A ilusão dos lucros das commodities: A estagflação, por Rogério Maestri

O atual ministro da economia não conta com nenhuma recuperação na indústria brasileira, logo não lançará recursos para mover o motor desse ramo da economia

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A ilusão dos lucros das commodities: A estagflação.

por Rogério Maestri

Com a desvalorização do Real os exportadores de commodities tanto agrícolas como minerais tiveram um ganho de caixa desse setor e esse está animado e parece que essa seria a grande carta na manga de Guedes, porém para a infelicidade de todos, povo brasileiro, exportadores e governo não haverá a médio prazo um lucro consistente e pior, o país entrará numa estagflação que levará já em 2021 problemas ainda mais sérios que já estamos prevendo.

Mas a questão é como se procederá essa crise que lançará o Brasil numa crise semelhante a que a Argentina vivencia já a algum tempo.

O atual ministro da economia não conta com nenhuma recuperação na indústria brasileira, logo não lançará recursos para mover o motor desse ramo da economia, simplesmente porque ele pensa que as commodities que tem alguma vantagem comparativa com outros países mais desenvolvidos conseguirão transformar o país numa imensa “fazenda” com algumas mineradoras fazendo o resto do papel, entretanto como parece que o mesmo não sabe fazer contas ele não conta com os efeitos perversos da subida de preços de produtos industrializados no exterior assim como insumos para o agronegócio cotados em moeda estrangeira.

O mecanismo é simples, para não necessitarmos ficar com demonstrações de cálculos de uma inflação no primeiro mundo, podemos utilizar os dados previstos no trabalho de Paul De Grauwe e Sebastian Diessner bem recente, intitulado “What price to pay for monetary financing of budget deficits in the euro area”. Como o déficit previsto na zona do Euro é da ordem de 10% do PIB europeu e nos USA é maior do que este valor, em torno de 15% do PIB norte-americano, o que foi calculado no trabalho para a área do Euro pode ser transladado tanto para os USA assim como para a China.

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No trabalho acima referido, utilizando o fator de multiplicação de moeda nessa área como igual o que se tinha em 2019, os autores chegaram a uma inflação na zona do Euro entre 20% (cenário otimista) e 36% (cenário pessimista) que deverá ser dividido a medida que a economia seja retomada. Como a zona do Euro a retomada talvez seja mais lenta que nos USA e China, provavelmente o fator de multiplicação de moeda ainda seja menor do que em 2019 levando a uma inflação em Euro em torno de 8% a 10%, e nos USA algo um pouco acima desse valor. A China seria uma grande incógnita, porém como sua indústria está com baixa lucratividade talvez a inflação chinesa acompanhe o dólar.

Nesse ponto vem o grande problema para o Brasil, com a desindustrialização da nossa economia, grande parte dos preços dos importados serão transferidos diretamente para os preços internos e como a economia está em queda e a recuperação será ainda mais lenta que nos países do primeiro mundo, os déficits crescentes do governo terão que ser compensados ou pelo aumento dos juros, que causa um aumento maior na recessão, ou pela emissão de moeda, que causará um efeito cumulativo na inflação que importaremos.

Logo o que se pode prever para 2021 será uma estagflação que acumulará nas costas do povo brasileiro uma perda substancial da capacidade de compra e por outro lado todo o ganho no setor exportador será consumido no incremento da inflação interna causada pela importação da mesma pelos produtos industrializados com alto componente de importados.

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Resumo da ópera, a esperança do setor de commodities salvando a economia não vai ser salvação da lavoura e podemos esperar para o ano de 2021 grandes problemas e distúrbios sociais, pois a capacidade do povo pagar mais essa fatura não será possível.

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4 comentários

  1. Não tenho estes dados não sei avaliar. Mas algumas coisas consigo ver, primeiro é que o sistema bancário é incapaz de financiar a economia. O recente pacote de ajuda para os pequenos empresários mostrou que os bancos não têm qualquer interesse e competência nesta área.
    O segundo aspecto é o financiamento de longo prazo 6, 10 anos, típicos da industria, a juros compatíveis com os prazos não é do interesse dos bancos. É muito mais lucrativo crédito pessoal para compra de geladeira e de carro com juros extratosféricos mas que “cabem no orçamento”. Nossa jabuticaba financeira é para liquidificador e ventilador onde o sistema financeiro ganha mais do que quem produz.
    O problema é que o homem dos 8 livros por crise acabou com o financiamento de longo prazo que era todo estatal. Portanto, se for crível que os investimentos têm que partir do setor privado o primeiro passo é uma reforma bancária, nosso sistema bancário tem se mostrado semelhante a uma banca de jogo de bicho.

  2. Esses dias saiu o ultimo balanço de nosso comércio exterior, eu que sou ignorante, ao ver o saldo positivo pensei: continuamos vendendo as comodities mas, com as industrias nessa espera, as importações estão minguando. E vai continuar, com o custo das indústrias deixarem de produzir muita coisa. Ao contrário do articulista, que sabe muito mais, não vejo as importações num patamar como hoje.

    • Evandro, não sei mais nem menos, o comportamento da inflação no exterior retirei de gente que realmente sabe mais do que eu. Somente extrapolei os dados para a importação que deverá voltar com o tempo a custos mais altos.

  3. Acho que me adiantei em três semanas ao Goldman Sachs, pois dia 28 eles lançaram a seguinte notícia:
    Goldman Warns the Dollar’s Grip on Global Markets Might Be Over
    Nessa notícia ele escrevem “Goldman Sachs Group Inc. put a spotlight on the suddenly growing concern over inflation in the U.S. by issuing a bold warning Tuesday that the dollar is in danger of losing its status as the world’s reserve currency.”
    Traduzindo via Google
    “O Goldman Sachs Group Inc. O Goldman Sachs Group Inc. destacou a crescente preocupação com a inflação nos EUA, emitindo um alerta ousado nesta terça-feira de que o dólar corre o risco de perder seu status de moeda de reserva mundial., emitindo um alerta ousado nesta terça-feira de que o dólar corre o risco de perder seu status de moeda de reserva mundial.”
    É importante dizer que quando uma instituição como essa diz que está “destacou a crescente preocupação com a inflação nos EUA” isso deve ser traduzido para o leitor da notícia que eles já sabem (e já avisaram para seus amigos com antecedência) que a inflação do dólar vem aí!

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