1 de novembro de 2026

A maior política de justiça climática do mundo começou com reforma agrária, por Juliana Sayuri Gondo

A experiência da China sugere que é difícil haver justiça climática sem reorganização fundiária, e que esta não se sustenta sem as mulheres
Reprodução

A reforma agrária chinesa deu terra a 90% dos camponeses até 1956, base para redução da pobreza e justiça climática.
Mulheres foram essenciais na reforma e agricultura chinesa, mas ainda enfrentam desigualdade no acesso formal à terra.
No Brasil, alta concentração fundiária dificulta transição ecológica e igualdade de gênero, segundo análise comparativa com China.

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A maior política de justiça climática do mundo começou com reforma agrária, por Juliana Sayuri Gondo

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Um argumento a partir da experiência chinesa e do protagonismo das mulheres

Em meio ao debate global sobre justiça climática, transição energética e mercados de carbono, um elemento estrutural segue sendo evitado: a distribuição da terra. Fala-se em créditos de carbono, inovação tecnológica e finanças verdes, mas raramente se lembra que aquilo que o secretário-geral da ONU, António Guterres, chamou de “a maior conquista contra a pobreza da história”, com mais de 800 milhões de pessoas, começou com a maior reforma agrária do planeta: a chinesa, que, em poucos anos, deu terra a camponeses pobres até que, em 1956, 90% deles já tinham terra para cultivar.

A experiência da China sugere que é difícil haver justiça climática sem reorganização fundiária, e que uma reorganização profunda não se sustenta sem as mulheres, que alimentam o mundo. Essa leitura não é isolada: há uma corrente nos estudos agrários sobre a China que reconhece que não haveria desenvolvimento chinês sem a revolução e a reforma agrária, como mostra o capítulo sobre a China em Experiências históricas de reforma agrária no mundo, livro organizado por João Pedro Stedile. É uma corrente frequentemente deixada de lado no debate dominante, e este texto procura trazê-la de volta. Segundo a FAO, 66% das mulheres empregadas na África Subsaariana e 71% das do Sul da Ásia trabalham em sistemas agroalimentares.

Terra, patriarcado e poder

A história da agricultura está ligada à consolidação da propriedade privada e à estruturação do patriarcado. Durante milênios, o controle da terra significou controle da produção, da herança e do corpo feminino. Na China, esse processo assumiu formas particularmente rígidas: organização patrilocal, em que a propriedade era transmitida entre homens, e, por séculos, práticas violentas como a amarração dos pés.

Mas a mesma história que consolidou o patriarcado também gerou resistência. De pensadoras como Ban Zhao, no século I, às sociedades secretas camponesas que confrontavam o poder dos grandes proprietários, estudadas por Eric Wolf em Guerras camponesas do século XX, a luta das mulheres por direitos e a disputa pela terra se cruzaram repetidas vezes. Quando o país mergulhou na crise do início do século XX, devastado por guerras, fome e ocupações estrangeiras, a questão agrária tornou-se o centro da transformação social. E as mulheres estavam lá.

Reforma agrária e emancipação feminina

Já nos anos 1930, tanto as áreas controladas pelo Partido Comunista quanto o governo do Kuomintang tinham leis de reforma agrária em que as mulheres tinham direito à terra, ligado às leis de casamento e divórcio livres, ainda que, na prática, o alcance fosse limitado para a maioria delas. A razão é simples: sem autonomia econômica e emancipação política, não existe liberdade real. A reforma agrária chinesa, a partir de 1950, garantiu parcelas iguais de terra a homens e mulheres. Pela primeira vez, o acesso à terra deixou de depender exclusivamente da figura masculina e do lugar da mulher como filha, esposa ou viúva.

Nas comunas, a socialização do trabalho de cuidado retirou do espaço doméstico funções que prendiam as mulheres à dependência econômica. Não se tratava apenas de redistribuir hectares, mas de redistribuir poder. Esse caminho teve custos enormes: a fome do Grande Salto Adiante, entre 1959 e 1961, matou milhões de pessoas. A experiência chinesa não é um modelo sem erros.

A feminização da agricultura

Décadas depois, com a industrialização acelerada e a migração masculina em massa para as cidades, ocorreu um fenômeno decisivo: a feminização da agricultura. As estimativas variam, mas indicam que as mulheres são hoje cerca de dois terços da força de trabalho rural. Mesmo assim, um levantamento da Landesa de 2011, em 17 províncias, encontrou nome de mulher em apenas 17% dos contratos de terra e em 38% dos certificados. A igualdade jurídica não elimina, de imediato, estruturas patriarcais históricas.

A permanência feminina no campo não levou ao colapso produtivo que parte da literatura temia. O que ocorreu foi modernização, mecanização e aumento da produtividade. A agricultura chinesa sustenta a segurança alimentar de 1,4 bilhão de pessoas e foi base material para a industrialização do país. O capítulo sobre a reforma agrária na nova China, em Experiências históricas de reforma agrária no mundo, aponta que o campesinato contribuiu de forma indireta com trilhões de dólares para o desenvolvimento nacional, seja pela migração de mão de obra, seja pela transferência de terras para a urbanização.

A pergunta raramente feita é: qual foi a participação das mulheres nesse processo? Ao invisibilizá-las, parte da academia reproduz um apagamento histórico.

Justiça climática não nasce no mercado financeiro

Mais de 800 milhões de pessoas saíram da pobreza na China desde 1978, segundo o Banco Mundial. O país reduziu drasticamente a fome, ampliou a alfabetização e a expectativa de vida e hoje lidera os investimentos globais em energias renováveis e em programas de reflorestamento. A China é o maior emissor anual em termos absolutos, mas não no acumulado histórico, em que os Estados Unidos lideram, nem per capita, em que fica atrás dos EUA e de outras economias ricas. O ponto aqui não é absolvê-la nem acusá-la, mas entender o que sustentou essa transformação.

Muitas análises atribuem esses resultados à política de Reforma e Abertura, iniciada em 1978. Mas ela começou no campo: com a desmontagem das comunas e a entrega de lotes às famílias camponesas, sobre a base da distribuição de terras de 1950. Minha leitura é que, sem base produtiva estável, não haveria industrialização soberana, e, sem redução massiva da pobreza, não há política ambiental consistente. Justiça climática não começa no mercado de carbono. Começa na estrutura da propriedade e na garantia dos direitos mais básicos: erradicar a pobreza e a fome, os dois primeiros Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 da ONU.

O que isso tem a ver com o Brasil?

Segundo o pesquisador Miguel Stedile, em Brasil, reforma agrária como solução, entre as dez maiores economias do mundo apenas Brasil e Índia não realizaram reformas agrárias estruturais. O Brasil tem uma das maiores concentrações de terra do planeta: pelo Censo Agropecuário de 2017, cerca de 1% dos estabelecimentos, os de mais de mil hectares, ocupava 47,6% da área, fatia que vinha crescendo (45% em 2006). Enquanto isso, o debate climático brasileiro frequentemente se limita à regulação do agronegócio ou à precificação de emissões, sem enfrentar a raiz da concentração da terra.

A experiência chinesa sugere algo incômodo: é difícil imaginar uma transição ecológica real sob estrutura fundiária concentrada. E há outro ponto ainda menos discutido: dificilmente haverá igualdade de gênero sem a posse ou a propriedade da terra pelas mulheres.

Um debate que parte da esquerda evita

Parte da esquerda latino-americana incorporou o debate ambiental sem recolocar a reforma agrária no centro da agenda estratégica. Ao deslocar o foco para a transição energética descolada da estrutura fundiária, corre-se o risco de aderir ao chamado “capitalismo verde”. A experiência chinesa aponta outra direção: reorganizar as bases produtivas antes de sofisticar os instrumentos financeiros. Não se trata de copiar modelos, mas de reconhecer que concentração fundiária, desigualdade de gênero e crise climática fazem parte do mesmo problema estrutural.

Mulheres, terra e futuro

A trajetória das mulheres chinesas mostra que emancipação não é subproduto automático do crescimento econômico. Foi construída com luta política, legislação, mobilização coletiva e reorganização produtiva. Persistem desigualdades, especialmente no acesso formal à terra, mas tudo indica que o acesso produtivo feminino foi decisivo para a soberania alimentar, a estabilidade social e as condições materiais de políticas ambientais ambiciosas.

Se justiça climática significa garantir condições dignas de vida no presente sem comprometer o futuro, ela começa com algo mais simples, e mais radical, do que se costuma admitir: democratizar a terra. Talvez o maior desafio não seja técnico, mas político: reconhecer que o debate climático exige mexer nas bases da propriedade. E isso continua sendo, no mundo inteiro, a questão mais sensível de todas.

Texto atualizado em 28/10/2026.

Juliana Sayuri Gondo é pesquisadora e escritora. China, Justiça Climática e Sul Global. Mestrado em Literatura Inglesa — University of Glasgow, Reino Unido. MBA em Gestão Ambiental — Fundação Getulio Vargas (FGV). Bacharelado em Direito — Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

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Juliana Sayuri Gondo

Juliana Sayuri Gondo é pesquisadora e escritora. China, Justiça Climática e Sul Global. Mestrado em Literatura Inglesa — University of Glasgow, Reino Unido. MBA em Gestão Ambiental — Fundação Getulio Vargas (FGV). Bacharelado em Direito — Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

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