A fraude das previsões otimistas, por Andre Motta Araujo

Se as previsões indicassem a realidade econômica haveria pressão para mudança de política, hoje baseada em CORTES E RETENÇÃO DE RECURSOS PÚBLICOS.

A fraude das previsões otimistas

por Andre Motta Araujo

O execrável Boletim FOCUS, do Banco Central, é uma compilação de prognósticos do mercado financeiro, que tem necessidade de apresentar apostas otimistas pois só assim atraem clientes padrão, que precisam confiar no futuro da economia para aplicar em vez de gastar. Da mesma forma, as consultorias econômicas precisam vender esperança porque, sem esta, o potencial cliente nem consultoria contrata. O grupo Eurasia, uma das maiores consultorias econômicas, uma mistura de business com ideologia conservadora, não se sabe onde começa o negócio e onde acaba a política de agradar o governo, é otimista com o Brasil e com a atual política, trilhando o perigoso caminho de isolar o MERCADO  do Estado, como se o País tivesse duas realidades separadas.

Esse conjunto de fontes são as bases dos noticiários econômicos da grande mídia e as projeções otimistas ao fim são desmentidas pela realidade, processo que vem sem interrupção caminhando desde 2016 com previsões de crescimento do PIB que nunca se materializaram e indicações sobre  o valor do dólar no Boletim FOCUS, nos fins de ano, COMPLETAMENTE ERRADAS, não previram sequer o movimento de capitais e se vendem como “economistas chefes de bancos”, acertam menos que o dono do bar da esquina.

Mesmo assim, com tantos erros seguidos, o BOLETIM FOCUS segue sendo repetido toda 2ª feira pela mídia como se fosse um oráculo da economia, uma média de previsões chutadas por palpites de happy hour não pode gerar prognósticos válidos.

BASE REAL DA ECONOMIA

1.DESEMPREGO – O estoque de desempregados, subempregados, biqueiros, informais e desalentados é superior a 40 milhões, JAMAIS o mercado terá a capacidade de remotamente criar empregos para uma parte substancial desse volume de pessoas, só políticas públicas, como há em todos os grandes países, INCLUSIVE NOS EUA, só um programa, o de Etanol de Milho, que  descrevi em artigo, já custou US$ 185 bilhões em subsídios e emprega 500 mil pessoas, programa de governo, baseado em duas leis, com recursos públicos. São mais de 200 programas de governo que geram emprego nos EUA, além da gigantesca indústria aeroespacial, bélica e de alta tecnologia que só existe por encomendas de governo e isenções e subsídios fiscais.

Leia também:  Como os tribunais trataram os casos do homem que roubou dois xampus e do pai pedófilo

2.VALOR DO DÓLAR – Um dos maiores erros de prognósticos do FOCUS em 2019, previam um dólar de R$3,78 em dezembro/2019, o dólar chegou a R$4 e só não sobe mais porque o BANCO CENTRAL está queimando reservas acumuladas entre 2003 e 2010. A SAÍDA DE CAPITAL não foi prevista e está saindo por várias e objetivas razões, uma das quais é POLÍTICA, o que os “economistas de mercado” que alimentam o FOCUS não entendem.

3.INFLAÇÃO – A inflação do FOCUS está contida na meta por motivos ruins, falta de poder de compra, e é comemorada como se coisa boa fosse.

A estabilidade monetária é boa se combinada com prosperidade e é ruim quando resulta de estagnação, é o cemitério sem ruído porque só tem mortos.

Os analistas econômicos da grande mídia  comemoram a inflação na meta como coisa sempre boa quando é fundamental a razão que leva a inflação na meta, se for uma má razão, não há o que comemorar e não cabe otimismo com esse índice, porque a longo prazo significa uma economia disfuncional.

O PERIGO DOS ERROS DE PROGNÓSTICOS

Erros numéricos de prognósticos são normais quando se respeita a tendência, mas são perigosos quando se manipula a tendência. A tendência da economia brasileira com essa política equivocada é a ESTAGNAÇÃO e não o crescimento. Não há o FATOR DE PARTIDA para o crescimento que, no caso do Brasil, só pode ser através da demanda e a forma mais rápida e eficaz de criar essa demanda é o investimento público com emissão de moeda.

E o risco de inflação? É muito baixo, deve ser admitido, mas a economia tem altíssima ociosidade em fatores de produção, o risco de inflação é pequeno e aceitável.

No New Deal, de Roosevelt, foram resgatados 8.000 bancos e 20.000 empresas, criaram-se 6 milhões de empregos em conservação de estradas, pontes e edifícios públicos, tudo financiado pela Reconstruction Finance Corp. e esta recebeu recursos do Tesouro, o Fed emitiu moeda, não houve inflação.

Leia também:  O que Fanon diria ao Ex- Ministro da Educação Decotteli, por Djefferson Amadeus

Os erros de prognósticos IMPEDEM A MUDANÇA DE POLÍTICA ECONÔMICA, se as previsões do mercado apontam para crescimento porque mudar a política?

Se as previsões indicassem a realidade econômica haveria pressão para mudança de política, hoje baseada em CORTES E RETENÇÃO DE RECURSOS PÚBLICOS, como as filas de dois milhões de aposentadorias não concedidas e de um milhão de pedidos de bolsas famílias, dinheiro que NÃO ENTRA NA ECONOMIA, retirando recursos de sobrevivência de POBRES E MISERÁVEIS, além de puxar para baixo a demanda e o consumo basicamente de alimentos, além de uma longa lista de cortes e NÃO APLICAÇÃO DE RECURSOS JÁ DISPONÍVEIS NO ORÇAMENTO, como política deliberada de ajuste fiscal pela despesa, cortando-se na LINHA DE MENOR RESISTÊNCIA, o povão,  e não nos gastos da alta cúpula e das corporações de altos salários e mordomias

A CULPA DA MÍDIA

A grande mídia é parceira das previsões erradas e de suas consequências. Chamados para entrevistas na grande mídia são PORTA VOZES DO MERCADO FINANCEIRO, sempre os mesmos e nenhum da economia real. Alguns nomes em rodízio comparecem aos noticiários  econômicos há décadas, como André Perfeito e Roberto Padovani, que nesse entretempo já passaram por várias corretoras e bancos de investimentos, também convocados são consultores que servem basicamente ao mercado financeiro como Cristopher Garman, da Eurasia. Não se vê há anos alguém da indústria de roupas, de auto peças, de queijos, de sapatos, vozes da produção em contato com o consumidor. A MÍDIA ecoa os prognósticos errados e inflados do mercado financeiro, alimentando as “bolhas” da bolsa e fazendo o jogo da política neoliberal primitiva que vem desde 2016 lastreando a recessão permanente.

Leia também:  Nossas escolhas antes, durante e  depois da pandemia: vamos recomeçar?, por Ana Estela Haddad

Na atual política, a POLÍTICA MONETÁRIA É NEUTRA, toda a ação para o crescimento da economia deve estar a cargo do “mercado” e nenhuma é responsabilidade do Estado que, em 2019, teve a menor percentagem do PIB em investimento público dos últimos 70 anos, tendendo para zero.

Dirão que a baixa taxa da Selic é a contribuição do Banco Central, mas o papel do rebaixamento traz efeitos que ocorrem uma vez só, não se repetem no ano seguinte, portanto não é uma ação de efeito contínuo, não se replica e pior ainda, é resultante de uma inflação artificialmente baixa pela falta de poder de compra da população. Não é uma inflação baixa com prosperidade, é baixa pela estagnação da demanda, não é sadia, a rebaixa da Selic vem de uma causa ruim, a paralisia da economia por falta de demanda, que levou a resultados NEGATIVOS DA INDÚSTRIA em 2019, apesar da bolha da Bolsa.

A AUSÊNCIA DE ANÁLISE DE CONTEXTO

A pobreza da grande mídia em matéria econômica se dá pelo foco exclusivo dos comentários nos chamados “índices”. Não se comenta a qualidade da política econômica, as opções alternativas, a inserção desse política no contexto global, contrastes dessa política com a de outros emergentes, opiniões de analistas estrangeiros, de agências de rating, de fundos de investimentos do exterior, de economistas de outras correntes críticas da atual política, notadamente os da UNICAMP, USP E UFRJ. Nada disso, todas as referências se resumem aos “economistas ligados ao mercado financeiro” e consultorias que servem a esse mercado, um CÍRCULO FECHADO, onde navegam a política econômica neoliberal jurássica e seus beneficiários

***

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

4 comentários

  1. “…também convocados são consultores que servem basicamente ao mercado financeiro como …, da … . Não se vê há anos alguém da indústria de roupas, de auto peças, de queijos, de sapatos, vozes da produção em contato com o consumidor.”
    Um pequeno complemento. Me lembro bem da Luisa Trajano no MANHATTAN CONNECTION.
    Convidada, comentou a economia a fundo, e foi ridicularizada com risinhos e “me poupe”.

  2. Engraçado, na matéria de Andre Motta é ressaltado a importância de um “Estado” mais forte na economia, essa teoria foi aplicada nos últimos 25 anos e não funcionou, começou com FHC e terminou com a nossa estimada “PRESIDENTA DILMA”, onde o Brasil quase foi a bancarrota, visto isso, precisamos de mais conhecimento para não sermos confundidos com falsas indagações. O Estado é importante sim, porém, em parceria com o setor privado, que é o setor que gera riqueza, o Estado no Brasil na maioria das vezes, só gerou burocracia e pontos de favorecimento aos amigos do Rei.

    13
    • Estado forte com FHC?!! De onde você tirou isso?
      Até mesmo os governos do PT estiveram longe disso, atuaram mais na distribuição de renda.
      E quando partiram para ação direta, a ênfase foi nas commodities ou atividades que as circulavam.

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome