A pedagogia do encolhimento. O treinamento silencioso do consumidor brasileiro
A redução silenciosa de produtos e serviços não é só uma estratégia comercial. É um aprendizado coletivo. Consente-se em pagar o mesmo por menos, até que o encolhimento se transforme em normalidade.
por Lucio Massafferri Salles
Pedi um milkshake de chocolate no Bob’s há alguns anos. Antes mesmo de eu receber qualquer coisa, a atendente, com sorriso treinado, já me oferecia: “se o senhor pagar um adicional, o milkshake vem com mais chocolate”. Achei esquisito. Perguntei: mas como assim mais chocolate? Eu já pedi um milkshake de chocolate. Ela explicou com a naturalidade de quem repete aquilo muitas vezes por dia: pagando mais, vinha mais chocolate. Eu não sabia ainda, mas estava diante de um caso clássico de shrinkflation. Na hora ri muito. Disse que tinha fé que o milkshake que eu havia pedido seria mesmo de chocolate, nem mais e nem menos. Não paguei o adicional. Mas saí da fila com a sensação incômoda de quem foi cordialmente convidado a ser passado para trás. E até que eu me saí bem, creio.
10 marcas famosas que encolheram suas embalagens
A palavra que me vem à mente é ludibriado. Não roubado, porque ninguém queria meter a mão no meu bolso à força. Ludibriado sim, porque a transação seria consentida, caso eu sorridentemente topasse turbinar o shake. Tendo sido real, a cena estava formalmente correta, mesmo havendo ali um jogo cujo roteiro eu não tinha preparado. A verdade é que esse episódio do milkshake é só uma ponta visível. Esse fenômeno tem nome técnico: shrinkflation, que significa encolhimento com inflação. O que se passou comigo há anos atrás descreve uma manobra que hoje virou rotina em vários estabelecimentos e nas prateleiras brasileiras: as empresas reduzem o conteúdo e mantêm os preços, ou aumentam o preço enquanto reduzem o tamanho. O antológico biscoito Goiabinha encolheu. O Cream Cracker diminuiu e se esfarinhou. O carismático Sonho de Valsa agora é versão pigmeu. O sabão em pó rende menos lavagens. O papel higiênico tem menos folhas, e as folhas são mais curtas. O leite condensado foi de 395 para 380 gramas, e a indústria avisou isso em letra bem miúda tipo bula de remédio, no cantinho da embalagem. Quando avisou. A velha e guerreira Coca-Cola hoje se retraiu para uma garrafinha de 200 ml; o próximo passo é um dedal. O ritmo desse ilusionismo coletivo arrisca transformar em breve o Bombril em 500 e meia utilidades.
O produto encolheu e o preço ficou o mesmo
Cabe notar uma assimetria que diz muito. Estudos sobre o varejo europeu, conduzidos pelos economistas Janssen e Kasinger, mostram que reduções de tamanho ocorrem mais de cinco vezes que os aumentos. E há um detalhe ainda mais revelador: quando o produto cresce, o preço sobe junto; quando o produto encolhe, o preço fica onde está. A conta nunca volta. O movimento é sempre na mesma direção. Direção contrária ao consumidor, seguramente.
Reduflação e o Comportamento do Consumidor
Por que isso funciona? Porque com a confirmação da psicologia do consumo em laboratório a indústria parece ter descoberto que os olhos reagem ao número do preço, e não exatamente ao volume em peso. Aumentar de R$ 8,90 para R$ 10,50 dói à vista. Reduzir de 200 para 170 gramas mantendo os R$ 8,90 passa quase que em silêncio. O mesmo dinheiro saindo do bolso, sem uma clara percepção disso. Pesquisas mostram que, quando as pessoas finalmente se dão conta do truque da redução, consideram-na mais injusta que um aumento equivalente de preço. Isso acontece porque elas enxergam nessa jogada uma enganação deliberada, e tem mesmo razão de enxergar. Curiosamente, a rejeição praticamente desaparece quando a mudança é comunicada com transparência. Logo, podemos pensar, o problema não é reduzir. É esconder. E aqui chegamos ao ponto que me parece mais grave. A shrinkflation não é apenas uma prática comercial discutível. Ela é um treinamento. Um treinamento lento, paciente, distribuído por anos, em que o consumidor brasileiro vai sendo educado a aceitar menos pelo mesmo dinheiro como se isso fosse o curso natural das coisas. A embalagem se redesenha, o produto encolhe, o preço sobe ou fica, e numa próxima visita ao mercado o novo tamanho já é o tamanho mesmo. A memória do volume anterior vai se apagando. O paladar se acostuma com o cacau diluído. A mão se acostuma com a embalagem mais leve, o saco de biscoitos com apenas a metade cheia. Esse tipo de “empobrecimento” vira normalidade. E essa normalidade é, ela própria, o produto final de todo o processo. Arrisco propor uma formulação para esse procedimento: encolhimento consentido (que se torna consenso). Consentido não porque o consumidor concordou explicitamente, mas porque foi conduzido, pelo jogo silencioso e perverso do preço e da embalagem, a uma posição em que a recusa se torna invisível para ele mesmo. Não há panfleto, não tem revolta, nem tem boicote. O que existe é apenas a aceitação distraída de um padrão que se rebaixa centímetro a centímetro, grama a grama, ano após ano.
E o que isso provoca, se é que provoca? O Procon registra. O Senacon promete (e só). Em 2023 saiu uma portaria exigindo que, por noventa dias, as embalagens informassem a redução de conteúdo em letra miúda, no rodapé. Depois disso, silêncio total. As multas existem, são aplicadas às vezes, e são calculadas para caber dentro da margem de lucro da operação. O recado ao consumidor acaba sendo eloquente: leiam o rótulo com uma lupa, façam vocês mesmos a conta do preço por quilo, e não reclamem que ninguém os avisou. É o caso estranho em que a vigilância acaba sendo entregue a quem está sendo vigiado
Penso que o caso do milkshake do Bob’s tem algo de exemplar justamente por sua pequenez. Não se trata de um escândalo e nem de uma fraude que vá virar manchete, ou mesmo de um produto adulterado que cause dano à saúde. Trata-se apenas de um copo plástico com um líquido mais aguado, com “menos chocolate”, e do gesto cortês de oferecer, por um adicional, aquilo que antes vinha sem se pedir. É nessa miniatura cotidiana que se aprende a engolir tudo o resto. Quem aceita o milkshake ralo amanhã aceita o salário corroído, o serviço público encolhido, a promessa eleitoral diluída. A ilusopedagogia é exatamente a mesma. O mais interessante é a passividade. O quase silêncio, nessa era da comunicação em rede. Por que isso praticamente passa de maneira tão fácil? Será porque estamos conduzidos a acreditar que o “mundo” inevitavelmente entrega menos?
Se for, quem aprende isso para de perguntar o que sumiu, simplesmente porque não notou.
Lucio Massafferri Salles é filósofo, psicólogo e psicanalista, jornalista, professor do Departamento de Psicologia da UCAM e professor de Filosofia, com atuação em Educação Especial, na rede pública de ensino do Estado do Rio de Janeiro. Doutor e mestre em Filosofia pela UFRJ, especialista em Psicanálise pela USU, realizou pós-doutorado em Filosofia Contemporânea na UERJ. Autor de Raízes Sofísticas: a palavra como fármaco e A arquitetura do caos: guerras híbridas, operações psicológicas e manipulação digital. É o criador e responsável pelo canal Portal Fio do Tempo, no YouTube.
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Wlad
1 de junho de 2026 10:01 amNo Brasil temos fiscais que ganham altos salários mais propinas dos fiscalizados. Temos leis, regulamentos, órgãos fiscalizadores , mas que não servem para nada. Pois não temos fiscalização. O que temos é uma corrupção que virou normalidade. A população não denuncia porque não é ouvida e não vê ação da fiscalização. O que precisamos é de gestão. Quem fiscaliza os fiscais ? Os fiscais gerenciam a normalização da corrupção, e muitas vezes são orientadores dela, seja no preço, seja na quantidade ou na qualidade.
Quando as coisas erradas viram normalidade, não tem como consertar. Só mesmo uma revolução para resolver.
melrj
1 de junho de 2026 12:01 pmEu já venho comentando sobre esse fato há anos!!
Desde a caixa de bombom q era de 500g (agora é de 220g),
passando pela barra de chocolate q era de 200g (agora varia entre 80 e 90g),
caixa de bis q era de 20 unidades (agora 16),
pão de forma era 500g (agora varia de 450 a 480g),
sabão em pó q era de 1kg, passou pra 900g agora é 800g,
pacote de biscoito q era 200g agora varia de 80 até 130g entre tantos outros produtos q agora não me recordo!
Sem contar q o chocolate foi substituído pelo sabor chocolate!
E tomem cuidado com a falsa muçarela! Vejam nos ingredientes: se tem amido de milho não é queijo!