A História do Brasil em Três Tempos: em memória dos 112 anos da morte de Machado de Assis, por Sr. Semana

Foi preciso a chegada ao poder de um sertanejo de origem muito pobre, o primeiro presidente do Brasil não oriundo da elite, para que, depois de 181 anos, se fizesse alguma coisa no sentido de aproximar a realidade à ideia de justiça social.

A História do Brasil em Três Tempos: em memória dos 112 anos da morte de Machado de Assis.

por Sr. Semana

1o. Tempo: o longo tempo de descompasso entre realidade social desumana e ideias humanistas da elite.

A colonização portuguesa resultou na implantação no Brasil de uma estrutura social cruel e violenta, a segunda mais injusta do mundo, formada por uma grande massa populacional pobre predominantemente negra e uma pequena elite branca concentrando quase toda a riqueza do país.[1] Resultou também numa mentalidade colonizada. Como as ideias adotadas pela elite eram importadas da Europa e eram em sua maioria de teor humanista, exaltando a liberdade, a fraternidade e a igualdade, criou-se um enorme descompasso entre as mesmas e a realidade social para a qual foram transportadas. Esta situação de “ideias fora do lugar” é apontada por Roberto Schwarz em seus estudos do contexto social da obra de Machado de Assis.[2] Ilustremo-la com as Memórias Póstumas de Brás Cubas. Ao rememorar a infância, Brás destaca sua relação com o pequeno escravo Prudêncio. “Prudêncio, um moleque da casa, era o meu cavalo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia um cordel nos queixos, à guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na mão, fustigava-o, dava mil voltas a um e outro lado, e ele obedecia — algumas vezes gemendo — mas obedecia sem dizer palavra, ou, quando muito, um ‘ai, nhonhô!’, ao que eu retorquia: ‘Cala a boca, besta!’”.[3] Esta realidade do Brasil escravocrata ainda ilustra hiperbolicamente a dura realidade enfrentada pela grande maioria dos negros pobres do Brasil, tratados como se bestas fossem.[4] Quanto às ideias da elite, recorramos novamente a Brás Cubas que vai estudar direito na Europa, tornando-se bacharel, título que atestava “uma ciência que eu estava longe de trazer arraigada no cérebro”, pois confessa ter sido “um acadêmico estroina, superficial, tumultuário e petulante, dado às aventuras, fazendo romantismo prático e liberalismo teórico”.[5] Como este liberalismo teórico não era o estritamente econômico defendido hoje pelos neoliberais, mas incluía ideais de autonomia e liberdade de todos, podemos especular que vivesse o jovem Brás no Brasil dos anos 90, poderia encontrar colegas de curso tumultuários e petulantes como ele, praticar o esporte de incendiar moradores de rua durante a madrugada, ao mesmo tempo em que defenderia as ideias de justiça, de igualdade e de fraternidade.[6]

2o. Tempo: o curto tempo recente de tentativa de ajuste da realidade às ideias humanistas.

Foi preciso a chegada ao poder de um sertanejo de origem muito pobre, o primeiro presidente do Brasil não oriundo da elite, para que, depois de 181 anos, se fizesse alguma coisa no sentido de aproximar a realidade à ideia de justiça social. Foram implementadas políticas públicas que, entre outras, retiraram o Brasil do mapa da fome (ao qual voltou agora, no 3o. Tempo),[7] e permitiram acesso à universidade aos que dela ficaram excluídos durante o longo 1o. Tempo da nossa história. Os Prudêncios agora podem ser colegas de sala dos Cubas em alguns dos melhores cursos de direito no Brasil, assim como os Galdinos poderiam ser colegas dos cinco jovens de classe média alta de Brasília, seus algozes. Uns e outros poderiam disputar em igualdade de condições os concursos para os cargos públicos para os quais aqueles foram aprovados. A expansão das vagas das universidades públicas federais, com a introdução de quotas para negros e demais pobres egressos de escolas públicas, assim como a criação de programas de financiamento dos estudantes em faculdades privadas, foi um grande passo rumo à diminuição do descompasso entre a realidade social injustiça e as ideias de justiça.

3o. Tempo: o tempo atual de negação das ideias humanistas ou da realidade socialmente injusta.

O jogo estava no meio do segundo tempo quando foi abruptamente encerrado no tapetão. É monumental, a ponto de ser indescritível, o abatimento dos que acreditávamos na validade das ideias democráticas e de justiça social defendidas pela elite e até incorporadas à Constituição de 1988. O projeto é destruir o que foi construído no segundo tempo. O jogo do terceiro tempo também exibe a estratégia de acabar com o histórico divórcio entre realidade social e ideias de justiça, não pela transformação da realidade no sentido de aproximá-la das ideias de justiça, mas através do negacionismo, seja das ideias humanistas, seja da realidade social. A negação das ideias humanistas vem crescendo desde as manifestações de 2013, quando a elite se revoltou — confusamente em nome de algumas destas mesmas ideias — contra a corrupção do governo (revolta que desaparece quando o governo é sucedido por outros evidentemente mais corruptos), exigindo hospitais públicos “padrão FIFA” (onde nunca pisaram os pés, pois têm acesso a hospitais privados) e vociferando contra os “privilégios” dos pobres (como qualificam as ações afirmativas). As contradições internas às próprias ideias favoreceram duas estratégias. Uma é a rejeição pura e simples das mesmas, isto é, o abandono dos ideais de igualdade e fraternidade em nome de uma liberdade narcísica hedonista (tenho direito ao meu prazer de dirigir em alta velocidade, de usar armas, de não usar máscaras, de expressar o meu racismo, etc.) e de uma “lei do mais forte” implícita na reação ao Covid-19: pelo bem da economia, que morram os mais velhos e mais fracos. Como diria Quincas Borba: “ao vencedor, as batatas”.[8] Hoje acrescenta-se sem maiores escrúpulos: “aos perdedores, as covas”. A outra estratégia é a negação da realidade. Através de fake news amplamente disseminadas em redes sociais a partir de “gabinetes de ódio” afirma-se que é falso que fazendeiros estão tomando terras de índios, que negros são discriminados, que incêndios criminosos aumentaram, que a população de rua está crescendo significativamente, etc. Autoridades oficiais do mais alto escalão questionam os dados do INPE, cogitam adiar o censo do IBGE, e negam fatos cientificamente comprovados.[9]

Quanto durará este terceiro tempo? Otimistas esperam o seu fim em 2022. Pessimistas acham que vai durar muito, sem podermos saber ao certo quanto. Alguns dos jogadores protagonistas deste terceiro tempo acham que jogam o fim dos tempos, tempos apocalípticos, e por isto chamam seus adversários de “cristofóbicos”. Um quarto tempo de invasões do campo pelas torcidas com linchamentos de juízes, jogadores e cartolas não está fora do horizonte pós 2023. Parece inacreditável que nosso tempo atual seja, em muitos aspectos, pior do que o tempo de Machado de Assis, a quem este cronista rende homenagem no dia que marca os 112 anos da sua morte, citando a anotação feita pelo Conselheiro Aires em 13 de maio de 1888 em seu Memorial: “Ainda bem que acabamos com isso [a escravidão]. Era tempo. Embora queimemos todas as leis, decretos e avisos, não poderemos acabar com os atos particulares … nem apagar a instituição da história”.[10]

[1] Ver reportagem do G1, de 09/12/2019, disponível em https://g1.globo.com/mundo/noticia/2019/12/09/brasil-tem-segunda-maior-concentracao-de-renda-do-mundo-diz-relatorio-da-onu.ghtml. A situação se agravou no 3o. Tempo, abordado no final do artigo. Ver reportagem de Gabriel Pinheiro e Rosana Hessel publicada no Correio Brasiliense em 17/10/2019, disponível em https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/economia/2019/10/17/internas_economia,798352/concentracao-da-renda-aumenta-no-pais-aponta-estudo-do-ibge.shtml.

[2] Roberto Schwarz, Ao Vencedor as Batatas, São Paulo: Duas Cidades, 1977 e Um Mestre na Periferia do Capitalismo, São Paulo: Duas Cidades, 1990.

[3] Machado de Assis, Obras Completas em 4 volumes, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2008, vol. I, p. 638.

[4] A morte de um cachorro por um funcionário de um supermercado causou mais revolta na elite do que as mortes cotidianas de jovens nas periferias, na grande maioria negros, por funcionários do estado. Ver reportagem de 4/12/2018 do Estado de Minas, https://www.em.com.br/app/noticia/nacional/2018/12/04/interna_nacional,1010504/morte-de-cachorro-agredido-por-funcionario-gera-revolta.shtml

[5] Machado de Assis, op. cit., p. 654.

[6] Ver reportagem publicada no G1 em 20/04/1997, http://g1.globo.com/globo-news/jornal-das-dez/videos/v/jovens-de-brasilia-colocam-fogo-em-indio-pataxo/1590807/. Alguns destes jovens formaram-se em direito, como Brás Cubas, e todos foram aprovados em concursos públicos. Ver reportagem publicada no Jornal de Brasília em 15/08/2017, https://jornaldebrasilia.com.br/blogs-e-colunas/brasilia-assombrada/caso-galdino-o-que-aconteceu-com-os-envolvidos/.

[7] Ver matéria publicada em 12/05/2020 pela revista Exame, https://exame.com/brasil/brasil-esta-voltando-ao-mapa-da-fome-diz-diretor-da-onu/.

[8] Machado de Assis, op. cit., vol. I, p. 766.

[9] Sobre os dados do INPE, ver matérias publicadas no Globo em 19/07/2019, https://oglobo.globo.com/sociedade/bolsonaro-questiona-dados-do-proprio-governo-sobre-desmatamento-na-amazonia-23818978 e no Valor em 15/09/2020, https://valor.globo.com/politica/noticia/2020/09/15/mouro-reclama-de-divulgao-seletiva-de-dados-de-queimadas-na-amaznia-pelo-inpe.ghtml. Sobre o censo, ver matéria de Rodrigo Resende para a Rádio Senado, disponível em https://www12.senado.leg.br/radio/1/noticia/governo-pode-adiar-censo-populacional-para-2022. Sobre o negacionismo do governo no combate à pandemia, ver https://jornal.usp.br/radio-usp/negacionismo-cientifico-no-governo-e-inimigo-do-combate-a-pandemia/.

[10] Machado de Assis, op. cit., vol. I, p. 1250.

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