A economia, a imprensa e o ministro no mundo da fantasia, por Lauro Veiga Filho

No mercado de trabalho, segundo o IBGE, por meio da PNAD Covid-19, o total de ocupados manteve-se estagnado em 83,479 milhões de pessoas na semana entre os dias 7 e 13 de junho. Em três semanas, no entanto, foram perdidos 1,298 milhão de empregos, numa redução de 1,53%.

Foto Agência Brasil

A economia, a imprensa e o ministro no mundo da fantasia

por Lauro Veiga Filho

O noticiário econômico, as falas do superministro dos mercados e de seu ajudante de ordens à frente do Banco Central (BC), e a quase euforia no mercado financeiro, num momento em que a pandemia avança firmemente, atingindo altos escalões do Planalto, sugerem que o País parece ter entrado em modo fantasia. Bom, pelo menos a parte do País que não precisa correr atrás da subsistência, nem se preocupa com a superlotação dos leitos de UTI. Para essa turma, reforçada por uma certa imprensa que se considera especializada, sim, a economia deixou para trás sua pior fase, venceu o fundo do poço e engrena rumo a uma retomada inescapável, como se fora seu destino manifesto e estivesse escrito nas estrelas.

E bastaram, para isso, alguns números que, se refletem alguma coisa, mostram apenas uma situação de penúria econômica – e nem por isso deixaram de ser festejados pela turma da bufunfa e pelos inquilinos do momento na Esplanada dos Ministérios. O dado mais recente da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), por exemplo, mostra um salto espetacular no número de veículos, caminhões, ônibus, motos e implementos rodoviários emplacados em junho. Foram 194,35 mil unidades na soma geral, num aumento de 93,54% em relação às 100,42 mil unidades emplacadas em maio.

O emplacamento de automóveis, então, muito mais do que dobrou no período, saindo de 44,138 mil para 102,40 mil unidades, numa alta de 132,0%. Irrefutáveis, os números. Não fosse um pequeno e significativo “porém”. Antes da pandemia e ao longo do primeiro semestre do ano passado, as vendas do setor, na média, vinham flutuando em torno de 300,0 mil e 320,0 mil ao mês. Ou seja, como todo o “reforço” observado em junho, o mercado ainda representa pouco mais de um terço do total vendido pelas concessionárias no segundo trimestre do ano passado.

Enganação

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Recontando a história do princípio. Em janeiro e fevereiro, o mercado já demonstrava certo desaquecimento, com os emplacamentos acumulando baixa de 1,27% em relação ao primeiro bimestre de 2019, passando de 599,19 mil para pouco menos de 591,60 mil unidades. Entre fevereiro e março, quando as medidas de distanciamento entraram em vigor (lá pela segunda metade do mês), os emplacamentos sofreram queda de 14,9%, de 293,16 mil para 249,39 mil, e desabaram para 89,692 mil unidades em abril, num tombo de 64,0%. Com alguma liberalização nos mercados, as vendas subiram praticamente 12,0% em abril e, na sequência, apresentaram aquele salto espetacular. Lembrando: na comparação com junho do ano passado, o mercado encolheu 38,58% e encontra-se ainda 33,7% abaixo dos níveis registrados em fevereiro, que nem chegou a ser um mês muito positivo para o setor.

Para tirar dúvidas, já que os dados mensais em geral podem apresentar comportamento instável, sem definir tendências, o volume total de emplacamentos no segundo trimestre deste ano, comparado ao mesmo período de 2019, nas estatísticas da Fenabrave, mostram uma retração de 62,1%. Entre abril e junho do ano passado foram emplacados 1,014 milhão de veículos, diante de apenas 384,463 mil nos mesmos três meses deste ano. Ou seja, o mercado deixou de vender quase 630,0 mil unidades. No caso dos automóveis, o tombo foi de 67,3% (de 569,10 mil para 186,03 mil), enquanto o mercado de caminhões e de veículos leves, somados, encolheu pela metade (de 125,24 mil para 62,142 mil unidades).

No mercado de trabalho, segundo o acompanhamento semanal feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), por meio da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD Covid-19), o total de ocupados manteve-se estagnado em 83,479 milhões de pessoas na semana entre os dias 7 e 13 de junho. Na verdade, registrou-se o fechamento de 254,0 mil vagas em relação à semana anterior (-0,3%). Em três semanas, no entanto, foram perdidos 1,298 milhão de empregos, numa redução de 1,53%.

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O número de desempregados, nas mesmas três semanas, aumentou 18,1%, saindo de 10,037 milhões para 11,854 milhões, o que significou um acréscimo de 1,817 milhão de pessoas sem qualquer tipo de ocupação. A taxa de desemprego avançou de 10,6% para 12,4% entre as semanas de 17 a 23 de maio e de 7 a 13 de junho.

Somando o total de desempregados e aquelas pessoas que não haviam procurado emprego na semana anterior à da pesquisa, mas gostariam de trabalhar, tem-se um contingente de 38,578 milhões, o que corresponde a 22,7% das pessoas com 14 anos ou mais (a chamada população economicamente ativa). Na semana inicial da pesquisa, entre os dias 3 e 9 de maio, esse número havia sido de 36,869 milhões de pessoas (21,7% da população em idade de trabalhar), o que demonstra um avanço de 4,6% (quer dizer, 1,709 milhão a mais).

A tibieza da atividade econômica está expressa ainda no acompanhamento semanal que a NTC&Logística tem feito desde o começo da pandemia. A demanda por carga geral encerrou junho com retrocesso de 35,72% em relação ao mesmo período do ano passado e o ritmo de queda tem se mantido acima dos 30%, semana a semana, desde o final de maio. A pesquisa mostra ainda que 91,0% das empresas registraram queda no faturamento na semana entre os dias 22 e 28 de junho.

Para completar, num estudo da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), o consumo de energia em todo o sistema integrado nacional sofreu quedas de 12,1%, de 10,9% e de 4,7% em abril, maio e junho (1º a 26), frente a iguais períodos do ano passado. A melhoria aqui ficou expressa apenas no ritmo menos intenso de perdas, como se poderia esperar na medida em que vários Estados têm autorizado a abertura de lojas e indústrias. Ainda assim nos 26 primeiros dias de junho, as indústrias de veículos, têxteis e de manufaturados em geral reduziram o consumo em 48,0%, 42,0% e 21%. Exceções, a indústria de alimentos conseguiu não cair, repetindo o consumo de 2019, e o setor de saneamento consumiu 3,0% a mais no período, sempre em relação a igual intervalo de 2019. Em São Paulo, na soma de todos os setores, o consumo de energia esteve 3,2% abaixo dos níveis de junho de 2019, mas sofreu queda de praticamente 13,0% entre fevereiro e junho, caindo de 17.265 para 15.030 megawatts médios.

1 comentário

  1. O mundo da fantasia é dizer que o ministro está no mundo da fantasia.
    Ele não tem interesse num capitalismo de massas (deixo as críticas da esquerda de lado), até pelo fato de isto significar acesso a determinados bens que são da classe média como “direitos”.
    A gente já viu essa história no período Lula-Dilma 1.
    Também: nada como uma crise (provocada ou acidental) para colocar uma estrutura socioeconômica em frangalhos e instituir outra.
    Esta crise vai servir de combustível para mais privatizações. Não há uma oposição efetiva (PT eu descartei).
    O problema desse realismo é aceitar os fatos e diminuir cada vez mais os padrões civilizatórios, quando deveria ser o contrário.

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