A mão do povo brasileiro: 1969/2016, por Walnice Nogueira Galvão

A mão do povo brasileiro: 1969/2016

por Walnice Nogueira Galvão

Lina Bo Bardi foi pioneira em muitos campos, que instaurou ou revigorou, tanto em São Paulo quanto nos anos em que atuou na Bahia. Basta citar, de suas obras paulistanas, o maravilhoso Masp, brasão da cidade, o Sesc Pompeia, o Teatro Oficina e a Casa de Vidro – todos ousadas concepções.

Entre suas mais caras devoções, que vão da arquitetura moderna ao desenho industrial, dedicou especial estima à arte popular.

Hoje em dia, toda capital tem seu Museu de Arte Popular, a exemplo dos de Berlim,  do México, de Lisboa; pelo Brasil afora, então, há inúmeros. Mas não se pode dizer que fossem comuns. Nos anos 50 Lina, leitora de Gramsci (cujas lições transmitiu a Glauber Rocha, seu discípulo), compartilharia o interesse crescente pela cultura material expressa nas criações do povo. Tal interesse vinha ao encontro do que já pregava Mário de Andrade.

A exposição “A mão do povo brasileiro”  inaugurou o Masp da Av. Paulista em 1969 – gesto de um certo atrevimento, porque o Masp se destinava a ser a casa dos Velhos Mestres. E, entre nós, deve ter sido das primeiras nesse campo das artes, pelo menos com âmbito tão vasto. A própria Lina já tinha montado duas outras, parciais, uma na Bienal de São Paulo intitulada “Bahia”, e outra em Salvador, intitulada “Nordeste”. E, após esta de 1969, faria mais algumas.

O pioneirismo de Lina em tantas coisas… por exemplo a constelação de vanguarda que integrou na Bahia. Ali dirigiu o Museu de Arte Moderna, que implantou, aliás conjuntamente com um Museu de Arte Popular, que não vingaria. Foi autora do projeto do belíssimo Solar do Unhão, do século XVI, para abrigar os dois museus. Dali seria destronada em 1964 pela ditadura, que não perdoou seu perfil socialista. E que, de fato, iria até ao ponto de censurar, proibir e fechar uma mostra de arte popular brasileira que Lina organizou na Itália no ano seguinte.

A atual exposição no Masp pretende replicar aquela de 1969, mesmo que as peças nem sempre sejam as mesmas. Saltam à vista, a partir da entrada, três obras monumentais como que a organizar o espaço: a urna marajoara, o São Jorge e o Cristo Morto.

E mais inúmeros objetos de madeira, ferro e barro, utensílios para a fabricação de coisas que vão desde o queijo até a farinha e o açúcar, alguns cujo desuso acarretou o enigma de sua serventia. É o caso da “Geringonça”, uma engenhoca com armação sobre um mastro, com lâmpadas e bonecos que deviam ser móveis e iluminados, mas da qual nada se sabe.

Há moendas, prensas e uma roca de fiar. Um boi do bumba-meu-boi  e uma zebra de carrossel. Cabeções de festas de largo. Matrizes ou “tacos” de xilogravura. Jóias de escrava, um alambique, máscaras de folguedos, bonecas de pano, acervos de ex-votos esculpidos ou pintados em pequenas telas.

Vêem-se peças nobres como as carrancas do rio São Francisco, que vão na proa das embarcações, ou humílimas como as colchas de retalho. Dentre estas, destaca-se um encantador zoológico, com silhuetas de animais em aplicações bordadas. Não falta sequer, confrontando o obstáculo de instaurar perspectiva num tecido plano, um laguinho com peixes. Precárias e elegantíssimas lamparinas feitas de latas de conserva, ou então de lâmpadas esvaziadas. Santos “de vestir”, que do pescoço para baixo são apenas armação, aguardando os paramentos dos dias de procissão. Canoas flutuando no teto, sobre nossas cabeças. Descomunais moringas antropomórficas, torneadas com humor. E mais uma pia batismal escavada na seção horizontal de um tronco de árvore de vasto diâmetro, todo esculpido com caretas e florões.

Também se exibem conjuntos coerentes e consistentes assinados por um único artista. Entre eles, Mestre Vitalino, que mal começava a ser conhecido, e hoje é toda uma escola que ocupa a cidade de Caruaru, com sua família e descendentes de várias gerações. O ceramista já foi mais de uma vez homenageado pelas escolas de samba no carnaval carioca. E seus bonecos forneceram os figurinos para um balé na abertura das Olimpíadas de 2016.

Ainda dá tempo: “A mão do povo brasileiro” permanece aberta até final de janeiro.  Não perca, vale a pena.

Walnice Nogueira Galvão – Professora Emérita da FFLCH-USP

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