Em 2014, o golpe de estado que derrubou o Presidente João Goulart e o início da ditadura que seguiu-se a ele completam 50 anos.
Um menino que tivesse, então, 10 anos será um senhor de 60, aposentado ou em véspera de aposentadoria.
Um menino que tivesse 10 anos em 1994, ano em que o Presidente Fernando Henrique Cardoso foi eleito, estará com 30 anos em 2014. Provavelmente completou seus estudos, está casado e, com uns poucos anos de vida profissional, inicia sua jornada de adulto.
A troca de geração é óbvia. E, embora possa se dizer que tal ocorreria na comparação entre quaisquer outros anos separados por três décadas, a comparação entre 1964 e 1994 se reveste um simbolismo ímpar na história recente desta nação.
Simbolismo reforçado pelo fato da eleição de 2014 ter como candidata e possível vencedora Dilma Rousseff. Será também uma troca geracional e o fim de um ciclo.
O menino de 64 carrega na memória um milagre econômico, o sonho ou maldição expresso em “Brasil, um país do futuro” e uma ditadura como seu preço ou penação.
Como eu, menino de escola pública, de camisa branca, calça cinza-chumbo e meias e sapatos pretos. Para as meninas, a mesma camisa branca, saias cinza-chumbo à altura dos joelhos, meias brancas e sapatos pretos. Éramos vistoriados antes de entrar em aula para verificação da correção dos uniformes. Se não nos cobravam a barba escanhoada, porque imberbes, nos cobravam os cabelos cortados atrás das orelhas e 4 dedos abaixo da nuca. As escolas eram pequenos quartéis, aprendemos a marchar antes de aprendermos a resolver equação do 1º grau.
Com censura e controle social por todos os lados, celebrávamos o poder ultra-jovem. Na televisão, recém adquirida, assistíamos que era proibido proibir, que as mulheres lutavam pelos seus direitos, que havia amor livre e pílula anticoncepcional. Para os mais velhos que já eram iniciados, qualquer doença venérea era resolvida com um talco carrapaticida ou uma injeção de penicilina.
Nosso mundo ainda ressoava ecos da 2ª guerra mundial, da revolução russa de 1917 e da Conferência de Berlim de 1885.
Anos depois, a juventude era uma banda numa propaganda de refrigerantes. Jovens adultos, vivemos um país em moratória, duas décadas perdidas e a redemocratização. A fantástica luta popular pelas “Diretas Já” e o renascimento do sindicalismo e do orgulho da classe operária.
Algumas recordações, muitas outras podem ser citadas. O importante é estabelecer um cenário que permita comparar esse mundo com mundo do menino de 94.
Não escolhi um menino de 94 à toa. Quando FHC recebe a faixa presidencial de Itamar Franco, seu antecessor, e quando passa a Lula, seu sucessor, 8 anos depois, é o primeiro presidente eleito a fazê-lo desde Artur Bernardes, quase 70 anos antes, em 1926.
O menino de 1994 não sabe o que é ditadura, eleição indireta, senador biônico e, embora esteja sob um controle social que o faz ser muito mais conservador em costumes do que seus pais, não sabe o que é censura, ato institucional, decreto lei ou lei de segurança nacional.
Embora possa ter saído às ruas para protestar contra “tudo que está aí” e reivindicar alguma coisa “Padrão FIFA”, não sabe o que é hiperinflação, “plano econômico” ou overnight.
Melhor assim.
Mas, aparentemente, há uma ruptura entre a geração que se retira e a geração que assume o posto. O menino de 1964 é irreconciliável com o menino de 1994.
Não é só uma nova geração que entrará em cena em 2014, é uma outra visão de mundo e outros são os seus valores.
E é nesse plano simbólico que eu espero a vitória de Dilma Rousseff em 2014. Seja para quem for que ela passará a faixa presidencial em 2018 um ciclo estará encerrado.
Faltará colocarmos uma lápide e algumas flores sobre a cova rasa onde se encontram os restos mortais dos resistentes desaparecidos. Mas o mesmo chão que os acolhe receberá a carcaça de seus torturadores e assassinos. A estes, se crêem em Deus restará o inevitável encontro com o capeta. Se não crêem, com a própria consciência, na hora da morte.
De todo modo, as vivandeiras serão enterradas junto aos seus granadeiros.
A revolução não foi televisionada, mas o menino de 1994 consultará seu verbete na Wikipédia.
Lucas Gomes
23 de dezembro de 2013 5:34 pmnós, meninos de 1994, não
nós, meninos de 1994, não sabemos o que é hiperinflação, não sabemos o que são senadores bionicos, não sabemos o que é a censura estatal.
Nós nascemos conhecendo cotidianamente os autos de resistencia seguida de morte, a precarização e a terceirização como sinônimos de trabalho e a política institucional como o abandono das expressões ideológicas, como o pragmatismo triste dos gestores e burócratas (inclusive na figura de vários personagens que lutaram bravamente contra a ditadura).
Os torturadores hoje não pertencem a um regime ou a um partido, estão incrustrados no sistema que é gerenciado por PSDB, PT, PSB, DEM, etc.
Jurgen2010
24 de dezembro de 2013 12:32 pmRealmente Irreconciliável
Pricipalmente pela lavagem cerebral patrocinada pela ditadura viva: a velha imprensa que os meninos de 64 são vacinados.