A peste em leituras, por Walnice Nogueira Galvão

Romance sobre um surto de peste bubônica, ou peste negra, na moderna cidade argelina de Oran, abre espaço para a bela escrita  tingida de existencialismo que guindaria o autor ao Prêmio Nobel.

A peste em leituras

por Walnice Nogueira Galvão

Tem muita gente boa por aí lendo A peste, de Albert Camus. Romance sobre um surto de peste bubônica, ou peste negra, na moderna cidade argelina de Oran, abre espaço para a bela escrita  tingida de existencialismo que guindaria o autor ao Prêmio Nobel. Antes dele, Edgar Allan Poe, miniaturista de horrores, escrevera o conto “A máscara da morte vermelha”, no qual príncipe e cortesãos barricadam-se num castelo, rendendo-se à voragem de uma festa interminável, sem desconfiar que a peste – não a negra mas a vermelha – já está lá dentro.

Em outras leituras a peste não é o tema central, mas praticamente uma alegoria de pulsões obscuras. É o caso de Morte em Veneza, de Thomas Mann, uma desencantada ficção sobre os enganos dos seres humanos, cujos desejos tão fortes quão equivocados arrastam à humilhação,  à desagregação e, sem qualquer redenção à vista, ao aniquilamento. C´est Vénus tout entière à sa proie attachée, na irretocável formulação de Racine em Phèdre.

No Decameron (séc. XIV), fescenino como poucos e bem divertido, Boccacio confina na Toscana, nos arredores de Florença,  um grupo de pessoas das mais variadas origens e interesses,  para fugir à peste. Cada um conta sua história, uma melhor que a outra.

Tempos depois o grande escritor inglês Daniel Defoe, mais conhecido como autor de Robinson Crusoe, publicou em 1722 o semifictício Diário do ano da peste, relato dia a dia do ano de 1665 na Londres assolada. Um mundo enclausurado e macabro: na cidade deserta as carroças passam recolhendo e empilhando cadáveres. Tal como vemos em tanta pintura medieval.

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Outro livro tampouco trata diretamente da peste, mas de gente paralisada à espera de que uma catástrofe despenque dos céus, recriando uma atmosfera similar. Em O deserto dos tártaros, de Dino Buzzati, uma guarnição militar nos confins do mundo civilizado fica de atalaia por um tempo sem duração, aguardando a invasão dos tártaros que vivem no deserto, invasão que jamais ocorre ou se concretiza. O romance ecoa o mais célebre dos poemas de Kavafis, grego de Alexandria, “À espera dos bárbaros”.

Vários desses livros geraram filmes. Há duas versões do Decameron, ambas pelas mãos de cineastas de alto nível, sendo bela como poucas uma de Pasolini e outra dos irmãos Taviani, bastante estilizada, quase meio século mais tarde. A peste de Camus já foi igualmente filmada.

E certamente Morte em Veneza se beneficia da direção de um artista excepcional como Luchino Visconti. É um de seus grandes filmes de decadência, como Senso, ou O leopardo, ou Ludwig, ou Os deuses malditos. O requinte visual é sem par. Conta-se em sua biografia que ele exigia que até a roupa de baixo fosse de época apesar de invisível. Num filme como esse seriam várias camadas de seda e cambraia de linho bordadas a mão com botõezinhos de pérola, e não de poliester  e velcro como hoje.

Na tela, assistimos à história do famoso compositor alemão von Aschenbach, casado e pai, em crise de meia-idade e de esterilidade criadora, que vai a Veneza em vilegiatura e lá concebe uma paixão fulminante por um belo adolescente. Fulminante, incompreensível, inaceitável e fatal – e à distância. Jamais sequer fala com o objeto erótico. A paixão, mórbida e letal, desenvolve-se em meio à ameaça da peste de cólera que vem do Oriente com seus miasmas. O compositor sente-se rejuvenescer e confunde  os sintomas da contaminação pela peste com os sintomas da paixão. Veneza, candidata ao título de mais bela cidade do mundo, beneficia-se da câmera do cineasta. Localizado num hotel de máximo luxo, as cenas têm o “requinte Visconti” na reconstrução histórica,  na insistência na belle époque e seu corolário estético Art Nouveau, no design de interiores e nas toaletes. Dizem que ele copiou as roupas da condessa sua mãe, que era elegantíssima. Dificilmente haverá filme mais belo e mais dilacerante.

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Mas é claro que a imensa sombra de Kafka, o mestre do universo concentracionário e do absurdo, paira soberana.

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

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2 comentários

  1. A peste é uma peça de teatro que tem muito a ver com nossa realidade: a peste seria, metaforicamente na obra de Camus, o poder da caserna.

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