4 de junho de 2026

A falsa efetividade da matemática nas ciências sociais, por Roberto Kraenkel

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A falsa efetividade da matemática nas ciências sociais

por Roberto Kraenkel

Eugene Wigner, prêmio Nobel de física, escreveu em 1960 um artigo intitulado “A desarrazoada efetividade da matemática nas ciências naturais”, onde não podemos nos deixar de maravilhar e surpreender  com o fato de que conceitos abstratos, por vezes introduzidos apenas pela coerência matemática, acabam tendo aplicações nas ciências naturais, sobretudo na física.  O exemplo dado por Wigner é o dos números complexos, que são necessários  para a formulação da mecânica quântica – teoria sobre a qual toma base boa parte das máquinas do mundo moderno.

E é, de fato, através das máquinas que a física se torna aplicada e se faz engenharia.   Tudo isto vem do fato de que as hipóteses teóricas formuladas acabam confirmadas a posteriori por experimentação cada vez mais precisa (desnecessário dizer que isto é uma simplificação do processo científico, mas de toda forma a eficiência quotidiana da física é inconteste).  A desarrazoada efetividade da matemática na formulação da física junto com a experimentação fizeram da física um protótipo de ciência.

Esse sucesso nos leva a querer usar a matemática em outras ciências. E com razão. Se tivermos conceitos quantificáveis aos quais possamos aplicar hipóteses,  por que não nos utilizarmos de toda a força da construção matemática?

Contudo o céu limpo que é a física não será o mesmo para outras ciências.  Quando não podemos mais experimentar à vontade, seja com seres vivos, seja com sociedades,  não mais podemos ter a precisa validação de hipóteses.  Isto de forma alguma quer dizer que a matemática  não possa e deva ser aplicada a estes ramos do conhecimento, mas não podemos mais esperar  ter os ganhos de sua famosa efetividade.

Nas ciências da vida, em especial na ecologia e na epidemiologia, temos exemplos interessantes. Estas duas sub-áreas estão mais próximas da  observação do que da experimentação (neste ponto tem uma curiosa proximidade com a astronomia). Podemos quantificar matematicamente processos e postular modelos e, de fato, obtemos assim quadros conceituais que nos guiam no entendimento dos sistemas estudados.  Podemos explicar grandes padrões, regularidades, podemos mesmo fazer previsões se nos utilizarmos de instrumentos estatísticos apropriados, mas – e este é o grande mas – os sistemas vivos estão todos interconectados e nós sempre fazemos simplificações – senão a teoria seria tão complexa quanto a própria realidade.  Assim, o uso de instrumento matemático como gerador de verdades necessárias encontra aqui um limite que não existia na física.  O mundo vivo não se amolda da mesma forma que o inanimado. Mas a consciência mesmo desta limitação permite que façamos um uso parcimonioso da matemática nas ciências da  vida. Ir além, dar o passo do físico virando engenheiro, é hubris . Tentar projetar um ecossistema  sempre fracassa.

Mas por fim, cheguemos às ciências sociais – e aqui quero ater-me à economia, essa que faz uso de matemática bastante avançada.  O caso da economia (cujo status epistemológico como ciência autônoma é passível de  debate)  é diferente das ciências naturais. Especificamente, a economia não pode abrir mão de formulações normativas e de valor. De fato, ela toda se constrói sobre pressupostos ideológicos mais ou menos claros.  Posto que muitas variáveis econômicas são quantificáveis, o uso do instrumento matemático é evidente. Mas – e outro grande mas – leis, modelos hipóteses –  e todo o desenovelar matemático dessas – não são passíveis de real  comprovação, visto serem assentados sobre valores pré-estabelecidos.   Isto gera o curioso efeito de – em face a predições não confirmadas – culpar-se o objeto de estudos, chamando-o de “não-ideal”, o que constitui-se numa espécie de “estupro epistemológico”.

A mais básica das leis de mercado, a do equilíbrio de oferta e procura é totalmente arbitrária e contém pressupostos normativos.  O equilíbrio é dito ótimo num mercado livre, sendo este ótimo definido quando não há como melhorar a situação de agentes do mercado sem piora  de outros. Mas, veja-se como esta definição de ótimo é arbitrária.  Poderíamos chamar de ótima uma situação, por exemplo num mercado imobiliário, em que todos encontram alojamento.  Claro, isso é impossível num modelo de mercado feito uma feira-livre com total conhecimento de preços.   Mas poderia ser postulado como “função-objetivo” a ser alcançada, num modelo em que  propriedade tem função social, a circulação de capital obedece objetivos outros que o lucro.

Sim, já vejo físicos tornados economistas compararem o meu argumento anterior com o do comportamento de um “gás ideal”. Não existe gás ideal, mas- mais um mas – na física podemos experimentar e nos aproximarmos gradativamente de um gás ideal. Buscar uma verdade limite. Mas na economia, não.

Da mesma forma que na economia, procura-se hoje usar instrumentos matemáticos na sociologia e arrisca-se mesmo a   discutir o emergir de regras morais. O contexto é a teoria dos jogos evolucionários, tão marcante na biologia. Mas na biologia há código genético, que existe para valer. O uso da analogia entre procriação e imitação de comportamento, que permite o uso da teoria de jogos em sociologia é porém discutível ao extremo: procriação transmite genes, já imitação transmite o que mesmo?

Do poder do discurso tecnocrático

O pior de todos os atentados ao bom entendimento do mundo é o uso da linguagem como instrumento de pura volúpia de poder.  Assim vemos, na área econômica,  pessoas com voz nos meios de comunicação usarem de “cala boca catedrático” , exercendo influência pelo puro discurso que julga que o matematizável é de alguma forma superior.  Não nos deixemos enganar. Teorias econômicas tem pressupostos sobre como é o mundo e incorporam valores.

Diz-se que a esquerda deveria aprender mais matemática.  Tanto direita quanto esquerda deveriam.  A matemática, porém, é uma máquina de fazer verdades, dados certos pressupostos. É estes pressupostos que temos que  discutir. Senão, o discurso de poder, na confusão do mundo mediático  de hoje, usará os números como os sofistas usavam palavras.  Números, tanto quanto palavras, torturados, confessam qualquer coisa.

E viva a matemática.   Dizia Vito Volterra que o teorema de Euclides guarda eterna juventude. Assim seja.

E para a direita cabe dizer que não utilizem a matemática como um sofisma para ocultar um  insidioso intento.  Hubris leva à desgraça.

 

 

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18 Comentários
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  1. Wilton Cardoso Moreira

    11 de julho de 2017 12:06 pm

    A matemática confirma as teorias marxistas

    Quanto à aplicação da matemática na economia, creio que ela se mostra mais frutífera quando se usa a estatísticas para tentar comprovar algumas tendências ou mesmo “leis”, postuladas a partir de alguns pressupostos. Por outras palavras, a matemática é bem aplicada quando usada para confrontar as teorias econômicas com dados estatísticos da realidade (empiria).

    Em relação a este uso, creio que a teoria marxista é a mais bem sucedida entre todas. Veja o caso da “lei” ou tendência da queda da taxa de lucro, que Marx postulou baseada no princípio de que cada empresa em particular tende a investir mais em capital fixo (máqinas) e menos em capital variável (trabalhadores) para baixar os custos e aumentar seu lucro particular.

    A empresa mais bem sucedida ganha espaço da concorrência e, mesmo baixando a taxa de lucro por cada produto, aumenta o lucro por ganho de escala, ao tomar o mercado da concorrência. Mas a nivel de capital global, o que há é uma queda generalizada da taxa total de lucro da economia, a exclusão de trabalhadores do mercado (desemprego estrutural) e diminuição da arrecadação de impostos, o que leva o capitalismo, em algum ponto, ao colapso.

    Empriricamente, é o que está acontecendo, pois a taxa global de lucro das empresas têm caído persistentemente, resulando em crises cada vez mais violentas, como a de 2008. Os dados estatísticos estão corroborando Marx.

    Quanto a Euclides, o postulado de que, dados um ponto e uma reta, só passa pelo ponto uma reta paralela a reta dada é mesmo um postulado e não um teorema demosntrável, como queria Euclides. Isso deu origem a geometria não euclidianas, que foram, entre outras coisas, importantes para o desenvolvimento da relatividade de Einstein.

    1. Rui Ribeiro

      11 de julho de 2017 4:45 pm

      Taxa de lucro, massa de lucro e superlucro

      Quando várias empresas concorrem entre si, e uma ou algumas dessas empresas adota(m) novos meios de produção (novas máquinas e/ou nova organização científica do trabalho) que permitem que menos tempo de trabalho seja gasto na produção do que as concorrentes, isso é exatamente como uma espécie de monopólio dessas empresas no uso dessa nova tecnologia e/ou organização científica. As poucas empresas que adotaram o novo modo de produzir passam a ter “superlucros”, porque elas venderão a mercadoria que passou a ter menos trabalho cristalizado com um preço que não é proporcional à redução desse tempo. Pelo contrário, se ela busca lucro, ela poderá e certamente venderá a um preço apenas ligeiramente menor que o preço das concorrentes, de modo que (e esta é uma intuição genial de Marx) não é a mais-valia extraída de dentro dessas empresas com novos meios que produz esses “superlucros”, mas (parte da) a mais-valia de todas as outras empresas (que não adotaram ainda esses novos meios de produção) que flui para as que tem “superlucros”, porque as outras empresas continuarão cristalizando nas mercadorias o mesmo tempo trabalho que antes mas são forçadas a deixar uma parte desse tempo de trabalho cristalizado nessas mercadorias sem pagamento ao vendê-las, por ser este o único modo de tentar enfrentar a concorrência das que adotaram os novos meios. …

      https://midiaindependente.org/pt/blue/2012/07/509800.shtml

  2. Rui Ribeiro

    11 de julho de 2017 1:14 pm

    A economia é uma ciência quantificável, porém triste
    “No campo da economia política, a investigação livre e científica encontra muitos mais inimigos do que nos outros campos. A natureza particular do assunto de que trata ergue contra ela e leva para o campo de batalha as paixões mais vivas, mais mesquinhas e mais odiosas do coração humano, todas as fúrias do interesse privado. A Igreja de Inglaterra, por exemplo, perdoará muito mais facilmente um ataque a 38 dos seus 39 artigos de fé do que a 1/39 dos seus rendimentos. Comparado à crítica da velha propriedade, o próprio ateísmo é hoje uma culpa levis”. Karl Marx Malthus errou redondamente ao prever a fome com base na progressão geométrica do crescimento populacional e na progressão aritimética da produção de alimentos.

  3. Dogbert

    11 de julho de 2017 4:29 pm

    Não concordo, o problema não
    Não concordo, o problema não está em usar a matemática, mas como ela está sendo aplicada. Cálculos matemáticos não servem de nada se as premissas estiverem erradas, e isso vale tanto para as ciência exatas quanto as sociais. A ineficácia do neoliberalismo e da austeridade fiscal pode sim ser, e já foi demonstrada através de modelos matematicos, a diferença está nas premissas usadas para a construção do modelo, e em não manipular dados de maneira tendenciosa.

  4. João de Paiva

    11 de julho de 2017 5:20 pm

    E o uso das probabilidades no Direito Penal?

    Roberto Kraenkel tangenciou o problema. Mas, se quisesse, poderia tê-lo atacado de frente, como fez o Professor Lênio Streck, ao desmascarar os fanáticos e pretensiosos lavajateiros, que a marretadas querem submeter as Ciências Jurídicas e o Direito Penal à teoria das probabilidades condicionais, massacrando ambas as áreas do conhecimento. Fazem isso por canalhice, falso moralismo, fanatismo religioso e analfabetismo político, histórico e social.

    Sugiro ao autor escrever artigos em parceria com Lênio Streck, não tangenciando, mas atacando de frente os monstros, com as armas certas.

  5. Anarquista Lúcida

    11 de julho de 2017 8:09 pm

    É estranho e fascinante que o Real seja Racional…

    Por que o mundo biológico deveria obedecer proporçao áurea, pi, sequencia de Fibonazzi, etc, como de fato faz? Para mim é um mistério que as leis matemáticas, que em princípio seriam fruto da razao, determinem o real.

    1. kraenkel

      11 de julho de 2017 8:19 pm

      Certamente não apenas você

      Certamente não apenas você  se assombra com a efetividade da matemática. Parece mágico. E isso se liga a uma discussão filosófica das mais interessantes: descobrimos a matemátca, ou criamo-la?

      1. Anarquista Lúcida

        11 de julho de 2017 8:31 pm

        Claro. No mínimo isso implica q a própria Razao é parte do Real

        Algo no nosso cérebro funciona de acordo com a realidade do mundo, mesmo a priori. Acho que Aristóteles já dizia que abstraímos as idéias das coisas (mas nao sou filósofa, nem tenho pretensoes de conhecer filosofia mais do que muito “pela rama”).

        1. Mariano S Silva

          11 de julho de 2017 8:52 pm

          É por aí Anarquista Lúcida!

          É por aí Anarquista Lúcida! Há um quê de racionalidade no mundo, caso contrário as coisas não poderiam existir. Não existem Leis, no sentido estrito da palavra e sim regularidades, que são, ou não, modificadas pela evolução de nossa tecnologia de medição (processo histórico). A coisa funciona, mais ou menos qual a peça de Eugène Ionesco, “A Cantora Careca”. Não existe o caos absoluto (estocástico) em nosso Universo e sim o caos determinístico, que pode ser de dimensionalidade imensa.

        2. kraenkel

          11 de julho de 2017 10:58 pm

          Exato

          Exato, Aristótelis diz  isso e poderia estar aí a  gênese da efetividade matemática. Mas a  “desarrazoada efetividade”da matemática vem do fato de que certos conceitos se criam de forma totalmente abstrata. Os números imaginários foram criados para dar sentido ao objeto “raiz quadrada  de menos um” e daí se constroi uma estrutura matemática. Mas não é que esta estrutura, pura ideia, acaba sendo necessária para a descrição do mundo da mecânica quântica.  Literalmente “muito louco”.  Há outros exemplos. O número pi. É a razão entre circunferência e diâmetro de um círculo. Uma  coisa geomérica. Mas ele aperece em tudo que é lugar, em coisas que nada tem a ver com geometria.  Em estatítica, por exemplo. 

          1. Anarquista Lúcida

            11 de julho de 2017 11:34 pm

            É exatamente disso q eu falei

            Em Biologia me parece mais impressionante do que em Estatística, que afinal é uma disciplina matemática. Os coelhos se reproduzem e as árvores criam ramos de acordo com a sequência de Fibonacci. A descida do gaviao para pegar a presa obedece a um conceito geométrico, nao me lembro se é pi ou a razao áurea. E há várias outras coisas assim. A única explicaçao que me parece plausível é que podemos criar certos conceitos porque nosso cérebro capta e obedece dadas relaçoes do real, e é isso que estabelece os limites do que podemos criar. Ou seja, nosso cérebro de certo modo seria arquitetado de forma matemática. E por isso a razao pode captar o real mesmo “a priori” (o que nao seria, acho, o que pensava Aristóteles, para quem a abstraçao — acho — se daria a posteriori, a partir das coisas, nao antes, por uma pura descoberta de razao)

          2. kraenkel

            12 de julho de 2017 12:11 am

            nosso cérebro capta e obedece dadas relaçoes do real,

            O ponto está aí: “nosso cérebro capta e obedece dadas relaçoes do real,”.  Ele as capta e constroi objetos matemáticos que o descrevem, ou estes objetos matemáticos estão de alguma forma já preentes no real? Não tenho resposta. 

            A propósito da estatística: o curioso, mesmo alucinante, é que certas medidas obedecem leis  estatítcicas e ele , o pi, está lá. Chose de loc. 

          3. Anarquista Lúcida

            12 de julho de 2017 8:39 pm

            Pense bem, nao sao duas coisas alternativas

            Se ele as capta é porque elas estao no real… Mesmo que nao as captemos diretamente do real (essa a distinçao que estou fazendo entre captar “a priori” versus a abstraçao mais estilo aristotélico, “a posteriori” no sentido em que abstrai das coisas). Na verdade o cérebro as cria, mas porque evoluiu de modo a poder fazer isso, porque algo na sua estruturaçao — e a arquitetura do cérebro faz parte do real — está organizado de acordo com elas para poder lidar com o mundo que as obedece. A razao nao é incorpórea (O Erro de Descartes, título de um livro excelente de Antonio Damásio, acho), ela está no nosso cérebro, e no nosso corpo todo, de maneira mais indireta, porque o cérebro se adapta ao corpo que temos. .

            Há uma discussao interessantíssima de Piaget a esse respeito, mas nao vou saber reproduzi-la de memória. Está no livro do célebre debate entre Chomsky e Piaget, e em vários outros lugares tb. Piaget tem o conceito que acho excelente de necessário a posteriori. Nao é exatamente a priori, como querem os racionalistas, nao se trata de uma razao inata, mas se dadas estruturas nao forem construídas (a partir da experi&encia, dada a realidade do mundo e de nosso corpo) nao se pode ir além, porque elas sao necessárias. Creio que segundo teorias mais recentes de sistemas complexos talvez essas etapas possam ser identificadas a atratores. O sistema pode nao chegar até um deles, digamos, mas se nao  chegar lá nao pode chegar a outros. E certas trajetórias dentro do sistema sao quase inevitáveis, dada a estrutura do “landspace”. Mas estou chutando alto, palpitando, porque nao entendo o suficiente disso.

      2. Rui Ribeiro

        12 de julho de 2017 2:02 am

        Voces tão místicos demais

        A matemática é só a metamática e nada mais, matemágica

      3. Rui Ribeiro

        20 de julho de 2017 2:12 pm

        O que diria Einstein?

        “Como pode a Matemática, sendo produto do pensamento humano, independente da experiência, se adaptar tão admiravelmente aos objetos da realidade?”. – Albert Einstein

    2. Rui Ribeiro

      12 de julho de 2017 7:06 pm

      O racional é igualmente real

      O mundo não se divide em realidade e racionalidade. A racionalidade só pode existir e se exprimir através da realidade. Na Ideologia Alemã, de 1846, Marx escreveu:

      “(…) A consciência nunca pode ser mais do que o ser consciente e o ser dos homens é o seu processo da vida real. E se em toda a ideologia os homens e as suas relações nos surgem invertidos, tal como acontece numa câmera obscura, isto é apenas o resultado do seu processo de vida histórico, do mesmo modo que a imagem invertida dos objetos que se forma na retina é uma conseqüência do seu processo de vida diretamente físico.

      Contrariamente à filosofia alemã, que desce do céu para a terra, aqui parte-se da terra para atingir o céu. Isto significa que não se parte daquilo que os homens dizem, imaginam e pensam nem daquilo que são nas palavras, no pensamento na imaginação e na representação de outrem para chegar aos homens em carne e osso; parte-se dos homens, da sua atividade real. É a partir do seu processo de vida real que se representa o desenvolvimento dos reflexos e das repercussões ideológicas deste processo vital. Mesmo as fantasmagorias correspondem, no cérebro humano, a sublimações necessariamente resultantes do processo da sua vida material que pode ser observado empiricamente e que repousa em bases materiais. Assim, a moral, a religião, a metafísica e qualquer outra ideologia, tal como as formas de consciência que lhes correspondem, perdem imediatamente toda a aparência de autonomia. Não têm história, não têm desenvolvimento; serão antes os homens que, desenvolvendo a sua produção material e as suas relações materiais, transformam, com esta realidade que lhes é própria, o seu pensamento e os produtos desse pensamento. Não é a consciência que determina a vida, mas sim a vida que determina a consciência. Na primeira forma de considerar este assunto, parte-se da consciência como sendo o indivíduo vivo, e na segunda, que corresponde à vida real, parte-se dos próprios indivíduos reais e vivos e considera-se a consciência unicamente como sua consciência. (…)”

       

      Pensar e agir como se o mundo  dual é idealismo.

      1. Anarquista Lúcida

        12 de julho de 2017 8:34 pm

        Uma expressao é apenas o inverso da outra

        Se o Real é Racional, o Racional nao pode deixar de ser Real, ou nao se adequaria ao Real, e portanto nao seria Racional… Ou seria mágica, dom divino, qualquer coisa etérea dessas.

        1. Rui Ribeiro

          13 de julho de 2017 12:51 pm

          Então porque a estranheza e o fascínio?

          Se é assim, o fato do racional ser real deveria também lhe causar estranheza e fascínio.

          As leis matemáticas não são fruto da razão, elas são apenas apreendidas pela razão. A matemática é a linguagem da natureza.

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