A autocrítica de Lula, por Paulo Henrique Fernandes Silveira

“Temos séculos de preconceitos”, argumenta Lula, “séculos de dominação da Casa Grande, a Senzala sempre foi muito mal tratada, reverter tudo isso, sabe, é uma coisa difícil, nem sempre dá certo!”

A autocrítica de Lula

por Paulo Henrique Fernandes Silveira

Com tanta coisa importante para se discutir sobre “Democracia em vertigem”, muitos só se preocuparam em acusar a diretora Petra Costa de ter produzido um filme de propaganda do PT, de Lula e de Dilma. Logo após o impeachment, dentro de um carro que levava Lula e Marisa para algum lugar, a própria diretora formula uma questão fundamental: “(…) se arrepende de alguma coisa?” Na primeira entrevista que lhe foi permitido conceder na cadeia, a jornalista Mônica Bergamo refez essa mesma questão, provavelmente, esperando uma confissão do presidente.

Com o carro em andamento, claramente abalado, Lula responde à Petra que se arrependia de muita coisa. Ele destaca uma: não ter enviado ao Congresso Nacional um projeto de regulação da mídia, uma vez que, no Brasil, apenas, nove famílias tomam conta dos meios de comunicação. “Temos séculos de preconceitos”, argumenta Lula, “séculos de dominação da Casa Grande, a Senzala sempre foi muito mal tratada, reverter tudo isso, sabe, é uma coisa difícil, nem sempre dá certo!” Então, Lula esboça a alternativa que ele e o partido refutaram: uma revolução!

Segundo o presidente, numa revolução, uma quantidade enorme de pessoas morre em batalha e muitos acabam fugindo. Após a revolução, afirma Lula, fica a promessa de que se pode fazer tudo, e alguns países conseguiram fazer. Mesmo assim, insiste o presidente: promover mudanças com democracia; com liberdade de imprensa; com o direito de greve; com o direito de manifestação; com o Congresso funcionando, é muito mais difícil, mas é mais compensador; aos poucos, as pessoas vão aprendendo a cultivar os valores da democracia.

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Lula não se arrepende do caminho trilhado, mesmo sabendo que o caminho da revolução poderia ter promovido mudanças mais amplas e mais rápidas. O caminho trilhado pelo PT implicou em acordos com setores da burguesia, até mesmo com as famílias que dominam os meios de comunicação. O presidente não se diz arrependido desses acordos, tampouco de ter aceito as condições impostas pela burguesia para a manutenção do seu apoio econômico e político. Resta-nos a questão que ele coloca: como mudar um país dominado pela Casa Grande?

Paulo Henrique Fernandes Silveira (FEUSP e IEA-USP)

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6 comentários

  1. Não assisti, nem pretendo tão cedo, ao documentário Democracia em vertigem. Ainda dói, e se apertar pode ficar difícil levar a vida com tantas restrições e vendo a tristeza diariamente nos corpos entorpecidos que sequer conseguem formular os motivos de sua desgraça – para não dizer, aprender a segurar a indignação quando somos confrontados com bolsominions raivosos como me aconteceu anteontem; essa sangria precisa estancar antes de coagular em ódio.
    Feito o intróito lamentativo, tento responder a pergunta: “como mudar um país dominado pela Casa Grande?”: organizando a senzala, convivendo com ela para entender como suas forças podem ser usadas, de maneira pacífica, para superar a disputa cruel. Lendo este artigo de opinião, me lembrei de uma encenação que assisti em vídeo, há alguns meses, gravado numa biblioteca dos USA, num evento que lembrava a guerra civil de lá, salvo engano, em que uma bibliotecária negra fazia o papel de Harriet Tubman (The black Moses, a Moisés negra) e recitava passagens de um livro feito com suas memórias, para uma platéia de crianças curiosas, e em que ela relatava como conseguiu aprender a dirigir trens e depois de fugir da fazenda em que era escrava, ajudar centenas de outros a fugirem, sem confronto nem violência, e de sua amizade com famoso de quem não recordo o nome – rs, preciso de memorex – e relutância em aceitar a via do confronto proposta por ele. Detalhe que também me chamou a atenção foi sua observação de como eram ajudados a fugir por pessoas que cruzavam seu caminho, como por indígenas com quem muitos negro/as em fuga depois se casaram.
    Voltando ao caso emblemático de Tubman, acho que o problema é estabelecermos de antemão por que, segundo os argumentos do artigo, somos tão fracos mesmo quando ganhamos o poder político, por exemplo via eleições, que temos que obrigatoriamente ceder a uma submissão velada, para evitar derramamento de sangue em guerras que poderiam, apenas estas, nos dar vantagem competitiva.
    Minhas divergências com estes argumentos:
    1 – primeiro, quem disse que revoluções precisam ser violentas e sangrentas? segundo, quem disse que as que assim foram garantiram maior vantagem aos revolucionários e às suas ideias? terceiro, no Brasil estamos em guerra não oficial desde a invasão (perspectiva autóctone)/descobrimento (perspectiva do colonizador), e nem isso foi suficiente para dar vantagem nenhuma ao povo marginalizado – o que explica que a segurança pública, como sucedâneo do feitor e do capataz, nos dê as estatísticas que temos de país mais letal que países oficialmente em guerra; perguntem nas favelas e periferias o que acham disso; perguntem a indígenas e lutadores do campo se a guerra travada lá é o caminho para a democracia ou seu pior entrave. Então, essa equação tem falsos elementos para justificar uma conclusão politicamente covarde.
    2 – as revoluções benéficas para a humanidade e mais duradouras no mundo, sejam elas sociais, científicas, tecnológicas, culturais, nunca se impuseram pela força do punho ou de seu sucedâneo em violência, mas pela força de convencimento e adesão das pessoas, por critérios vários (preferência, adoção da maioria como norma, resultado da concordância tácita que antes não se manifestava por medo de opressão, acomodação e adaptacionismo, etc). É um pouco batido mas é importante lembrar Gandhi e o enfrentamento do império britânico, Mandela e sua vitória sobre o apartheid exatamente quando descobriu que a violência não era o melhor caminho (o que não o impediu de lutar, apenas tornou a estratégia mais inteligente e corajosa – sempre lembro de uma entrevista na TV USamericana em que ele enfrentou o lobby sionista para apoiar o estado palestino, mantendo-se educado, mas direto e assertivo sobre seus motivos -, e mais recentemente mas estupidamente ignorado pela maioria das esquerdas mundiais – sinal de sua crescente irrelevância – do movimento ambientalista mundial: há um grupo no Reino Unido, o Extinction Rebellion (XR), que tem em seu decálogo a determinação expressa de ser um grupo que utiliza a desobediência civil como arma política e a não-violência como norma ética em toda a sua atuação, inclusive a comunicação pública e a organização de eventos (yeah, os hippies voltaram, e fizeram upgrade em estratégia política, rs), porque um de seus líderes, ao estudar como organizar um movimento que fosse efetivo em atingir suas metas e não se perdesse em quimeras e repressão policial e descrença social, percebeu que a violência sempre se voltava contra os movimentos estudados, afastando o público que queria ser alcançado, transformando em inimigos potenciais aliados e aqueles a quem os movimentos queriam ajudar ou representar. Isso para não falar das greves de jovens, lideradas pela lindinha sueca, Greta Thunberg, de uma maturidade, inteligência, compromisso ético e coragem, políticos e estratégicos, que não se vêem em gente com mais experiência e idade que ela (obrigada, Deus, por suas criaturas vocacionadas), e que tem a não-violência como primeiro critério para quem pretende se juntar ao movimento Fridays for Future (visitem o site http://www.fridaysforfuture.org). E ambos os grupos estão levantando a Europa e boa parte do mundo, de jovens a rebeldes veteranos desiludidos com o engessamento da política tradicional e com a capitulação das esquerdas partidárias diante do momento em que o capitalismo mais precisa ser enfrentado, quando inegáveis seus dois piores resultados, a pornográfica e injustificável desigualdade sócio-econômica e as crise ecológica ampla de que a emergência climática é o sinal de febre alta.
    Portanto, esse é o caminho.
    Mas aqui temos um problema grave que é a falta de auto-organização. Não sei as razões sociológicas e históricas pra isso, se a violenta repressão que funciona, como pretende, como chicote “pedagógico”, ou se uma tendência de acomodação de um país que se tornou refúgio para tantos povos fugindo de guerras – preferem descansar de outras lutas a iniciar novas -, mas é fundamental reconhecer que não sabemos mobilizar o povo, sequer a nossos próprios grupos de interesse mais imediato quando necessário.
    E sem organizar o povo oprimido, subalternizado, que tem a força e o papel de fazer a revolução de maneira pacífica e responsável mas carece de quem os desperte, entenda, trabalhe com ele, lidere e ponha em contato com outros povos, ficaremos sempre sob este falso dilema de que nosso problema é que a elite (o lobo) não colabora com nosso (cordeiros) direito de sublevação. Ora, se a elite concordar não é revolução, é contrato social duvidoso a ser depois revogado em cortes da própria elite, ou seja, um estelionato.
    Quem tem medo de povo? A quem cabe organizar a senzala? Acho que esta é a pergunta que pode desempatar o dilema que é sempre mantido para justificar por que a esquerda perdeu os dentes de tanto sorrir para o adversário: Sorria, você está sendo espoliado, diz o capitalismo diariamente quando soca nossas bocas com fome e desalento.
    Eu não ia colocar este vídeo aqui, mas acabou que tem a ver com o comentário.
    A oposição de esquerda em Honduras se levanta e leva o povo às ruas, no aniversário de 10 anos do golpe apoiado pelos USA.
    Trabalho jornalístico do importante Grayzone Project, liderado por Max Blumenthal, um guerreiro em defesa dos povos atacados pelo imperialismo USamericano.

    Hondurans describe nightmare of life under US-backed ‘dictatorship’
    https://www.youtube.com/watch?v=nrEkO2aTygI

    Sampa/SP, 04/07/2019 – 18:36

  2. “…como mudar um país dominado pela Casa Grande?”. A Elite Esquerdopata insistirá na busca da sua redenção com estes papo? Insistindo no DonSebastianismo do Caudilhismo Fascista que nos persegue desde 1930? Brizola, Jango, Prestes, ícones da Esquerdopatia a defender a herança de Ditadura Fascista. Sindicalismo Pelego produzido neste mesmo Regime Varguista, perpetuado tendo seu apogeu na ascensão de Lula, será a bandeira da Nação que busca a Democracia? Democracia que dizem não ter vingado ainda, mas que tais Elites desconhecem a razão? Somos Surreais !!

  3. quem tem a resposta a essa
    pergunta crucial?
    quem dirá, principalmente
    quem nunca sequer tentou
    algo semelhante?

  4. Certo. Não que caiba uma autocrítica . O caminho já estava pavimentado: Honduras, Paraguai, Brasil, Turquia, Venezuela … Porque não? Epa, nestes últimos a patranha enrolou, mas havia dado certo até na Ucrânia. Aqui como registrou Lula, tinha caldo de cultura amadurecido a mais de 500 anos. Quem não se molda nos ‘princípios’ regimentais dança : Tiradentes, Getulio, Jango … A história vai reconhecer logo mais o valor de Lula, mas como aconteceu a Silvério dos Reis já podemos ver quem foi moro

  5. Três versões desse mesmo caso:

    “Conta o senador Roberto Requião, nunca desmentido, que Dirceu desdenhou a TV pública do Paraná, que Requião enquanto governador do Estado transformou numa trincheira da esquerda. Instado a repetir a experiência em âmbito nacional, Dirceu teria respondido: já temos a nossa TV, é a Globo.”

    https://www.viomundo.com.br/politica/jogada-esperta-dos-irmaos-marinho-cacifa-globo-para-influir-na-escolha-de-2018-quem-tem-condicao-de-enfrenta-los.html

    Requião: “Eu acreditava que o Lula era um intelectual orgânico. Mas descobri que não é. Ele foi um representante dos sindicatos para para intermediar os interesses do povo com o grande capital. Um dia eu contei para o Lula como tratei a Comunicação no Paraná. Cortei todas as verbas de publicidade. Investi na tevê estatal, a TV Educativa, e fiz um acordo com Hugo Chávez para distribuir o sinal pela Telesur. Lula ouviu, pareceu muito interessado, e me disse: vai ali e diga ao Dirceu. Dirceu ouviu e disse, mas, Requião, o Governo já tem uma tevê: é a Globo.”

    https://www.diariodocentrodomundo.com.br/essencial/requiao-dirceu-achou-que-podia-controlar-globo-com-dinheiro-de-publicidade/

    Segundo ele [Requião], no primeiro mandato de Lula, quando era governador, foi ao encontro do presidente e lhe contou o que havia feito na comunicação do Parana, onde acabou com a verba publicitária e investiu todos os recursos na TV Educativa local. Lula teria se animado com o que ouviu e pediu-lhe que conversasse com o então ministro da Casa Civil, José Dirceu. Requião foi ao quarto andar do Palácio e enquanto contava ao ex-ministro sobre o quanto a TV Educativa estaria sendo importante para o governo, Zé Dirceu teria lhe interrompido e dito: “Requião, mas o governo também tem uma TV”. Isso aconteceu antes da criação da TV Brasil, que se deu no segundo mandato de Lula. Requião teria ficado surpreso e perguntou: “mas que TV, Zé?”. Ao que o então ministro, respondeu: “A Globo, Requião.”

    https://www.revistaforum.com.br/bblogdorovai-jose-dirceu-teria-dito-globo-e-tv-governo/

  6. Podia começar por abandonar essa imagem surrada de Casa Grande X Senzala. Há milhões de brasileiros que não se identificam com a Casa Grande, e ao mesmo tempo sentem-se ofendidos ao serem comparados com habitantes de uma senzala.

    E depois, parar com essa obsessão de “regular a mídia”. Kirchner regulou a mídia na Argentina. Adiantou?

    O ‘X’ da questão é que vocês estão convencidos de que são os porta-vozes do povão, ou da senzala, como vocês os chamam. Mas vocês não são o povo, vocês são intelectuais pequeno-burgueses. Daí recorrerem tanto a esquematismos teóricos e imagens alegóricas que pouco ou nada têm a ver com a realidade do povo. Se o povo não se manifesta como vocês acham que deve, a explicação é sempre a mesma: está sendo enganado pela mídia mentirosa. Isso é bobagem. Povão não lê editorial de jornal. A mídia já atacava Lula desde os idos do mensalão, e não adiantou nada, porque naquele tempo a economia ia bem. Quem derrubou o PT não foi a mídia, foi a economia, sobretudo depois que ficou claro que a crise era real e que a campanha da Dilma em 2014 era mentirosa.

    Já a conversa sobre revolução, é puro devaneio. A ideia que vocês têm de revolução é coisa do passado. No Brasil não há mais, ou nunca houve base social para uma revolução nos moldes que vocês pensam.

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