A primeira despedida, por Mariana Nassif

Nenhuma revolta, amiga minha. Nenhuma. Saber e compartilhar sua forma de viver a vida facilita extremamente a lembrança da continuidade do espírito, energia pulsante, sem as mazelas físicas...

A primeira despedida, por Mariana Nassif

Nunca havia perdido uma amiga.

Lucila estreou em muitas searas na minha vida, especialmente nos palcos da estima. Ela me gostava. Sempre soube disso, não apenas pelo espaço de cultivo que semeamos nestes quase 11 anos de amizade, mas especialmente pela dedicação em manter os olhos respeitosos na minha direção, invariavelmente – mesmo quando eu estava jogada no sofá, chorando pelo fim de mais um amor, toda bagunçada, quase sem querer comer.

Quase sem querer comer porque comida também é uma de suas especialidades. Comida boa, comida farta, comida quente, comida sempre presente. Comida e bebida. Vinho, drink, cerveja. E o Licor 43 que a gente insistia em avaliar em um e outro restaurante só pra ver se estava denso e geladíssimo como tem que ser.

Chamávamos nossos encontros de Vegas, nem sei direito o porquê. Estes encontros aconteceram religiosamente durante muitas 3as feiras, em diversas e diferentes fases das nossas vidas. Vi Lucila virar avó, dois momentos mágicos onde presenciei a expansão do amor livre pelos filhos transbordar. Vi Lucila sendo filha, uma filha querida, companheira e presente pra Ba, que pediu uma viagem pra Turquia para celebrar seus 80 anos. Cheia de gente muito boa, essa família. Vi Lucila trabalhar com o que ama, incansável, construindo motivos alegres pra seguir a rotina, porque chatice não é pra gente como ela. Vi Lucila chorar escondidinha e sorrir ao mesmo tempo quando o Victor decidiu voltar pra França que a vida dele acontece mesmo por lá: “ah, Nassifa, vou ter saudade mas ele vai ser feliz, isso que importa”. Vi Lucila brava quando a gente apoiava o copo direto na mesa, passando paninho no chão muito rápido quando qualquer grão insistia em sair do prato e fazer um macarrão com molho de limão perfeito como se fosse miojo.

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Também vi quando o câncer chegou e, dentre desânimos e batalhas, nunca perdi de vista o compromisso com o viver bem que, nitidamente, ela fez questão de manter. Honesta consigo mesma em primeiro lugar, tratou de dignificar a manutenção de uma doença crônica e severa colocando em prática as palavras do evangelho segundo o espiritismo, livro que jamais abandonou. Leu, releu e, pauta constante de nossas conversas, fez da reforma íntima sua base pra seguir em frente. E seguiu. Ser feliz importa muito, mesmo.

A notícia de sua partida veio de surpresa, no domingo o qual havia decidido pular carnaval, algo quase inédito por aqui. Mantive o compromisso e dancei, celebrando a vida que, sorte minha, desfrutamos juntas. Estive com Marina e Victor, seus filhos, e as palavras faltaram, mas não o bem querer (eles sabem). Nunca havia perdido uma amiga cujo filho é também um amigo e, confesso, fiquei confusa entre sofrer e acolher, envergonhada por não saber onde me encaixar ali. Na missa, entretanto, desabei. Me dei conta dos – já – sete dias sem Lucila por aqui e, então, entendi que esse será um tipo diferente de saudade.

Nenhuma revolta, amiga minha. Nenhuma. Saber e compartilhar sua forma de viver a vida facilita extremamente a lembrança da continuidade do espírito, energia pulsante, sem as mazelas físicas e, portanto, celebrar sua partida como um cuidado do celeste, como se todo aquele povo com quem a gente sempre teve mania de conversar estivesse reunido e pronto pra cuidar das dores e feridas enquanto sua luz segue brilhando por aí e por aqui também.

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Seus netos me chamaram de tia hoje, na missa, o que me levou pro aconchego familiar que você sempre fez questão de me inserir e que, sem dúvida alguma, aplacou minhas feridas mais profundas. Estou aqui pros seus, e me sinto feliz por saber que eles também sabem – foi o que senti nesse encontro, que ainda foi pra nos despedirmos, mas que logo será para te relembrar, em festa, como disse a Lilian, sua irmã, a mesma que acha que você não virou estrela, mas sim trovão, aí no céu. Agradeço ter te conhecido, amiga querida, tão querida, conhecedora e praticante do bem querer. Sorte de quem foi gostado por você, gostoso demais, LucilE, esse nosso tempo juntas. Segue bem, amiga minha, segue bem e, assim que possível, aparece pra me contar como está por aí – de preferência numa terça-feira com vinho e massa, risada alta anunciando a chegada, abraço apertado e um “e aí, Nassifa?” que é pra não duvidar, combinado?

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