Maria Helena Machado: ‘Há uma estratificação brutal na área da Saúde’

Entre os trabalhadores invisíveis e os profissionais de saúde (de nível superior) há um fosso. Há uma estratificação social brutal na saúde.

do CEE Fiocruz

Maria Helena Machado: ‘Há uma estratificação brutal na área da Saúde’

por Eliane Bardanachvili

A área da Saúde abrange uma diversidade de ocupações e de perfis de trabalhadores, mostrando-se, assim, muito propícia ao estudo do mundo do trabalho de modo geral. Estudar essa área leva a compreender o universo das profissões e a obter um retrato da própria sociedade, como vem constando a pesquisadora Maria Helena Machado, que coordena o projeto de pesquisa Mundo do Trabalho e Saúde, um dos nove que vêm sendo conduzidos no Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz Antonio Ivo de Carvalho (CEE-Fiocruz). O projeto, que se realiza em parceria com a Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz), abrange cinco estudos, que tiveram início em 2020 e buscam investigar as condições de trabalho na área da Saúde durante a crise sanitária, tendo alcançado, até o momento 40 mil trabalhadores em todo o país.

Dois estudos já foram concluídos, As condições de trabalho dos profissionais de saúde no contexto da Covid-19, voltado ao universo dos que atuam na linha de frente da pandemia, e Os trabalhadores invisíveis da saúde e a Covid-19, com pessoal de nível técnico/auxiliar e de apoio. “Entre os trabalhadores invisíveis e os profissionais de saúde, há uma fosso muito grande. Há uma estratificação social brutal na saúde”, destaca Maria Helena, nesta entrevista em vídeo para o blog do CEE. “Todos convivem no mesmo espaço, mas não são reconhecidos como colegas”.

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Um terceiro estudo está em curso, tendo como foco os trabalhadores da saúde indígena – “o maior problema desses trabalhadores não é o fato de estarem isolados, por falta de acesso à internet, e sim seu quase abandono”, diz Maria Helena. Dois outros estão programados, um abordando a realidade dos quilombolas e o último, a ser realizado com os trabalhadores da Fiocruz. “Nós vamos ser estudados”, diz a pesquisadora. “Com essas pesquisas, poderemos dizer que temos o retrato da realidade dos trabalhadores da saúde, do SUS”.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

De que forma a área da Saúde propicia uma análise do mundo do trabalho de modo geral?
A saúde é um setor de análise do mundo de trabalho interessante por sua diversidade, complexidade e volume de ocupações que envolve. A Sociologia das Profissões vai buscar na saúde um locus de análise, e os primeiros estudos para analisar profissões se deram na profissão médica. Freidson [o sociólogo norte-americano Eliot Freidson (1923-2005)] faz essa reflexão e elege a Medicina como profissão paradigmática, entendendo que, a partir dos médicos e da saúde, é possível entender o mundo das profissões. A Sociologia das Profissões é um construto teórico e metodológico, que aborda de forma mais sensível o cotidiano dos profissionais, percebendo as nuances do trabalho, o quanto são híbridas as situações – há o assalariado, o autônomo, o funcionário público, o profissional liberal, o professor, o pesquisador, em uma única profissão. Além disso, a saúde é um bem público e uma obrigação de Estado, envolvendo, portanto, uma atividade profissional da qual nenhuma sociedade pode prescindir.

O que motivou a realização do conjunto de pesquisas que vem sendo levado à frente desde 2020 sobre as condições de trabalho na área da saúde?
Observamos que a pandemia de Covid-19 traria problemas severos aos profissionais de saúde, que precisariam atuar na situação de crise sanitária. Como eles enfrentariam a dureza de uma pandemia? Ao longo dos meses, a situação foi só piorando, como vimos, e, no Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz, com o [então] coordenador, Antonio Ivo de Carvalho, tivemos apoio para pensar em um estudo que pudesse identificar as condições de trabalho desses profissionais. A proposta nasce de uma conversa e de um apoio institucional, que, depois, com o novo coordenador do CEE, Carlos Gadelha, só aumentou. Em parceria entre a Escola Nacional de Saúde Pública e o CEE, fizemos uma primeira pesquisa com os que atuavam nas 14 categorias profissionais de saúde de nível superior definidas pelo Conselho Nacional de Saúde [Resolução 287/1998]. Durante esse processo, no entanto, percebemos que havia uma reivindicação forte dos profissionais que prestam apoio, fazem parte da equipe, mas não eram ouvidos. Eles perguntavam se não queríamos saber sua opinião também. Decidimos, então, fazer uma pesquisa específica com esse grupo, uma decisão política, inclusive, e denominá-los trabalhadores invisíveis da saúde. A ideia dessa segunda pesquisa foi também produzir um movimento, para que a sociedade perceba que, além dos médicos, farmacêuticos, assistentes sociais, psicólogos, odontólogos etc., temos uma legião de trabalhadores, de nível médio, de nível técnico, que precisam ser vistos.

A partir dessa segunda pesquisa, a equipe observou que seria necessário rever os limites do que se deve considerar ‘profissional de saúde’. Por quê?
Trabalhar com os profissionais de saúde e depois com os profissionais invisíveis nos fez pensar que devemos buscar reconceituar o que sejam trabalhadores da saúde. A atenção à saúde se dá clarissimamente por meio de uma equipe multiprofissional, não apenas em termos de diversidade de profissões, como em termos de especialidades e de escolaridade. Mesmo não sendo um profissional com diploma universitário, o técnico de enfermagem ou de radiologia, o auxiliar técnico, aquele que faz a faxina e a higienização dos ambientes, os maqueiros, os condutores de ambulância e mesmo os que atuam no fim da linha, os sepultadores – também incluídos na segunda pesquisa – fazem parte de uma equipe de atenção, todos são trabalhadores da saúde. E é preciso dar voz a todos eles. É preciso aprender com as diferentes situações.

Que achados destaca dessas duas primeiras pesquisas, já concluídas?
Tivemos vários achados importantes, alguns muitos semelhantes entre as duas pesquisas, outros, muito díspares. Eu estava em uma live com profissionais de saúde do Amapá, em que um médico declarou não reconhecer em seu dia a dia os problemas identificados na pesquisa com os profissionais de saúde (de nível superior). Uma enfermeira, que representava o Conselho Regional de Enfermagem no encontro, interveio: “Doutor, todos nós trabalhamos na mesma casa”. O que significa isso? Que as questões negativas e positivas, a serem alteradas ou mantidas no ambiente de trabalho, atingem todos os trabalhadores das equipes de atenção. Esse foi um primeiro achado: as condições de trabalho não afetam uma ou outra categoria. Se uma categoria reivindica uma condição melhor, todas as demais devem ser levadas em consideração. Não há um ambiente para médicos, outro para fisioterapeutas, outro ainda para enfermeiros e outro para os técnicos. E as condições de trabalho se mostram muito ruins, inóspitas, com falta de equipamentos, baixos salários. Estamos falando também de pessoas com comorbidades, que aparecem em um quarto dos trabalhadores pesquisados. Antes da pandemia esses profissionais já apresentavam hipertensão, depressão, obesidade, problemas cardíacos, pulmonares. Com a pandemia, isso se agrava. E chama atenção que essa situação atinge de forma diferenciada os trabalhadores.

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De que maneira se dá essa diferenciação?
Entre os trabalhadores invisíveis e os profissionais de saúde (de nível superior) há um fosso muito grande. Há uma estratificação social brutal na saúde. A diferença salarial entre uma faxineira, um técnico de enfermagem, um enfermeiro, um farmacêutico e um médico no final do mês é escabrosa. Outra questão é quanto aos equipamentos de proteção individual (EPIs) nos dois universos. Se entre os profissionais de saúde havia escassez, entre os invisíveis, os equipamentos não eram só escassos, mas de baixa qualidade, e utilizados por vários dias, sem substituição. Entre atender o médico e o enfermeiro e atender o técnico de enfermagem e o de radiologia, havia uma diferença. Milhares de trabalhadores afirmaram nunca ter visto uma máscara N95. Há uma discriminação brutal e vergonhosa no país. Todos convivem no mesmo espaço, na mesma casa, como eu disse, e não se reconhecem como colegas, como trabalhadores, de modo geral. Alguns têm direitos mais assegurados do que outros. A pesquisa mostra isso com muita força, talvez seja a parte mais pedagógica do estudo que realizamos.

Quem são os trabalhadores da saúde identificados até aqui, nas duas pesquisas?
Podemos falar, sem medo de errar, que os profissionais de saúde com nível superior são, a maioria, brancos, vivendo em lugares socialmente mais adequados, com acesso a outras qualificações além do curso universitário. Já os trabalhadores invisíveis são invisíveis mesmo. São os pretos e pardos, a maioria, mulheres, e vivendo em periferias. Embora não fosse esse o objetivo do estudo, foi detectado como a área da saúde retrata a estratificação da sociedade.  Essa estratificação está estampada na área da saúde.

Quanto às duas outras pesquisas programadas, com os profissionais da saúde indígena e dos quilombolas, o que já é possível adiantar?
As duas se relacionam, uma vez que os quilombolas, muitas vezes, localizam-se em regiões próximas a áreas indígenas. E serão realizadas com a mesma estrutura das anteriores, por meio de questionários on-line. No entanto, são duas pesquisas que estão nos dando muita dor de cabeça. Tínhamos certeza de que haveria dificuldades, no que diz respeito ao acesso a internet e pelo fato de estarmos ainda na pandemia. Mas vimos que a situação é mais grave, há dificuldades mais profundas. Percebemos que os trabalhadores da saúde indígena estão isolados do sistema de saúde. Já é uma primeira constatação da pesquisa, e muito preocupante. Estarem em aldeias, afastados e, com isso, sem acesso à internet, é o menor problema – o maior problema é o quase abandono desses trabalhadores. Deveriam estar mais institucionalizados, com vínculo empregatício, com salário, carreira, proteção e tranquilidade para trabalhar. Se o caminho para chegarmos aos trabalhadores invisíveis e aos profissionais de saúde nós tínhamos com clareza, com os da saúde indígena, essa estrutura não está clara. Eles estão com dificuldade não só de acessar o questionário, como de compreender o objetivo da pesquisa, de se interessar em participar. Faremos uma reunião com pesquisadores e autoridades, para entendermos esse mundo dos trabalhadores indígenas. Estamos com apoio de sindicatos, universidades do Norte, do Nordeste e do Sul do Brasil e com o apoio da Fiocruz. O sentimento, está nos parecendo, é de falta de esperança de que algo venha a melhorar a partir da pesquisa. Isso está nos preocupando, mas não vamos desistir.

E quanto à pesquisa com os quilombolas?
Ainda não começamos, mas também são bastante isolados e pouco estudados. Certamente, encontraremos dificuldades. Mas esperamos chegar até eles, compreendê-los um pouco mais, compreender sua realidade. E, então, com os dados sobre quilombolas, povos indígenas, profissionais de saúde e trabalhadores invisíveis da saúde, teremos um cenário quase completo.

O que faltará estudar?
Para completar, vamos fazer a pesquisa com os trabalhadores da Fiocruz. Nós vamos ser estudados, precisamos ser analisados para compreendermos melhor nosso processo de trabalho, quem somos, para onde caminhamos, que reivindicações temos, em que condições trabalhamos e o que precisamos melhorar para atuarmos e produzirmos para a sociedade e para a ciência. Com essa pesquisa, poderemos dizer que temos o retrato da realidade dos trabalhadores da saúde, do SUS.

Qual a sua expectativa quanto aos achados das quatro pesquisas? O que podem propiciar?
Quando iniciamos, tínhamos clareza de que estávamos construindo um instrumento de luta, de reflexão e de negociação entre trabalhadores e gestores, sejam eles públicos, privados ou filantrópicos, em todo o país. A ideia é produzir um documento reflexivo, de modo que a sociedade tome consciência de que trabalhadores invisíveis não podem continuar invisíveis, de que os profissionais de saúde não são super-heróis e precisam de cuidado e proteção, que os indígenas precisam de mais atenção, da mesma forma os quilombolas e ribeirinhos. Os dados dessas pesquisas são oriundos de um trabalho realizado pela Fiocruz, com financiamento da Fiocruz e a coordenação do Centro de Estudos Estratégicos e da Escola Nacional de Saúde Pública, portanto, é uma pesquisa pública, que, até o momento, já alcançou 40 mil trabalhadores. Os trabalhadores da saúde não podem continuar a ser tratados como algo descartável: se estão doentes, troca-se, se estão insatisfeitos, que vão embora e substitui-se. Saúde é bem público e seus trabalhadores também.

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