no Substack ‘Here’s a Thought / Pensando Alto
Quem só tem café acaba no cardápio
Principais reflexões da Live transmitida em 22/6/2026.
No início de 2026, o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, proferiu um discurso memorável no encontro de Davos. Ao discorrer sobre o papel das potências médias (“middle powers”) em um mundo marcado por rupturas, Carney sintetizou o drama desses países em uma frase: “Se não estamos à mesa, estamos no cardápio.” A solução que apresentou na ocasião consistia em um apelo para que os países se organizassem em conjunto, a fim de resistir e se proteger das pressões exercidas pelos Estados Unidos e pela China. Ele propôs arranjos concretos, como a formação de um “clube de compradores” (“buyers’ clubs”) de minerais críticos no G7 e a construção de uma ponte entre o acordo comercial transpacífico, conhecido como CPTPP, e a União Europeia. O problema, para o Brasil, é que tais soluções destacam precisamente aquilo que não somos nem temos. Não fazemos parte do CPTPP e não temos uma indústria de processamento e refino de minerais críticos. Além do mais, os últimos meses têm mostrado como é difícil a ação coordenada fora das zonas de influência das duas potências globais, sobretudo quando uma está em ascensão (a China) e a outra em declínio (os Estados Unidos). Tudo se complica ainda mais quando se levam essas questões ao contexto sul-americano.
A Colômbia acaba de realizar uma eleição acirrada entre os extremos ideológicos. Não surpreendentemente, venceu, por margem bastante estreita, o candidato alinhado ao trumpismo, Abelardo de la Espriella. De la Espriella agora se junta a José Antonio Kast, do Chile, e a Javier Milei, da Argentina, para compor o trio de trumpistas caricatos da América do Sul. Em meio a isso, está o Brasil com seu próprio pleito no fim do ano e, ainda que já tenhamos experimentado como é ter no poder um admirador de Trump, parte da população parece disposta a aturar o repeteco.
O discurso de Carney e as eleições na Colômbia me levaram a pensar em como o Brasil pode se proteger, sobretudo caso uma eventual reeleição de Lula ponha o país em destaque como a única grande economia sul-americana a não se curvar às investidas dos Estados Unidos. O quadro não é promissor, como mostra a ilustração que escolhi para este artigo, pintada por mim.
O mundo descrito por Carney em janeiro e observado por nós desde então é um ambiente marcado pelo belicismo econômico (e não-econômico) patrocinado pelo governo de Donald J. Trump. Como tantos outros países, o Brasil vem tentando diversificar suas relações comerciais e de investimento para se preservar dos piores petardos associados às políticas trumpistas. Ou seja, o país tem se saído razoavelmente bem na demonstração de poder defensivo, mesmo que não tenha conseguido afastar por completo o ímpeto tarifário do presidente norte-americano e, mais recentemente, a sanha trumpista de usar instrumentos de combate ao crime internacional como dispositivo para coagir países. México e Brasil—dois países cujas lideranças não são propriamente chegadas a Trump—têm sido alvo de designações de grupos criminosos como terroristas, não porque os Estados Unidos tenham real interesse de combater esses grupos, mas sim porque a abrangência dos poderes conferidos pelas leis norte-americanas torna tais designações extremamente úteis como ferramentas de pressão. É por isso que o Brasil precisa, além do poder defensivo, do poder coercitivo, sobretudo nesses tempos em que a diplomacia foi abandonada em favor da pura transação.
A China, alvo prioritário de Trump quando retornou à Casa Branca em 2025, tem sido muito habilidosa em bloquear as ingerências dos Estados Unidos. Mas a China é a China. Entre outras coisas, o país é o maior exportador do mundo de minerais críticos e terras raras, dominando quase exclusivamente os elos de maior valor adicionado dessas redes: o processamento e o refino. Em uma de suas muitas medidas retaliatórias às ações do governo Trump contra empresas de tecnologia chinesas, a China proibiu as exportações para duas grandes empresas norte-americanas do setor de terras raras. A capacidade que os chineses têm de anular as investidas de Trump e de revertê-las é única e nenhum outro país do mundo detém poder minimamente semelhante.
Talvez o que mais se aproxime disso seja a Índia, com o domínio que detém na indústria de medicamentos genéricos. Junto com a China, a Índia é o país que mais exporta medicamentos para os Estados Unidos. Por mais que os EUA queiram restabelecer a autossuficiência farmacêutica, há muito tempo as empresas norte-americanas deixaram de produzir remédios mais corriqueiros e baratos, pois esses produtos não têm a mesma lucratividade dos medicamentos mais sofisticados, como imunoterápicos, tratamentos diversos para câncer, além de outros terapêuticos de ponta. Portanto, a Índia tem na sua indústria farmacêutica uma ameaça de peso contra as hostilidades dos Estados Unidos.
Saindo do eixo dos BRICs, o Canadá de Mark Carney também tem algum poder de fogo econômico. O país é o maior exportador de potássio para a fabricação de fertilizantes, sem os quais o agronegócio norte-americano fica encalacrado. Embora o Irã seja um caso muito diferente dos demais, além de ser o palco da guerra no Oriente Médio, cujo fim ninguém sabe ao certo, o uso que tem feito do Estreito de Ormuz revela como a geografia, para além das exportações, pode ser usada para forçar a mão de Donald Trump.
Naturalmente, a pergunta que emerge de tudo isso, especialmente quando se considera a possibilidade de o Brasil ficar isolado em meio às muitas caricaturas de Trump que têm surgido na nossa região, é: o que tem o Brasil? O que o Brasil pode usar como poder de barganha nas diversas tratativas com os Estados Unidos? Andei pensando bastante nisso e pouco me ocorreu. Evidentemente, não temos um Estreito de Ormuz para chamar de nosso, mas temos vários produtos dos quais os EUA dependem, não? Bem, não exatamente. Temos óleos brutos de petróleo, temos suco de laranja, temos aço, temos carne bovina, temos minério de ferro. Contudo, em nenhum desses casos temos a capacidade de deixar os EUA sem alternativas. Afinal, os Estados Unidos ou produzem esses produtos por conta própria ou recorrem a outros fornecedores. A exceção da nossa pauta de exportação é o café. O café brasileiro responde por cerca de um terço do mercado norte-americano. Não à toa foi excluído de todos os tarifaços de Trump até aqui.
Eu gosto de café, sobretudo do nosso café, e não pretendo achincalhá-lo. Mas, francamente, essa não é uma instância de quem não tem cão, caça com gato. Quem não tem os minerais críticos processados da China, o potássio do Canadá, os farmacêuticos da Índia ou a geografia do Irã não caça com… café. Tal observação nos leva a refletir sobre o cardápio de alternativas oferecido pelos candidatos à presidência da República. Flávio Bolsonaro nos oferece o mesmo que De La Espriella, Milei e Kast: a capitulação. Lula, por outro lado, nos oferece alguns lampejos de esperança ao falar sobre políticas industriais que nos permitam vender ao mundo minerais processados, que a China domina.
Infelizmente, os lampejos não sobrevivem a uma reflexão mais detida. Mesmo que contássemos com o espaço fiscal para financiar as políticas industriais necessárias—e esse não é o caso—teríamos de encontrar uma forma de produzir o que queremos sem antagonizar os chineses.
Segue o Brasil, portanto, sem cão, sem gato. Estamos à mesa apenas como prato.
Monica De Bolle é economista e artista plástica.
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