Mobilidade, direito universal, por Gilberto Maringoni

A enorme série de quebra-quebras nos trens de subúrbio e ônibus das grandes cidades em várias décadas, provocados por preços considerados injustos ou pela má qualidade de serviços são marcas do que o bloqueio à mobilidade pode acarretar.

Foto O Globo

Mobilidade, direito universal

por Gilberto Maringoni

Interferir na mobilidade das pessoas implica provocar curto-circuitos sociais por vezes espetaculares. Os exemplos mais recentes estão na explosão dos jovens no Chile e na rebelião popular no Equador. Em ambas, o gatilho das manifestações foi o aumento dos preços das passagens. Parece haver motivações mais profundas para os descontentamentos, mas a gota d’água tem sido a questão dos transportes.

Os exemplos históricos são incontáveis. No primeiro dia de 1880, o centro do Rio de Janeiro foi tomado por uma massa de populares enfurecida com a elevação no preço das viagens de bondes. Por quase uma semana, as ruas da então capital federal viraram uma praça de guerra, com repressão letal por parte da polícia e do exército, naquilo que ficou conhecido como Revolta do Vintém. Cenas semelhantes aconteceram em 1903-06, por ocasião de greves dos condutores dos mesmos bondes.

A revolta das barcas, em 1956, teve como saldo depredações em série entre o Rio de Janeiro e Niterói. Uma massa de usuários chegou a botar fogo na casa dos proprietários do serviço, que haviam obtido permissão para majorar preços.

A enorme série de quebra-quebras nos trens de subúrbio e ônibus das grandes cidades em várias décadas, provocados por preços considerados injustos ou pela má qualidade de serviços são marcas do que o bloqueio à mobilidade pode acarretar.

O Caracazo, em 1989, teve início também numa crise econômica, cuja ponta mais visível foram majoracões nos preços da gasolina e dos bilhetes de ônibus.

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Para não ficarmos numa sucessão sem fim de casos semelhantes, basta citar as grandes mobilizações de junho de 2013, que tiveram início com os 20 centavos de aumento nós preços nos bilhetes.

Colocar obstáculos à apropriação do espaço público pela população, ao direito de ir e vir e ao direito à cidade têm se mostrado práticas capazes de provocar mais reações violentas do que o aumento deliberado – por exemplo – do desemprego, como se vê no Brasil desde 2015.

Poder trafegar livremente pelo território é prerrogativa inalienável da cidadania. Vale lembrar que seu contrário também funciona. Desde a Revolução de 1848, pelo menos, a arma mais eficaz dos protestos populares urbanos tem sido a de bloquear ruas e vias de acesso para dificultar ações repressivas e chamar atenção da opinião pública.

O barão Haussmann tentou impedir isso, com a reforma urbana de Paris, a partir de 1872. Foi imitado mundo afora. Urbanistas embelezaram cidades e expulsaram pobres de áreas centrais. Mas transformações físicas não bloqueiam fúria popular em momentos de tensão. E nem sempre a crise está apenas na mobilidade. Mas ela parece ter a característica de sintetizar demandas e contrariedades difusas e servir como impulso deflagrador de ações maciças.

Prestemos atenção em Santiago do Chile.

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