A contradição insanável entre bolsonarismo e neoliberalismo, por André Motta Araújo

Como pode o bolsonarismo ter uma plataforma econômica que depende da percepção positiva de países que tem como linha geopolítica o antipopulismo de direita?

Foto: Isac Nóbrega/PR
A contradição insanável entre bolsonarismo e neoliberalismo
André Motta Araújo

 

As ideologias latino-americanas que datam de meados da primeira metade do Século XX tem um DNA comum: o Estado forte. Começa com o Aprismo peruano de Victor Haya de la Torre, depois o Peronismo argentino que domina o pais vizinho até hoje, o Varguismo do nosso Getúlio, que se iniciou como Estadonovismo, de 1937.

Todos tem como base estrutural a prevalência do Estado, o Estado Forte, construindo o ethos nacional, liderando o resgate dos valores nacionais, da cultura nacional, salvarguardando a economia nacional contra interesses estrangeiros.

Todas essas ideologias de direita são Nacionalistas, portadoras de valores nacionais contra a pirataria estranheira, contra a incursão do imperialismo sobre o Poder Nacional, é a razão de ser da ideologia como conjunto de valores de combate, de luta contra adversários.

O Bolsonarismo é um pastiche de ideias antiprogressistas, no sentido de ser contra a evolução dos negros, dos índios, dos LGBT, dos migrantes, do conjunto dos pobres querendo ser classe media, dos filhos dos pobres querendo estudar em universidades.

O Bolsonarismo é anti-globalista, anti-multilateralista, anti-ambientalista. Então como pode ter na politica econômica uma plataforma que depende da percepção positiva do conjunto dos países centrais que tem como linha de ação geopolítica o anti-populismo de direita e ter um comando Neoliberal Globalista na economia ? Não faz nenhum sentido, é uma contradição insanável. Ou é pelo Estado Forte ou é pelo Estado Mínimo.

O neoliberalismo globalista pretende  o Estado Mínimo, um Estado não presente na saúde pública, na previdência social, na promoção do crescimento pela ação de estatais, de bancos públicos, de projetos públicos de infraestrutura, transportes, saneamento.

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Tudo deve ser pelo mercado, por concessões, o que é do Estado deve ser privatizado, o Estado não deve ter bancos, empresas, projetos, apoio a empresas. Como conciliar UM estado forte com o neoliberalismo à moeda chilena?

Não é possível, são conceitos filosóficos inconciliáveis. Ou é uma coisa ou é outra. O perfil de Ultra Direita do Bolsonarismo é incompatível ideologicamente com o Neoliberalismo chileno do Ministro Paulo Guedes, é uma combinação impossível e inviável. Não tem como dar certo.

As ideologias latino-americanas de perfil clássico propõem um Estado Forte e Nacionalista. Essa era a marca central do Aprismo (Aliança Progressista Latino Americana), do Peronismo, do Varguismo positivista. A ideia-força é o Estado Forte e não o mercado forte.

A combinação Bolsonarismo com Neoliberalismo é impossível sob o ponto de vista conceitual, é um coquetel explosivo e impalatável. No Chile NÃO DEU CERTO, ao contrario do que propaga Guedes.

O Presidente Pinochet liquidou com o neoliberalismo do Ministro da Fazenda Sergio de Castro, demitido em 22 de abril de 1982 e substituído pelo General Enrique Montero, porque viu que o neoliberalismo estava levando o Chile ao abismo, fato que os admiradores do meoliberalismo à chilena no Brasil omitem completamente.

O Bolsonarismo é um conjunto de ideias populistas de ultra-direita, um sistema incompatível com o Neoliberalismo, que é globalista e pelo Estado mínimo, uma mistura indigesta, incompatível com a lógica politica e econômica. Ou é uma coisa ou é outra, é um arranjo de circunstancia que não tem como sobreviver.

14 comentários

    • Cumprimento o prezado pelo excelente artigo, parece transmissão de pensamento, por linhas diversas chegamos à mesma conclusão. Talvez o Presidente não saiba que Pinochet perdeu o poder no Chile
      por causa do fracasso neoliberal que criou o clima para o referendo que o expeliu do poder, portanto o
      neoliberalismo chileno NÃO FOI UM SUCESSO, ao contrario do que apregoam os Chicago boys (velhos)
      brasileiros, foi um rotundo fracasso e agora reverberado com as manifestações interminaveis causados
      pela crise social que esse modelo criou no Chile de então e que se arrasta até hoje.
      Estamos COPIANDO UM FRACASSO comprovado que não deu certo nem em condições estruturais muito melhores que aqui, o Chile tem uma classe media bem maior proporcionalmente que a brasileira, tem uma população pequena, sempre teve bom sistema de educação, não teve a herança da escravidão e
      no entando a copia a frio do modelo de Chicago NÃO DEU CERTO antes e agora, como é possivel no
      Brasil com suas imensas carencias alguem pensar em replicar esse modelo decrepito?

  1. André,
    Pelo “menas” alguma coisa não foi afetada pelo covid.
    Trata-se do avanço ao patrimônio da viuva. As fazes vinculantes para venda de partes da Petrobras, eletricidade e tudo o mais que tiver algum valor e fizer sombra sob o sol, seguem a pleno vapor.
    Enquanto isso tomam o sangue do povo e entregam para os bancos vampiros.
    Isso pode não acabar bem!

  2. De isso pode se depreender que o Bolsonarismo só tem um objetivo: o poder a qualquer custo.
    O Bozo não tem nem nunca teve ideologia. É tão somente um “malaca” miliciano.
    Quem tenta criar uma ideologia é quem o acompanha ou o segue. Querem explicar a estupidez. Não precisa.
    E digo mais: quem colocou o Bozo na presidência foi o Guedes. O Guedes procurou a rede de bilionários dele e disse:
    – Encontrei alguém pra fazer o papel de fantoche!
    – Quem? perguntaram.
    – Aquele imbecil alí. Ele e seus filhos. São todos imbecis e absolutamente sem caráter!
    – Boa!
    O projeto de Bozo é fortalecer suas milícias. Só isso, o resto é querer explicar a falta de lógica.
    Uma vez devidamente fortalecida, ele ( suas milícias) serão capazes de “dividir ” qualquer governo.
    Que projeto!
    Quanto a economia: deixa com o posto Ipiranga. O dólar vai a ” vintão”. Afinal de contas: tem que ajustar o salário, oras.
    Enquanto a inflação não volta.
    ( Tem que subir a taxa de juros americana, acabar com as reservas, ter déficits públicos constantes, alto endividamento…e estado-minimo para inviabilizar qualquer solução).
    Aí, com a inflação, temos o “segundo ajuste”.
    A síntese de nosso “amiguinho” Capitão “Corona Bozo” é aquilo que ele disse no ato em que soube de sua vitória.

    – Eu vim aqui para destruir!

    O resto ele não sabe falar…ou não pode revelar.

  3. O neoliberalismo nunca existiu no Brasil, daí que quando se tenta fazer uma análise investigando os efeitos do suposto neoliberalismo na política e na economia nacionais, se encontre contradições como estas apontadas pelo autor do artigo. Em linguagem mais simples, chama-se procurar chifre em cabeça de cavalo.

    O neoliberalismo foi coisa dos EUA de Reagan e da Inglaterra de Thatcher. Tratou-se de uma reação contra os excessos do Estado de Bem-Estar Social, cujos gastos excessivos estavam provocando estagnação econômica e desemprego. Mas no Brasil, nunca houve um Estado de Bem-Estar Social. O Estado brasileiro quebrou por seus gastos excessivos para sustentar a si próprio, e não aos cidadãos. Os anos 80 presenciaram o esgotamento do modelo de Estado Forte descrito pelo autor do artigo – sobrecarregado por seus gastos, o Estado brasileiro passou de indutor do desenvolvimento a peso morto que brecava o desenvolvimento. O que se chamou então de neoliberalismo nada mais foi do que a sequência de cortes e privatizações que todo o governo tem que fazer quando gasta mais do que arrecada. O termo, inclusive, já se encontra em desuso no resto do mundo, e só é repetido aqui, onde se tornou sinônimo de tudo o que há de ruim no mundo.

    O modelo econômico chileno pós-Allende também foi tachado de neoliberal. Não estou informado sobre até que ponto esse modelo correspondia ao dito neoliberalismo, mas o fato é que o Chile foi o único país sul-americano que exibiu um crescimento econômico consistente nas últimas décadas, e hoje é o primeiro IDH da América Latina.

    • A plataforma declarada de Paulo Guedes é o NEOLIBERALISMO DE CHICAGO, se ele vai conseguir ou não é outra questão mas sua ideologia é essa, ele nunca escondeu isso. De fato neoliberalismo puro nunca existiu em lugar nenhum, nem nos EUA, onde muita coisa que é privada no Brasil lá é estatal e ninguem propõe privatizar, como aeroportos, fornecimento de agua, onibus nas grandes cidades, rodovias pedagiadas, o Brasil teve um ciclo de proposta neoliberal nas privatizações de FHC, foram vendidas 122 empresas e arrecadados US$106 bilhões, concordo que neoliberalismo puro é uma ideologia mais que realidade.

      • As empresas não foram vendidas, foram entregues a preços aviltados para os banksters de sempre… Basta ver o valor de venda da Cia. Vale do Rio Doce… Crime de lesa pátria cometido pela quadrilha do PSDB !!!

  4. Sinto informar. Mas não existe contradição alguma.
    Simplesmente porque o bolsonarismo não é nenhuma filósofia elaborada, mas meramente um amontoado de bizarrices visando unicamente a preservação e continuidade do Poder a qualquer custo.
    Mas não só isso.
    O objetivo é governar sempre no caos, justamente para não ter que governar e poder jogar a responsabilidade sempre para os outros.
    O plano, se é que existe algum, é algo mais próximo de uma espécie de anarcocapitalismp, aonde ganham poder milícias, igrejas, sistema financeiro etc.

  5. Ok. O artigo só peca quando tenta engessar o conceito de que ser nacionalista é ser de direita e populista. Estes conceitos abrangem uma infinidade de possibilidades no espectro das ideologias…

  6. Eu já penso que o bolsonarismo é incompatível com o processo civilizatório. Enquanto este postula por uma evolução do conhecimento científico e ético, o bolsonarismo é um movimento de fanáticos militantes do Mal.

  7. Concordo formalmente com o André, mas não materialmente.
    Até pelo fato de a realidade não seguir, necessariamente, pela lógica. E mesmo pessoas conseguem fazer verdadeiros malabarismos mentais para aceitar o inaceitável e se convencer de que seus atos estão corretos.
    Bolsonaro está isolado, mas não enfraquecido. Sua paranoia é tão defensiva quanto o Ministério de Defesa do Hitler. O mecanismo defensivo dele alcança proporções coletivas. Aquela massa desnorteada e que urra tem resposta concreta, reverberação. A economia? Ah, não importa (CLARO que importa, mas nem olham pra isso).
    Não se trata de uma defesa do irracionalismo, mas da necessidade de se debruçar no real que mostra tamanha contradição e traz uma paralisia por perplexidade.

  8. Sobre os comentarios : È evidente que o bolsonarismo NÃO é uma ideologia sistematizada e logica mas
    para fins de conceituação de um debate pode-se juntar as crenças, manias, teorias conspiratorias que esse grupo empina como sendo um conjunto de ideias para fins de se apresentar como uma confraria
    de apoiadores, as ideias não precisam ser organizadas para serem uma ideologia.

    • Bom dia André.

      O Jair em si, nunca foi neoliberal, porém
      poderiamos definir que o Bolsonarismo, que nasceu por volta de 2014 ou 2015, como algo mais estruturado, é, em sua gênese, neoliberal sim. O principal “formulador” é o Eduardo Bolsonaro, que sempre foi neoliberal.

      Portanto, reitero, que não há contradição, pois o Bolsonarismo é neoliberal. Aliás, mais ainda, ele tem tendências anarcocapitalistas. Isso pode se alterar no futuro, em decorrencia de fatores politicos ? Sim.
      Mas o que se tem hoje e sempre se teve de bolsonarismo é o

  9. Interessante ver alguém dizendo a verdade sobre o Chile. Essa de que o governo Pinochet foi bem na economia, é um dos maiores absurdos e uma das maiores farsas já contadas, que de tanto repetida, virou verdade. Aliás, a seita neoliberal nunca terá uma verdade para contar que não seja a tragédia social, a dominação dos países periféricos pelos centrais e o controle de tudo pelo sistema financeiro. E isso é claro, eles nunca dirão. Por isso o neoliberalismo não passa de uma seita a serviço da finança, que sobrevive graças às mentiras da mídia hegemônica muito bem paga, aos think tanks, ONGs e mais recentemente às redes sociais.

    Segue abaixo um trecho de artigo que publiquei em meu blog sobre a farsa chilena:

    “Na perspectiva econômica, a ditadura de Pinochet deve ser dividida em dois períodos: O primeiro, de 1973 a 1982 e o segundo, de 1982 a 1990;

    Foi no primeiro período (1973-1982) que o choque neoliberal dos seguidores da seita de Milton Friedman foi aplicado, o que acabaria resultando num gigantesco colapso, com ápice em 1982. A partir daí grande parte das práticas neoliberais passariam gradativamente a ser abandonadas.

    O programa dos Chicago Boys no Chile, do qual o atual ministro da economia Paulo Guedes fez parte, incluiu austeridade extrema em todas as áreas públicas e sociais, privatização de estatais a preço de banana, demissão de 1/4 dos servidores públicos e abertura dos mercados, medida extremamente vantajosa ao capital estrangeiro.

    A política de privatizações fez com que o capital privado não se interessasse por investimentos reais na economia. Com o feirão de estatais a preço de banana, era muito mais vantajoso se apossar das empresas existentes, financiadas e pertencentes ao povo chileno, do que criar algo novo.

    As privatizações incluíram bancos públicos, escolas, saúde, com a criação de monopólios particulares, e o sistema de aposentadoria, que deixou de ser de repartição social para adotar o regime de capitalização;

    O choque neoliberal, muito festejado pelo governo dos EUA e por organismos como o Banco Mundial, culminou numa catastrófica crise, com ápice em 1982.
    Naquele ano o PIB chileno caiu 13,4% e o desemprego ultrapassou os 20%.

    A crise foi tamanha que o país levaria muito tempo para se recuperar. Em 1986, o PIB per capita ainda era inferior ao período pré golpe. A recuperação completa só viria após a redemocratização.

    Com a tragédia causada pelos Chicago Boys, o governo Pinochet demitiu o superministro da economia, reverteu várias das medidas neoliberais que haviam levado o país ao colapso e estatizou o sistema financeiro.

    A partir de 1982 o governo passou a criar programas para lidar com a falta de empregos, como o Programa de Ocupação para Chefes de Família (POJH) e o Programa de Emprego Mínimo (PEM).

    Ao final da ditadura antinacional e antipovo de Pinochet, 45% da população estava abaixo da linha de pobreza.
    Em 1990 o PIB perca capita, medido por paridade poder de compra, era de apenas US$ 4.590.

    A recuperação da tragédia causada pelos neoliberais de Pinochet só veio após a redemocratização, em 1990, onde predominaram governos de centro-esquerda. Esse foi o verdadeiro período do “milagre econômico”.

    Foi a partir daí que a renda média dos chilenos quintuplicou, alcançando o patamar atual dos US$ 25 mil.

    Foi entre 1990 em 2019, e em particular durante os 20 anos dos governos de centro-esquerda, que o PIB chileno de fato cresceu consideravelmente. A taxa média foi de 7% na década de 90, e cerca de 4,6% durante todo o resto do período democrático.

    Nesse período, os governos de centro-esquerda promoveram a reestruturação tributária, permitindo aumentar o investimento social do Estado, com a criação do seguro saúde universal, seguro-desemprego e o Pilar da Solidariedade.

    A presença do Estado chileno voltou a crescer, sobretudo na área da infraestrutura e das políticas sociais de proteção, saúde e educação. Esse é o período do “milagre chileno”.

    O desemprego deixado por Pinochet (18%), caiu para 6%, em média, a população abaixo da linha de pobreza caiu de 45% para 11%, o que transformou o Chile no país com o maior IDH da América Latina.

    Aos poucos o terrível legado deixado pelo neoliberalismo dos “Chicago Boys” de Pinochet vem sendo revertido. Foi criada uma nova legislação trabalhista, devolvendo certo poder aos sindicatos.

    Os governos de centro-esquerda também aumentaram significativamente os gastos em saúde pública, objetivando a universalização.
    Outra mudança fundamental pós ditadura neoliberal foi a volta da gratuidade do ensino superior, que havia sido extinta por Pinochet. “

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