aviões e a fixação de prazos públicos sinalizam tentativa de transformar poder estrutural em pressão e resultado político imediato.
Mas o poder opera de maneira diferente em um ambiente internacional mais distribuído.
O Irã de 2026 não está isolado da mesma forma que esteve uma década atrás. Seus vínculos econômicos com mercados asiáticos se aprofundaram. Fóruns diplomáticos alternativos se consolidaram. Países do Oriente Médio praticam, cada vez mais, políticas de equilíbrio entre múltiplos centros de poder. Nada disso neutraliza a influência americana. Mas altera sua previsibilidade.
É aqui que a noção de fragmentação ajuda a compreender o cenário.
Fragmentação não significa colapso da ordem global. Tampouco implica o desaparecimento da hierarquia internacional. Os Estados Unidos continuam sendo a principal potência militar e financeira do planeta. O que mudou foi a dispersão relativa da conectividade e da autoridade. Um país pode ser sancionado em um domínio e integrado em outro. Pode enfrentar pressão militar de uma coalizão e, simultaneamente, manter relações comerciais ativas com outros polos econômicos.
O Irã ocupa exatamente esse espaço intermediário. Está sob sanções severas, mas não completamente isolado. Enfrenta pressão estratégica, mas mantém canais diplomáticos e econômicos relevantes. Está constrangido, mas não paralisado. Essa condição híbrida reflete um sistema internacional que já não opera por exclusão total ou inclusão plena.
Para Washington, isso complica o cálculo.
Em uma ordem rigidamente hierárquica, a exclusão tende a ser decisiva porque as alternativas são escassas. Em uma ordem fragmentada, a exclusão pode acelerar a adaptação. Exportações de energia podem ser redirecionadas. Fluxos financeiros podem encontrar caminhos indiretos. Apoios diplomáticos podem emergir de atores que não compartilham integralmente dos objetivos americanos, mas tampouco desejam o colapso do Irã.
As negociações atuais evidenciam essa tensão. A administração Trump busca um acordo rápido e visível, capaz de demonstrar força e restaurar credibilidade dissuasória. O Irã, por sua vez, exige garantias de que eventual alívio de sanções será duradouro — lembrando que os Estados Unidos abandonaram unilateralmente o acordo de 2015. A memória dessa ruptura pesa nas decisões iranianas.
A confiança, já frágil, é ainda mais rarefeita.
Além disso, o entorno regional tornou-se mais complexo. Países do Golfo continuam preocupados com a influência iraniana, mas também ampliaram suas conexões econômicas com a Ásia. A presença crescente da China no Oriente Médio não substitui a arquitetura de segurança americana, mas adiciona novos canais diplomáticos. A própria Rússia, sob sanções desde 2022, acelerou processos de reorientação econômica.
Nenhum desses atores forma um bloco coeso pró-Irã. Mas a simples existência de múltiplos polos reduz a rigidez das alianças. Em vez de alinhamentos exclusivos, proliferam estratégias de equilíbrio.
Nesse ambiente, pressão e negociação não produzem efeitos lineares. Como afirmou o ministro das Relações Exteriores do Irã, Seyed Abbas Araghchi, em fevereiro de 2026, “estamos preparados tanto para a guerra quanto para a paz”. A frase sintetiza a ambivalência do momento: retórica de dissuasão coexistindo com canais diplomáticos ativos. Em uma ordem hierárquica, ultimatos costumam levar rapidamente à capitulação ou ao confronto aberto. Em um sistema fragmentado, porém, declarações de prontidão militar convivem com negociações paralelas. Dissuasão e diálogo operam simultaneamente.
Essa coexistência aumenta o ruído estratégico e eleva o risco de erro de cálculo — mas também demonstra que nenhum ator consegue impor uma resolução imediata.
A sinalização militar pode conter escaladas, mas também pode endurecer posições caso o Estado pressionado perceba ter margem suficiente de sustentação externa. Sanções podem gerar custos significativos, mas não necessariamente induzem capitulação estratégica quando existem alternativas — ainda que menos eficientes.
Ao mesmo tempo, a fragmentação não garante estabilidade. Sistemas sobrepostos criam ambiguidades quanto a limites e linhas vermelhas. O risco de erro de cálculo aumenta quando as regras de coordenação não são compartilhadas por todos os atores relevantes.
A crise atual entre Trump e Irã, portanto, expõe um paradoxo. O poder americano continua imenso. Mas sua capacidade de produzir resultados diretos apenas por meio de pressão tornou-se menos automática. A resiliência iraniana não é sinal de força plena; é sinal de que o sistema internacional oferece redundâncias suficientes para evitar colapso imediato.
Para Donald Trump, há também um cálculo político doméstico. Um acordo visível reforçaria a narrativa de liderança firme. Uma escalada poderia igualmente ser apresentada como demonstração de determinação. A política interna estreita os espaços para soluções graduais.
Para a liderança iraniana, o imperativo central é sobrevivência. Concessões não podem parecer rendição. Mas o alívio econômico é necessário. O governo navega, assim, entre resistência e pragmatismo, explorando até onde a nova configuração global permite manobra.
O que diferencia 2026 de ciclos anteriores não é apenas a personalidade dos líderes envolvidos, mas a estrutura do sistema em que atuam.
A ordem pós-Guerra Fria supunha forte associação entre integração econômica e conformidade normativa. Acesso ao mercado global vinha condicionado a regras amplamente compartilhadas. Hoje, a integração é mais modular. Um país pode ser excluído de certos canais financeiros e ainda assim manter comércio relevante e presença diplomática.
Essa modularidade enfraquece o poder disciplinador de qualquer instrumento isolado.
As implicações ultrapassam o caso iraniano. Se a diplomacia coercitiva se tornar menos previsível em um mundo fragmentado, grandes potências podem recorrer com mais frequência à demonstração militar para compensar. Isso eleva o risco de escalada. Por outro lado, a própria fragmentação pode incentivar acordos mais pragmáticos, já que nenhum ator consegue isolar completamente o outro sem gerar custos sistêmicos.
Qual dessas tendências prevalecerá depende menos da estrutura e mais das escolhas políticas.
A atual disputa entre Trump e Irã não é apenas uma controvérsia sobre níveis de enriquecimento ou inspeções nucleares. É também um teste de como o poder opera em uma ordem internacional que já não é nitidamente hierárquica. Os Estados Unidos continuam capazes de moldar resultados. Mas moldar já não equivale a comandar.
O Irã, por sua vez, não controla o sistema. Adapta-se a ele. Sua estratégia não representa triunfo nem colapso, mas navegação em um ambiente onde a autoridade se distribui entre esferas que se cruzam.
Se as próximas semanas produzirão acordo ou escalada, é impossível afirmar com segurança. Mas uma conclusão já se impõe: as negociações ocorrem em um mundo onde o poder está mais difuso, os alinhamentos são mais flexíveis e a pressão raramente gera resultados em linha reta.
Compreender essa transformação estrutural talvez seja tão importante quanto acompanhar os detalhes do dossiê nuclear.
Maria Luiza Falcão Silva – MSc em Economia (University of Wisconsin–Madison), PhD (Heriot-Watt University), Professora aposentada da Universidade de Brasília (UnB), membro da ABED e do Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC/NEASIA).
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