#29M: é hora de construir o Brasil pós-Bolsonaro, por Paolo Colosso

O governo Bolsonaro mostra desgaste. A postura negacionista com a pandemia, a destruição ambiental e a política externa desastrada mancham a imagem do Brasil no cenário internacional

Foto Elineudo Meira

da BrCidades

#29M: é hora de construir o Brasil pós-Bolsonaro

por Paolo Colosso

As imagens das manifestações do 29 de maio são bastante impressionantes. Foram mais de 200 cidades brasileiras e uma dezena de capitais pelo mundo. Segundo os organizadores, 420 a 450 mil pessoas. Movimentos sociais e organizações sindicais mostraram ânimo renovado e boa convivência com a grande pluralidade de manifestantes. Havia uma presença bonita dos idosos da chamada geração de 68, faixas amarelas gigantes que incorporaram a linguagem do Black Lives Matter, batucadas de juventude e partidos diversos do campo progressista. 

Mais e mais segmentos da sociedade se dão conta de que o presidente é responsável por implodir instituições democráticas, intoxicar a opinião pública, além de manchar a imagem do Brasil, prejudicar o comércio exterior. Temos uma possibilidade de mostrar, de modo consistente e baseado em fatos, que o poder executivo é o gerador de crises e instabilidade.

O presidente não salvou vidas nem a economia. Os depoimentos recentes na CPI mostram que o governo federal foi negligente e omisso nas negociações com o Butantan e com a Pfizer porque, de fato, sua prioridade não era comprar vacinas, mas propagandear coloroquina e a imunização de rebanho. 

Esta semana soubemos que o PIB dá sinais de recuperação, mas isso não aparece na mesa do grosso da população. O número de desempregados, subutilizados e desalentados segue batendo recordes. São 15 milhões de brasileiras e brasileiros na fila por trabalho e mais 6 milhões que já desistiram de procurar emprego. O Brasil teria voltado a funcionar se tivessem investido na vacinação. 

O governo Bolsonaro mostra desgaste. A postura negacionista com a pandemia, a destruição ambiental e a política externa desastrada mancham a imagem do Brasil no cenário internacional e, agora que já estamos num momento pós-Trump, sem essa referência, a politica externa de Bolsonaro se mostra mais desorientada. Suas declarações desestabilizam o comércio exterior e nós corremos o risco de nos tornamos um Estado pária internacionalmente. 

A mamata nunca esteve tão gritante. Pelos fatos que vimos até aqui, há verba e até um orçamento secreto para comprar tratores e apoio do centrão, para aumentar o próprio salário e churrascos milionários. A austeridade só vale pra destruir patrimônio público, cortar salário de trabalhadores, promover o desmanche de universidades públicas, da política de ciência e tecnologia[1]. O Orçamento do Ministério da Ciência e Tecnologia é 34% menor que o de 2020. O da CAPES tem 1% a menos que o do ano passado, que por sua vez já era 28% a menos que o de 2019.  Temos um apagão da ciência. Nós investimos em ciência e tecnologia 1/3 do que se investia há 10 anos. Essa falta de perspectiva explica o recorde na fuga de cérebros. E esse quadro de mamata e austeridade nos ajuda a entender o que significa um neoliberalismo autoritário. 

O presidente perde legitimidade com as forças armadas e setores da polícia federal. Há algumas semanas, quando os três chefes da marinha, da aeronáutica e do exército pediram demissão, tivemos um sinal claro de que eles não pactuam com os rumos do governo. Tivemos outro sinal essa semana quando a cúpula do exército abriu um processo administrativo contra o general Pazuello pela participação dele em ato político, o que é proibido por lei. Não é impossível, mas está mais difícil Bolsonaro conseguir instrumentalizar as forças armadas para uma aventura anti-democrática.  Quanto à Polícia Federal, desde a famigerada reunião de 22 de abril de 2020, o presidente já havia dito que interviria nesta para salvar seus filhos; há duas semanas, autorizou a troca do superintendente da polícia no Amazonas para evitar uma investigação sobre a conduta duvidosa do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que ainda está em curso.

Mas Salles é um ativo tóxico para o governo. Muito provavelmente, vai ter de cair. As investigações sobre sua destituição nas funções do ministério ganham corpo. Recentemente, a Procuradoria Geral da República pediu abertura de inquérito para investigar crimes de advocacia administrativa, por dificultar fiscalização e investigação de infração, envolvendo organização criminosa e o STF pediu a quebra de sigilo bancário. Se for comprovado seu envolvimento em negócios ilícitos, mais um conjunto de vexames: ele não somente terá trabalhado para passar a boiada, como também separou para si alguns dos bois. Cairá com Salles um conjunto de pronunciamentos delirantes sobre ONGs colocarem fogo na Amazônia, autolicenciamento ambiental, etc. Ou voltamos à realidade, ou o presidente terá muito trabalho para estancar essa sangria.

Está mais evidente para as altas patentes das forças armadas e quadros da PF que o presidente mancha e distorce funções de instituições do Estado e, cada vez que interfere trocando postos de chefia, mais essa imagem se difunde entre as corporações. Os quadros de alta patente precisarão avisar seus subalternos de que o presidente inflama a sociedade contra si mesma e, o ano que vem, pode ser ele próprio o agente disparador de uma guerra civil. Resta saber o quanto há no chefe do executivo algo daquele jovem capitão transgressor dar ordem. 

O fato de, nos últimos tempos, o presidente ouvir mais o pastor Silas Malafaia que  ministros é sintomático. O presidente é pouco aberto a revisão de rotas, pouco afeito às tarefas mundanas de coordenação e tomadas de decisão a partir de dados e evidências. Como bom agitador, o presidente precisa se socorrer na retórica messiânica, esconder-se em dogmatismos transcendentais apaixonantes e manter-se distante dos fatos e fenômenos reais. 

Do lado da reconstrução, vão ser necessárias precauções sanitárias e também cuidado com pretextos que visam deslegitimar manifestações populares. Sabe-se que, historicamente, os espíritos anti-democráticos forjam baderna em ato pacífico quando se veem acuados.

E para que os ânimos sigam expansivos, ainda não cabe nos perguntarmos o que vai acontecer em 2022. O importante é que o #29M deflagrou uma força coletiva para imaginar um Brasil pós-Bolsonaro e é isso o que nos abre para novas possibilidades.  Precisamos  fazer com que outros  segmentos da população frustrada enxerguem o fim do túnel e se concentrem num ponto: o chefe do executivo, a maior autoridade do país, é também o maior responsável pela crise humanitária em que nos metemos.

Precisamos voltar a fazer política com debate racional e programático, o que vai exigir que sejamos didáticos e assertivos. Com a sobreposição de crises e erros persistentes, mais e mais setores da sociedade se abrem à escuta e percebem a urgência de abandonar a mitologia. É chegada a hora de imaginar um país depois da terra arrasada e construir desde já novos pilares para um Brasil pós-Bolsonaro. Não vai ser uma tarefa fácil, mas necessária para nos mantermos vivos.

Paolo Colosso é urbanista e filósofo, professor na Universidade Federal de Santa Catarina, onde é coordenador do programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo. Compõe a coordenação nacional da Rede BrCidades.


[1] https://jornal.usp.br/universidade/politicas-cientificas/orcamento-2021-coloca-ciencia-brasileira-em-estado-vegetativo/

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