A banalização do grotesco e a destruição do país, por Jaqueline Morelo

Esta reflexão é uma tentativa de entender este momento, considerando aspectos relacionados à estrutura social (construção ideológica da sociedade), visto que já ficou claro que existe um projeto de destruição do país para fins de dominação

A banalização do grotesco e a destruição do país

por Jaqueline Morelo

Em que momento se inicia no país a aceitação de uma sociabilidade pautada no desrespeito – aos mais velhos, aos mestres, aos mais frágeis das relações -, e no desprezo ao conhecimento e à razão? O que possibilitou a substituição do diálogo e dos modos civilizados de relacionamento por vulgaridade, ignorância e violência nas relações? Como foi possível a aceitação de um insulto ou um palavrão como resposta para qualquer questionamento? Quando foi que jovens, crianças e até mesmo anciãos perderam a empatia, aquilo que nos define como humanos, e começaram a escarnecer de todos nós que defendemos direitos, instituições, regras e procedimentos democráticos? Em que momento todos os ódios represados, contra minorias e fragilizados, se sentiram livres e autorizados para proferir impropérios e agir de forma violenta? Por que milhões se identificam com um presidente destilador de ódio, incapaz de proferir uma frase sem apelar à vulgaridade? Quando foi que permitimos a banalização do grotesco que hoje nos adoece e nos faz sentir desterrados em nosso próprio país?

Esta reflexão é uma tentativa de entender este momento, considerando aspectos relacionados à estrutura social (construção ideológica da sociedade), visto que já ficou claro que existe um projeto de destruição do país para fins de dominação política e apropriação de nossas imensas riquezas (petróleo, água, biodiversidade, etc.), como parte da estratégia geopolítica fruto do embate entre os grandes –  EUA, China e Rússia, em especial.

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É preciso considerar, portanto, que aqui foi intencionalmente gestada, a partir da última década, pelo menos, uma mudança cultural, pois que no campo simbólico, que precedeu e preparou as bases para o horror aqui instalado, esse Estado hoje em decomposição, já secularmente cingido pela ausência de solidariedade social. Portanto, esse projeto de destruição ora em curso pressupôs a aceitação e internalização de alguns valores e ideologias amplamente disseminados pela mídia, notadamente a televisão e, em especial, telenovelas da Rede Globo, Jornal Nacional e programas de entretenimento sensacionalistas que se autodenominam jornalísticos; e por seitas evangélicas neopentecostais – também concessionárias de redes de redes de rádio e televisão.  Importante mencionar que esse processo só obteve êxito devido à pré-existência de algumas características em parte da considerável da população: falta de hábito de leitura, pouco apreço ao esforço intelectual, ação e escolhas orientadas por preconceitos e crendices.

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O que podemos constatar é a disseminação, por esses programas e igrejas, de um modelo de sociabilidade e de sociedade que, por serem amplamente consumidos, se complementam e  reforçam-se mutuamente. As telenovelas reproduzem, ad infinitum, uma visão de mundo maniqueísta, simplificadora e quase sempre deslocada da realidade objetiva da vida, e nas quais as relações são pautadas pela objetificacão do Outro, pelo uso privilegiado de violência simbólica e física, pelo emprego da “via mais fácil” para as soluções dos problemas ou dificuldades da vida, quase sempre desconsiderando regras e/ou moral. O modelo de sucesso é relacionado ao consumo e à posse de bens.

Tal modelo é reforçado pela “Doutrina da Prosperidade”, carro-chefe das pregações dos pastores neopentecostais, onipresentes nas comunidades, nas quais pouco se percebe a presença do Estado. É esse pastor, muitas vezes, a pessoa mais próxima dos desesperados, desamparados, aflitos de toda sorte, que se dispõe a socorrê-los. Por isso ele detém a confiança dessa gente toda que, por outro lado, teria como opção se sujeitar ao crime organizado, este também onipresente nas periferias e favelas.

Agindo na mesma direção das telenovelas e também disseminando a sua “verdade”, os programas sensacionalistas policiais têm no crime seu principal tema, exploram e reiteram a visão simplificadora das relações sociais, atuam como juízes em um mundo próprio, onde existe somente o bem e o mal. Nesses programas escancaram, sem pudor e em linguagem chula, toda sorte de preconceito e intolerância. De olho na audiência e com o exclusivo compromisso com o faturamento, esses apresentadores destilam ódio, condenam aquele que consideram criminoso, combatem os direitos humanos, jamais questionam o sistema que produz a violência. Portanto, prestam um verdadeiro desserviço à democracia.

Sobre o telejornal de maior audiência do país, para muitos brasileiros a única fonte de informação, há dezenas de estudos científicos que demonstram o papel importante do Jornal Nacional na formação da opinião pública, seja na produção de concordância, seja instigando  rejeição a ideologias, projetos, partidos, indivíduos. Mas o que fez de pior para o país foi sua campanha pela criminalização da política e das instituições políticas – como já vinha fazendo há anos com os movimentos sociais -,  que se traduziu na produção de um descrédito imenso e talvez irremediável, da população, pelas regras e procedimentos democráticos. Ao aderir incondicionalmente à Lava Jato, produziu a falsa ideia do campo político como essencialmente corrupto. Agravando ainda mais a situação, ao não colocar nada no “vazio” que produziu, corroborou para a disseminação da aversão à política e da ideia de que um “não político” seria uma alternativa para o país. Como jogada final, nas últimas eleições se dispôs a tirar Lula de cena.

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Portanto, eficácia da disseminação de fake news,  adesão à campanha empreendida pelos pastores neopentecostais nas últimas eleições,  aceitação do candidato do ódio adorador de torturador, só foram possíveis porque já estavam criadas as condições subjetivas e simbólicas para tal. Ou seja, a ascensão da vulgaridade e do grotesco no país antecedeu e preparou as bases para a tomada do poder pela ultra-direita, cujo único projeto  é entregar as nossas riquezas e destruir o que foi construído ao longo de séculos. 

Jaqueline Morelo – Jornalista, cientista social, mestre em Ciência Política, é diretora da Associação Internet Sem Fronteiras – Brasil. jaquelinemorelo@gmail.com

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2 comentários

  1. O desprezo pelo que é público também. Em quase todas as conversas, inclusive com gente pobre que não tem acesso a planos de saúde, educação privada, nem LUZ E GAS as vezes, enaltecem as privatizações pois o serviço publico seria “cambada de preguiçosos” “sustentados” (como se o judiciário e o congresso não padecessem dos mesmos males), mas sem perceber que sem serviço público estariam ainda piores do que estão.

  2. Por favor, Alguém avise ao Witzel Cara de Rato que:

    “Nenhum homem é uma ilha, completa em si mesma; todo homem é um pedaço do continente, uma parte da terra firme. Se um torrão de terra for levado pelo mar, a Europa fica menor, como se tivesse perdido um promontório, ou perdido o solar de um amigo teu, ou o teu próprio. A morte de qualquer homem diminui a mim, porque na humanidade me encontro envolvido; por isso, nunca perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”.

    John Donne, Poeta Inglês

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