O crime de responsabilidade de Bolsonaro com a promoção da Cloroquina, por Leonardo Rossatto

"Bolsonaro está literalmente rifando vidas nessa brincadeira. Mas é nesses momentos que fica mais claro que nem valores universais como a vida estão acima de seus interesses pessoais"

Reprodução/Twitter

Jornal GGN – O especialista em Políticas Públicas, Leonardo Rossatto, usou sua conta no Twitter na noite desta sexta-feira, 11 de dezembro, para explicar a atuação genocida de Jair Bolsonaro (sem partido), em parceria com o Exército brasileiro, na defesa da cloroquina como tratamento em combate à Covid-19. Não existem comprovações cientificas da eficácia do medicamento sobre a doença, mas o governo federal estimulou sua produção e a distribuição no Sistema Único de Saúde (SUS) como medida de contenção da pandemia. Confira o fio:

Por Leonardo Rossatto

Em março, o Bolsonaro queria uma solução rápida pra crise do coronavírus, porque pra ele era inadmissível que as pessoas deixassem de sair de casa e estragassem a suposta recuperação econômica dele (que nem existia, aliás, balela do Paulo Guedes).

Daí apareceram algumas pesquisas muito preliminares falando da cloroquina para o tratamento de COVID em camundongos. Como é comum em pesquisas do tipo, a cloroquina vai bem na primeira fase, mas em geral é descartada depois pela alta toxicidade (um pesquisador me falou isso).

Mas Bolsonaro, desesperado pra acabar com o “lockdown dos governadores”, abraçou a cloroquina com tudo. Demitiu dois ministros da saúde por causa da cloroquina. Três dias antes da demissão do Mandetta, ele teve reunião surpresa com a Nise Yamaguchi, que defendia o medicamento.

Além disso, a cloroquina tinha outra vantagem estratégica: o Exército já produzia o medicamento em alguma escala pra combater malária entre os soldados em missões na selva e para evitar surtos entre populações ribeirinhas.

Imagina esse monte de informação circulando na cabeça de Homer Simpson do Bolsonaro: ele “acharia a cura pra doença”, “sairia como herói” e ainda “faria o povo adorar os militares”. Daí ele mandou o exército produzir milhões de cápsulas de cloroquina. E O EXÉRCITO TOPOU.

Só faltou combinar com o vírus. Com o tempo, foi ficando claro que a cloroquina ajudava muito pouco no combate à COVID e ainda trazia efeitos colaterais. Mas as cápsulas já estavam lá, produzidas. E produzir medicamento sem eficácia no meio de uma pandemia e distribuir é crime.

Um monte deles, aliás. É crime de responsabilidade, incorrendo em impeachment. É crime contra a saúde pública. No limite, pode até ser considerado genocídio (inclusive um doa argumentos usados pela Ucrânia pra considerar o Holodomor um genocídio independente do dolo é esse).

Disclaimer: pra quem defende a tese do Holodomor como genocídio, o argumento é de que quando Stálin permitiu a Trofim Lysenko fazer suas políticas agrícolas anti ciência assumiu o risco pela morte de milhões de pessoas por inanição independente de dolo, que foi o que rolou.

Juridicamente, é possível usar esse argumento contra Bolsonaro também: ao financiar um tratamento ineficaz para COVID e insistir nisso mesmo quando a ineficácia estava clara, Bolsonaro assumiu o risco pela morte das pessoas que foram tratadas com cloroquina.

POIS BEM: desde então, tudo o que Bolsonaro tem feito é para se livrar de todas essas acusações. Até o Trump desistiu da cloroquina (ele tinha uma eleição pra perder), mas Bolsonaro não. Por que? Porque ele precisa ter argumentos políticos e jurídicos pra se safar dessa.

Por que estou falando tudo isso? Porque Mandetta foi demitido ao não querer embarcar na loucura da cloroquina. Teich foi demitido ao não querer embarcar na loucura da cloroquina. O critério pra um novo ministro assumir era “embarcar na loucura da cloroquina”. Zero médicos toparam.

Quem é que estava junto com Bolsonaro na loucura da cloroquina? Os militares.

Daí Bolsonaro contratou UM MILITAR do Ministério da Saúde. Um militar “especialista em logística”. Pra que? Pra despachar as milhões de cápsulas de cloroquina produzidas por ordem do presidente.

Mais do que despachar as milhões de cápsulas, a missão era ao menos deixar dúvidas na cabeça da galera quanto à eficácia do medicamento. Como? Fazendo cortinas de fumaça e dando sinais confusos sobre outras cousas estilo vacina.

Então, a distribuição de toda essa cloroquina produzida foi errática até o momento. Agora o governo age em duas frentes: assumir o controle das vacinas, inclusive as produzidas pelos estados, e… despachar cloroquina. Tudo ao mesmo tempo.

E por que tudo junto? Porque Bolsonaro nunca admite erro ou derrota. O objetivo é sempre ajustar a narrativa para sair triunfante das circunstâncias. Então o engodo chamado Kit Covid vai ser distribuído AO MESMO TEMPO em que as vacinas. O motivo? Esse mesmo que você pensou.

Quando os casos diminuírem, Bolsonaro vai colocar toda a sua estrutura de comunicação, inclusive a que está nos EUA hoje, pra vender a narrativa “é o kit covid que está curando as pessoas, não é a vacina”.

Daí, na cabeça dele, ele mata três coelhos numa cajadada só: despacha a cloroquina represada, consegue um bom argumento de defesa pros crimes cometidos e ainda sai como herói da pandemia, pronto para ser reeleito em 2022 e enfraquecendo possíveis adversários como Dória.

Vai dar certo? Claro que não, mas talvez seja o suficiente para colocar um pouquinho de dúvida na cabeça de uma parcela da população e para enfraquecer os argumentos de acusação de crime de responsabilidade e de genocídio. E ainda limpa um pouco a barra do Exército.

Bolsonaro, como protótipo de ditador, só pensa nas coisas sob um viés: o dele mesmo. Então, sempre que a gente pensar em uma reação dele, tem que pensar sob a lógica do interesse individual imediato. Normalmente é se livrar de acusações ou livrar os filhos. Ele é baixo assim.

Inclusive eu espero estar errado e espero que o Bolsonaro quebre a cara da pior maneira possível. Ele está literalmente rifando vidas nessa brincadeira. Mas é nesses momentos que fica mais claro que nem valores universais como a vida estão acima de seus interesses pessoais.

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1 comentário

  1. Considero que o mais eficiente antídoto para livrar a população brasileira de mortandade catastrófica é criar com urgência um volumoso conjunto de provas, que comprove a total incapacidade do governo Bolsonaro continuar exercendo o mandato. Já passou da hora e o risco continua aumentando cada vez mais.

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