2019 – O ano sem volta de nossa psicopatia social?, por Alexandre Filordi

De fato, vivemos uma nova curvatura histórica com características de relações sociais idiossincráticas.

(Réunion de 35 têtes d'expression; Louis Léopold Boilly).

2019 – O ano sem volta de nossa psicopatia social?

por Alexandre Filordi

Figuras como Hannibal Lecter em O Silêncio dos Inocentes, Jack Torrance em O Iluminado, Begbie em Traispotting Sem Limites, dentre outros, povoam nossa imaginação acerca dos psicopatas. Astúcia, previsibilidade, frieza, falta de remorso e sentimento de empatia, violência com intensidades variadas, capacidade de perpetrar a maldade, refinada arte de ludibriar as pessoas; mas também o uso da mentira como dissonância cognitiva, o manejo de certa sedução perversa com boa dose de obsessão para se atingir qualquer finalidade acabam saltando aos olhos nas ações dessas personagens. 

 Se do ponto de vista cinematográfico o exagero daqueles traços é realçado com o intuito de endossar a trama, do ponto de vista da vida comum, os mesmos traçam podem estar presentes em qualquer psicopata. Nesse sentido, Daynes e Fellowes em Como identificar um psicopata arrolam vários exemplos da vida cotidiana. As autoras ainda sugerem que estamos nos inclinando para o desenvolvimento de uma sociedade psicopata: “uma sociedade que apoia os traços psicopatas ao estimular demonstrações superficiais de emoção, a busca de riqueza e glória e a competição”. 

De fato, vivemos uma nova curvatura histórica com características de relações sociais idiossincráticas. Alguns exemplos: Nicholas Carr em The Shallows, que poderia ser livremente traduzido por Os superficiais, evidencia como estamos perdendo a capacidade analítica, a destreza da profundidade lógica entre causas e efeitos, a persistência e a espera nos objetivos de longo prazo, desde que o imediatismo da internet vem estimulando as conexões cerebrais para se alimentar do aqui e agora. Sherry Turkle em Alone Together, algo como Juntos, mas sozinhos, faz o triste alerta acerca de nosso distanciamento da presença humana efetiva. Por exemplo, quando temos uma forte discussão com alguém, ler os seus sinais físicos, o olhar, os gestos, a respiração, o tom da voz, etc., aproximam-nos e aperfeiçoam-nos a ver no outro aquilo que faz parte da nossa face humana. Contudo, quando a mesma discussão é entabulada virtualmente, perdemos os fios dessa presença. Por sua vez, Jean Twenge e Keith Campbell em The narcisssism epidemicA epidemia do narcisismo – baseados em várias pesquisas, alertam-nos para o perigo das bolhas de retroalimentação do mesmo. Em outros termos, as redes sociais têm potencializado a explosão de micromundos sustentados por pessoas que, grosso modo, são órbitas concordantes de seus seguidores. Os discordantes são facilmente excluídos, limados, bloqueados, vexados, pois funcionariam como espelho quebrado à uma imagem que, na base do autoengano, não pode ser confrontada. A problematização que emerge desses pontos é a da sobreposição dimensional para a vida efetiva, isto é, aquela que padece de fome, sangra, adoece e morre.

Talvez o ano de 2019 tenha sido, de vez, a entrada do Brasil em uma bolha de psicopatia social. As afinidades eletivas dissonantes em tal bolha passaram a ser ameaças passivas de perseguição, em todos os flancos e em todas as oportunidades. Mais do que isso, a psicopatia social que se instalou no Brasil tem recepcionado, não sem reverberação de milhões de outros grupúsculos, a “normalidade” daqueles traços psicopatas. Em cada bolha narcísica; em cada bolha ideológica, religiosa, socioeconômica, partidária, reproduzem-se a normalidade do uso discursivo e prático da violência, a falta de remorso e de empatia com as mais distintas alteridades; fazem-se valer a demonstração superficial de sentimentos, a obsessão em se atingir as finalidades – doa a quem doer. Ao cabo, podemos ouvir ecoar o riso jocoso, insensível e perverso com a própria fragilidade humana.

Desde 2019, a condução política do país catalisou não sem destreza a nossa psicopatia social cotidiana. Eis, nos termos do psiquiatra francês Jean Oury, as nossas doses diária de normopatologização: o aumento escancarado da violência das forças do Estado, sobretudo com letalidade; o estímulo à destruição das condições ambientais de vida, seguido da leniência em se alterar os fatos; a perseguição e, por vezes, a execução premeditada de defensores de minorias raciais, sexuais, religiosas, artísticas, cidadãs, sem contar as de povos indígenas, quilombolas, ribeirinhas; o uso histriônico da autoconvicção política com o intuito de favorecer os seus financiadores, desidratando bens públicos como a educação e a saúde; a mobilização sistemática, paranoica e ignorante contra garantias fundamentais de livre expressão do pensamento, das artes, dos corpos, dos costumes. Tudo isso precedido por frias doses de manipulações, constrangimentos, histerismos e, não menos importante, alucinações sobre fatos e dados que pudessem funcionar como contraprova da realidade. 

A velocidade com a qual chegamos à “normalidade” dessa condição precedeu às primeiras marchas que nos engataram no mesmo processo. Por exemplo, bastaria a queda da presidenta Dilma Rousseff para a explosão de um crescimento socioeconômico digno de causar inveja aos nórdicos.

 Entretanto, o perigo disso tudo não reside somente no diagnóstico da situação atual. O mais perigoso, contudo, encontra-se no sentimento de impotência. O sentimento de impotência, nesse caso, aquela disposição disposta entre o estupor e a incapacidade de agir, pode nos conduzir à aceitação da normopatologização. Assim, ou nos esconderemos, reação normal visando à nossa proteção, ou pensaremos em formas de combater e de modificar o constrangimento das ameaças psicopatas que se impõe a nós.

Nessa direção, é urgente sairmos de nossas próprias bolhas. Resgatar a presença humana se tornou imprescindível, sobretudo em suas singularidades e diferenças. Embora seja verdadeiro que ninguém deixa de ser psicopata com dados e demonstrações, o fato é que se não somarmos forças reais, a tendência é a de sermos dragados nesse processo. Não se trata de fatalismo, ao contrário. Trata-se de nos apoiar nas leituras sociais que funcionam como diagnósticos sensíveis para os perigos aos quais estamos nos inclinando: aceitação da banalização da própria psicopatia social e, então, tomarmos as rédeas da histórica contra os fatalismos. 

Não poderemos esquecer 2019, é certo, muito menos de suas consequências. Mas precisamos cortar a sua sequência perversa, imediatamente. Qualquer tipo de mobilização, de luta, de agenciamento de afetos de resistências a toda essa sanha normopatológica emerge como sinal de que outra forma de vida possível. E tal forma de vida não é a da psicopatia social na qual fomos lançados, calcinados por uma política psicopata. 

Nunca foi tão importante celebrarmos um Ano Novo

Alexandre Filordi (EFLCH/UNIFESP)

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

Leia também:  Rumo da Ciência: multidisciplinar, interdisciplinar ou transdisciplinar?, por Fernando Nogueira da Costa

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome