A sociologia não é uma terra plana, por Lúcio Verçoza

Texto escrito a partir das declarações do governo Bolsonaro sobre “descentralizar investimento em faculdades de filosofia e sociologia”.

A sociologia não é uma terra plana[1]

por Lúcio Verçoza

Se olharmos para o horizonte, a olho nu, a terra parece plana. No entanto, ela não é. A sociologia, para alguém muito distante dela, pode parecer apenas uma oficina de ideias revolucionárias, mas está longe disso. Engana-se quem pensa que Marx é o autor mais ensinado pelos sociólogos contemporâneos. O pensamento sociológico é tão plural e diverso quanto o seu objeto de estudo. Nos cursos de sociologia no Brasil, são lidos desde o positivista Auguste Comte (autor da célebre frase “Ordem e progresso”, costurada na bandeira brasileira), ao liberal Max Weber; do conservador Émile Durkheim, à pós-estruturalista Judith Butler; do funcionalismo de Parsons, ao interacionismo simbólico da Escola de Chicago. Se a sociologia abriga tão amplas matizes do pensamento social e político, por que a tratar como inimiga? Por que ameaçar fechar seus cursos?

A questão é que mesmo com tão variadas e divergentes perspectivas teóricas e metodológicas no interior da sociologia, existe algo comum entre os grandes pensadores desse campo do conhecimento: todos buscam, ainda que por diferentes caminhos, explicar a sociedade a partir da própria realidade social – e isso implica desmistificar e desnaturalizar as relações sociais. É por essa razão que até mesmo a sociologia conservadora pode ser considerada perigosa em um contexto de disseminação de explicações que carecem de o mínimo de lastro na realidade.

Isso não é bem uma novidade. Roberto Schwarz demonstrou como a leitura de Adam Smith e David Ricardo poderia ser incômoda e constrangedora para os autodeclarados liberais no Brasil do século XIX, pois muitos desses “liberais” eram a favor do livre mercado, mas contra a abolição da escravatura. O mesmo é válido para o Brasil de hoje. Até mesmo Casa grande e senzala, do conservador Gilberto Freire, corre o risco de ser rotulada de “marxismo cultural”, simplesmente por se contrapor a eugenia, ou por reconhecer o peso do sistema patriarcal e da monocultura latifundiária na formação da sociedade brasileira. Vivemos realmente tempos estranhos.

O que dizer, então, sobre uma sociologia que encontra na superexploração da força de trabalho a chave para a compreensão do padrão de reprodução do capitalismo periférico (Ruy Mauro Marini)? Ou que analisa o relativamente recente processo de redemocratização brasileira como uma “transição transada”, marcada pela ausência de rupturas significativas e de punição para os agentes da ditadura (Florestan Fernandes)? O que falar sobre uma sociologia que questiona por que formas legitimadas de dilapidação e rapina do orçamento e do patrimônio público não são analisadas como sinônimo de corrupção (Jessé Souza)? A sociologia pode mesmo ser incômoda. Em razão disso, talvez ela seja tão combatida pelo atual governo. Até mesmo a mais dócil das sociologias é vista como suspeita.

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[1] Texto escrito a partir das declarações do governo Bolsonaro sobre “descentralizar investimento em faculdades de filosofia e sociologia”.

Lúcio Verçoza – Sociólogo, professor universitário e autor do livro Os “homens-cangurus” dos canaviais alagoanos: um estudo sobre trabalho e saúde (Edufal-Fapesp, 2018).

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