A brutalização da vida política, por Paulo Fernandes Silveira

No livro Soldados Caídos (Fallen Soldiers), publicado em 1991, Mosse destaca a brutalização que antecede a ascensão do nazismo.

(Genocídio Armênio – 1915-1923, na atual República da Turquia)

A brutalização da vida política

por Paulo Fernandes Silveira

“Nossa força reside em nossa rapidez e em nossa brutalidade; com premeditação e coração leve, Genghis Khan caçou até a morte milhões de mulheres e crianças. A história vê nele apenas o grande fundador de Estados. Quanto ao que a fraca civilização da Europa Ocidental afirma sobre mim, não importa. Determinei o comando – e mandarei fuzilar quem pronuncie qualquer palavra de crítica – o objetivo da guerra não consiste na conquista de certas linhas, mas na destruição física do adversário. (…) Minhas unidades da Caveira (Totenkopfverbände) estão de prontidão, com a ordem de levar à morte sem piedade e sem compaixão, homens, mulheres e crianças de origem e língua polonesas. Somente assim conseguiremos o habitat natural de que precisamos. Quem ainda hoje fala sobre a destruição dos armênios?” (Hitler, Obersalzberg Speech, 22/08/1933).

Esse texto é a transcrição de uma parte de um discurso de Hitler, proferido na sua casa de campo, em Obersalzberg, região montanhosa da Baviera. Essas palavras foram dirigidas ao alto comando do seu exército, uma semana antes dos alemães invadirem a Polônia. Em sua exposição permanente, o Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos (USHMM) reproduz esse texto num de seus murais (aqui).

Num artigo de 1986, George Mosse, historiador alemão de origem judaica, sustenta que, após a primeira guerra mundial, começa a se delinear o mito da experiência de guerra: as batalhas de trincheiras são apresentadas como uma prova de masculinidade, o exército passa a representar um ideal de camaradagem para os jovens e os soldados caídos são considerados heróis nacionais.  (aqui).

As cerimônias e monumentos em homenagem aos soldados, os cartões postais, as fotografias, as peças de teatro e a literatura sobre o tema, bem como os soldados de estanho e os jogos de guerra das crianças, trivializaram a guerra e a violência. Além disso, a ideia recorrentemente enfatizada de que o inimigo político deve ser totalmente destruído instaurou um processo de brutalização da vida política.

No livro Soldados Caídos (Fallen Soldiers), publicado em 1991, Mosse destaca a brutalização que antecede a ascensão do nazismo. (aqui) Uma das marcas dessa brutalização foi a crescente indiferença dos alemães à vida humana. Enquanto o assassinato de 49 judeus em 1903, na cidade de Kichnev, provocou um escândalo, o assassinato de 60 mil judeus em 1919, nos pogrons russos, mal foi noticiado na Alemanha.

Foi nesse contexto que Hitler chegou ao poder e promoveu o genocídio de milhões de vidas. A tese de Mosse sobre a brutalização da vida política nos ajuda a entender a ascensão de outras lideranças violentas nos últimos anos. Somente uma sociedade brutalizada seria capaz de se seduzir pelo discurso de um político que defende a destruição dos seus adversários.

Paulo Fernandes Silveira (FEUSP e IEA-USP)

 

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