A falácia do investimento estrangeiro num país devastado, por Álvaro Miranda

Não passa de uma grande falácia vergonhosa o argumento de que a reforma da previdência, as privatizações e outras mudanças vão trazer investimentos estrangeiros ao país.

A falácia do investimento estrangeiro num país devastado

por Álvaro Miranda

A denúncia de que a devastação do Brasil vem sendo intensificada pela atual “política econômica” vem do próprio governo nas linhas e entrelinhas da notícia. Questão de ler e interpretar com olhos de verruma da economia política – e não com a boçalidade tecnicista do ajuste que antes, na época do tucanato dos anos 1990, era chamado de “estrutural”.

Não passa de uma grande falácia vergonhosa o argumento de que a reforma da previdência, as privatizações e outras mudanças vão trazer investimentos estrangeiros ao país. Os governos do PT também foram cúmplices com essa falácia, alegando um suposto déficit da previdência, que não existia e não existe.

De acordo com a Subsecretaria de Investimentos Estrangeiros da Secretaria-Executiva da Câmara de Comércio (Camex), ligada ao Ministério da Economia, os estrangeiros estão vindo para cá para comprar empresas prontas, e não criar novas capacidades produtivas, com a implantação de plantas industriais e transferência de tecnologia. Notícia do alto da página A4 do Valor Econômico de quinta-feira, 20//2/2020.

Essa descida ladeira abaixo não começou com o atual governo, sendo uma trajetória que vem acontecendo desde 2003, primeiro governo Lula. Quase metade dos chamados investimentos estrangeiros diretos de 2019 são oriundos de China, Estados Unidos, Japão, Itália e França. De acordo com a notícia, apenas 15% desses investimentos estão relacionados com novas plantas produtivas.

Além disso, esses investimentos vêm se concentrando mais na área de serviços e cada vez menos na indústria. Sem falar que empréstimos entre empresas não são destinados aos investimentos, mas sim para capital de giro.

Leia também:  A desculpa de Guedes sobre MP 927: erro na redação

O dado irônico e cínico é que o Brasil aparece no conjunto de dados da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad), em destaque, como sendo o quarto maior destino dos investimentos em 2019, apesar da retração global dos negócios.

Hipótese para justificar essa atenção para o Brasil: só desinformados, messiânicos, boçais e estudantes em fase inicial de pesquisa não sabem que a escassez de recursos é também uma falácia, dentro de outras, tais como as contidas em expressões referentes à sociedade da informação, economia de dados, revolução tecnológica desvinculada das mudanças estruturais, etc.

Existe, na verdade, enorme liquidez de recursos em determinados países de economias mais fortes – não à toa a lista dos que vêm atrás de “negócios” incluem três do hemisfério norte, além de Japão e China. É de ser pensar, nesse contexto, por que o interesse de estrangeiros na compra de ativos já prontos e consolidados como vacas leiteiras seguras, a exemplo de muitas empresas estatais do programa de privatizações que se tornou política de todos os governos brasileiros desde a década de 1990.

Óbvio que, numa situação de interdependência cada vez maior de um mundo globalizado, como resultado da expansão e crises do sistema capitalista, o investimento estrangeiro direto é bem-vindo. Porém, desde que em condições favoráveis para todos os países, os que investem e os que recebem novas tecnologias e criam condições para aquecimento da economia nacional, aumento de emprego etc.

Leia também:  Bolsonaro tentou confiscar ventiladores de Recife, e o TRF-5 impediu

O olhar grande para o Brasil reflete, na verdade, essa aberração de dentro para fora, como quem diz para o mundo: olhem, venham para cá porque vocês podem comprar ativos aqui a preço de bananas, não precisam investir ou construir. Além disso, nossa mão de obra é baratíssima. E também porque não sabemos fazer nada, nosso povo é um povo desinformado que não entende nada de economia – e estamos aqui de passagem. Aproveitem!

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

2 comentários

  1. Cara, depois de muito estudar e observar eu compreendo todos os cenarios e dou todos os diagnosticos, falo, falo, falo e critico aqueles que tentam e tentaram fazer alguma coisa e como ninguem me escuta (vide a quantidade de comentarios), eu viro poeta.

  2. Da forma como foi resumida a mostra em poucos parágrafos, a obviedade da tese, que predadores tanto tentam mascarar, fica evidente a qualquer leitor. Tomei a liberdade de reproduzir no meu blogue para acrescentar, à guisa de introdução: Os “investidores” estrangeiros enxergam as empresas brasileiras da mesma forma que veem os títulos públicos: um ativo financeiro, que é de interesse conforme a taxa de retorno. Novas tecnologias, novos empregos, novas encomendas, nada disso está na pauta daqueles que as políticas públicas contracionistas querem atrair.

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome