A política e os “idiotas racionais”, por Jorge Alexandre Neves

Ciro é praticamente a antítese de Bolsonaro. É um ator político que sempre quis “pensar grande”, refletir estrategicamente. Todavia, sempre falhou nas decisões táticas. 

A política e os “idiotas racionais”

por Jorge Alexandre Neves

Ao assistir um vídeo de Alberto Carlos Almeida (1) no YouTube, não pude deixar de me lembrar de um famoso artigo de Amatya Sen (2), intitulado “Idiotas Racionais” (3). Neste artigo (4), Sen faz uma crítica ao simplismo da concepção de ser humano da teoria neoclássica, o chamado homo economicus. Essa crítica é extremamente pertinente, e muitas pesquisas econômicas, sociais e políticas mais recentes têm mostrado sua validade empírica. Todavia, isso não quer dizer que em nenhum momento atores econômicos, sociais ou políticos não possam agir como (e alguns sejam, essencialmente) “idiotas racionais”.

Alberto Almeida começa seu vídeo citando uma frase de Napoleão Bonaparte: “a burrice não é uma desvantagem na política”. Em seguida, ele associa a frase a Ciro Gomes e Jair Bolsonaro. Ao longo do seu vídeo, ele trata a frase de Napoleão como uma espécie de enigma. Penso que o conceito de “idiota racional” pode oferecer uma solução – entre outras – para esse enigma.

Lembro-me que na defesa de doutorado de Jakson Alves de Aquino – da qual participei como avaliador – um economista especialista em Teoria dos Jogos, que também era membro da banca avaliadora, colocou de forma bastante explícita que jogos simples como o “Dilema do Prisioneiro” só eram adequados para a análise do comportamento de idiotas. Ele estava, justamente, pensando nos “idiotas racionais”.

Ocorre que, em certas situações, jogos simples são, de fato, ferramentas úteis para a análise das escolhas de atores econômicos, sociais e políticos. Esses jogos simples, contudo, me parecem mais úteis para a análise de situações táticas do que estratégicas (5).

Pensadores como Vernon Smith (6) talvez nos permitam pensar a compatibilidade entre uma racionalidade tática e outra estratégica. Podemos agir taticamente como “idiotas racionais”, mas estrategicamente aplicarmos o que Smith chama de “racionalidade ecológica”? Penso que sim, embora isso não seja muito fácil de compatibilizar.

Analisemos os dois atores citados no início do vídeo de Alberto Almeida. Acho que são casos significativamente diferentes. Jair Bolsonaro é quase o “tipo ideal” do “idiota racional”. Ou seja, ele será sempre, em termos analíticos, excessivamente parcimonioso (no sentido da análise de Hirschman, citada na nota número 4) em seu processo de tomada de decisão. Isso porque ele é, de fato, um indivíduo cognitivamente limitado, exatamente o tipo de ator que Napoleão Bonaparte estava pensando. Todavia, tem sido bem sucedido politicamente. Como isso é possível? Porque sempre soube fazer seu jogo em contextos favoráveis. Por exemplo, sempre foi candidato a cargos proporcionais, tendo sido sempre bem sucedido. Candidatando-se a cargos proporcionais, podia falar apenas para o seu segmento ideológico. Ele apenas arriscou-se a uma eleição majoritária (e foi logo a mais importante, para a presidência da República), quando o contexto (7) lhe permitia vislumbrar uma vitória.

O caso de Ciro Gomes é bem diferente. Acredito que Luis Nassif (8) faz uma análise mais acurada sobre ele. Ciro é praticamente a antítese de Bolsonaro. É um ator político que sempre quis “pensar grande”, refletir estrategicamente. Sempre quis elucubrar e propor alternativas analíticas para resolver os problemas do Brasil. Todavia, sempre falhou nas decisões táticas. 

Como coloquei, acima, a compatibilização entre ser um “idiota racional” taticamente e um “racional ecológico” estrategicamente não é nada banal. Ciro Gomes tem tentado – principalmente a partir de 2010 – fazer essa compatibilização. Neste momento, ele me parece estar jogando um dos jogos simples da Teoria dos Jogos, o chamado “chicken game” (9). Ele está percebendo que o quadro eleitoral está definido nas duas pontas do espectro político: Lula e Bolsonaro. Assim, busca se diferenciar radicalmente de ambos. Está contando que o contexto de radicalização política lhe permitirá conquistar o eleitor de centro, mesmo com sua postura e seu discurso agressivos. Irá funcionar? É pouco provável. Mas, se para ele o único resultado aceitável é vencer a eleição presidencial em 2022, qual outra opção haveria?

Jorge Alexandre Neves – Ph.D, University of Wisconsin – Madison, 1997. Pesquisador PQ do CNPq. Pesquisador Visitante University of Texas – Austin. Professor Titular do Departamento de Sociologia – UFMG – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas

  1. Ver: https://www.youtube.com/watch?v=rDIflRQNk-M.
  2. https://www.jstor.org/stable/2264946?seq=1#page_scan_tab_contents.
  3. Ou “Tolos Racionais”, dependendo da tradução escolhida para a palavra inglesa “fools”.
  4. Assim como em outro famoso, neste caso de autoria de Albert Hirschman, ver: https://www.jstor.org/stable/pdf/3823226.pdf?seq=1#page_scan_tab_contents.
  5. Embora, de modo geral, esses jogos usem a palavra “estratégia” para definir as opções disponíveis para os jogadores.
  6. Ver: https://www.jstor.org/stable/3132103?seq=1#page_scan_tab_contents.
  7. A análise desse contexto fica para um outro artigo.
  8. Ver: https://jornalggn.com.br/eleicoes/mangabeira-e-os-erros-que-tiraram-a-presidencia-de-ciro-por-luis-nassif/.
  9. Deixei o nome desse jogo em inglês, pois sua tradução literal (“jogo da galinha” ou “jogo do frango”) não faz o menor sentido em português. Em inglês, a palavra chicken também é utilizada para se referir a alguém que é frouxo, que pula fora do conflito na hora decisiva. O vencedor do jogo é aquele que consegue segurar a decisão até a última fração de tempo, fazendo com que o outro pule fora (seja o frouxo) antes, evitando o desastre final. O vencedor não precisará, assim, enfrentar o desastre, e manterá a imagem de corajoso. O “chicken game” é um jogo de radicalização.

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