A perda da dicção editorial do jornal Folha de S. Paulo, por Gustavo Conde

Se quem fala pela Folha é Sérgio Dávila, permitam-me prestar minhas condolências ao jornal - a voz do jornal morreu.

A perda da dicção editorial do jornal Folha de S. Paulo

por Gustavo Conde

O artigo do diretor de redação da Folha de S. Paulo de hoje mostra que o jornal está sem comando.

Trata-se de um editorial levemente mascarado de opinião. O missivista, Sérgio Dávila, gasta 19 parágrafos para dizer o seguinte: 1) A Folha errou, 2) a Folha publicou as críticas ao seu erro e 3) Portanto, a Folha é democrática.

É o modo bolsonaro de ser: fala besteira, pede uma desculpa cínica e ainda posa de vítima.

A Folha perdeu o tom, perdeu a ‘embocadura’ jornalística, perdeu a dicção.

Quem fala por ela é alguém inseguro, cujo texto aponta fragilidades técnicas e um viés assaz provinciano composto por cifras de despeito – o ataque inacreditável a Janio de Freitas – e pirraça de criança mimada (a denegação diante da constatação solar de que o jornal apoiou a ditadura).

Se quem fala pela Folha é Sérgio Dávila, permitam-me prestar minhas condolências ao jornal – a voz do jornal morreu.

Destaque-se que este fato – a perda da dicção editorial – é alvissareiro e aponta para uma tendência estrutural: o jeito família – leia-se ‘centralizador’ – de gerir negócios de mídia perdeu-se na miséria político-social que tomou conta do país – é daqueles efeitos colaterais que são bem-vindos.

O jornal dos Frias é uma pipa balançando em meio a um furacão.

As zonas de degradação são múltiplas. Os editoriais oficiais do jornal, por exemplo, estão severamente comprometidos depois de tanta exposição ao ridículo. Alçaram a condição de piada. Quem redige aquilo? Quem é o gênio? Quem ainda codifica tanto proselitismo associado a ethos empoeirados de arcaizantes?

Noutra ponta, a campanha dominical pelo amarelo é o emblema desse mergulho no abismo: é uma aposta vazia, inconsistente, pretensiosa e cínica, que mais atiça a ferida monumental de nossas perdas recentes (democracia, soberania e humanidade), – ainda inflamada pelo horror – do que resgata um frágil ex-símbolo nacional.

A perda de dicção da Folha de S. Paulo nos diz respeito a todos nós, quer gostemos deste jornal ou não. Aliás, não se trata de ‘gostar’ ou ‘não gostar’.

A Folha habitou o imaginário recente do brasileiro. Em um país de concentração colossal de mídia, ela teve participação relevante na formação de leitores e na construção de algum ponto de partida para o debate público.

A Folha é um pouco como o PT: dispõe de uma ambiguidade esfíngica e fascina os grupos intelectualizados de coloração progressista.

Dela – com todas as suas contradições – nos apropriamos ao longo das décadas, carnavalizando-a, antropofagizando-a.

Suportamos suas imposturas editoriais para degustarmos algumas colaborações importantes que por ali passaram e passam, bem como matérias jornalísticas dignas do nome e do ofício, em geral, longe da cobertura de Brasília, sempre de péssima qualidade.

A descaracterização da Folha como um jornal possuidor de alguma “voz”, causa até um estranho sentimento de perda, tão afeitos a síndromes de Estocolmo que somos.

Mas, esse dia, fatal e factualmente, acabou por chegar. Sérgio Dávila entra para história como o diretor de redação que aniquilou a voz paradigmática da Folha.

Em um mundo em que as vozes reais foram criminalizadas e em que apenas a voz etérea do neoliberalismo impera – em que a antropomorfização do mercado é o lastro subjetivo que subjaz às reflexões sobre economia -, o jornal da Barão de Limeira desfila mais uma vez na vanguarda.

É o primeiro jornal sem voz da nova geração das mídias não alternativas.

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