22 de julho de 2026

A taxa de juros caiu do céu? A falsa endogeneização da Selic e a armadilha fiscalista brasileira, por Maurício Luperi

A conta de juros não é apenas consequência. Ela é também resultado de uma arquitetura institucional e da função de reação do Banco Central.
René Magritte

A taxa de juros no Brasil não é apenas consequência fiscal, mas também resultado de decisões do Banco Central.
Juros elevados aumentam dívida e déficit, criando círculo vicioso que reforça discurso fiscalista e juros altos.
Autonomia do BC é condicionada por mercado financeiro, influenciando política monetária e distribuição de renda.

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A taxa de juros caiu do céu? A falsa endogeneização da Selic e a armadilha fiscalista brasileira

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por Maurício Martinelli Luperi

Há uma tese recorrente no debate econômico brasileiro: a conta de juros seria apenas consequência, enquanto o resultado primário seria o verdadeiro objeto da política econômica. Nessa visão, os juros pagos pelo Estado decorreriam quase automaticamente do risco fiscal, da trajetória da dívida e da desconfiança dos agentes. Portanto, caberia ao governo apenas ajustar o primário para recuperar a confiança, reduzir o prêmio de risco e, só então, abrir espaço para juros menores.

O raciocínio parece lógico. Mas é incompleto.

Ele parte de uma causalidade quase sempre apresentada em uma única direção: déficit primário eleva a dívida; dívida eleva o risco; risco eleva os juros; juros elevam a despesa financeira. O problema é que, no Brasil, essa sequência não esgota a realidade. Há também o caminho inverso: juros persistentemente elevados aumentam a despesa financeira, ampliam o déficit nominal, pressionam a dívida pública e reforçam a própria narrativa fiscalista que justificou os juros altos originalmente.

A relação entre juros e dívida, portanto, não é linear. É circular.

Esse ponto é decisivo porque boa parte da macroeconomia convencional, especialmente em sua versão neoclássica, tende a tratar a taxa de juros como uma variável essencialmente endógena ao equilíbrio fiscal e às expectativas de mercado. Nos modelos, os juros aparecem como resposta racional ao risco, à inflação esperada e à trajetória da dívida. Mas, quando essa lógica é transportada de maneira mecânica para a economia brasileira, corre-se o risco de transformar uma decisão de política monetária em fenômeno natural.

A Selic não cai do céu. Ela é definida pelo Copom.

Evidentemente, o Banco Central reage a inflação, expectativas, câmbio, atividade econômica e condições fiscais. Mas reagir não significa abdicar de decidir. A velocidade de alta, a velocidade de queda, o horizonte de convergência da inflação, o peso atribuído ao Focus, o grau de tolerância ao desemprego e a sensibilidade às pressões do mercado financeiro são escolhas de política econômica.

A conta de juros, portanto, não é apenas consequência. Ela é também resultado de uma arquitetura institucional e de uma função de reação do Banco Central.

É nesse ponto que o debate brasileiro costuma se empobrecer. Quando se diz que os juros são apenas consequência do fiscal, desloca-se toda a responsabilidade para o gasto primário e se retira a política monetária do campo da disputa pública. O Banco Central aparece como mero mensageiro da realidade, quando, na verdade, é também produtor dessa realidade.

A comparação internacional ajuda a revelar o problema. Em 2025, a dívida bruta brasileira ficou em torno de 78,6% do PIB, segundo a série DBGG/PIB do Banco Central. Nos Estados Unidos, a dívida federal bruta alcançou aproximadamente 122,6% do PIB no quarto trimestre de 2025, segundo a série GFDEGDQ188S do FRED/St. Louis Fed. Mesmo assim, os Estados Unidos não convivem com taxas reais de juros estruturalmente tão elevadas quanto as brasileiras. O próprio Banco Central brasileiro informa que o Relatório Focus reúne semanalmente projeções de mercado para inflação, atividade, câmbio e Selic, e essas projeções ocupam papel central no debate monetário doméstico. (fred.stlouisfed.org⁠)

É claro que Brasil e Estados Unidos não são economias comparáveis em todos os aspectos. Os EUA emitem a principal moeda de reserva internacional, possuem mercado financeiro mais profundo, maior capacidade de financiamento em sua própria moeda e outra posição geopolítica. Mas justamente por isso a conclusão não deveria ser que “tudo é fiscal”. Ao contrário: se o mesmo patamar de dívida produz avaliações de risco distintas em países distintos, então o risco depende também de fatores institucionais, monetários, geopolíticos e financeiros.

Logo, o nível da dívida não explica sozinho a taxa de juros.

O fiscal importa. Seria ingênuo negar. Mas o fiscal não pode ser convertido em explicação universal para uma das maiores taxas reais de juros do mundo. Quando tudo vira fiscal, nada mais precisa ser explicado: nem a formação das expectativas, nem a atuação do Banco Central, nem a pressão dos agentes financeiros, nem a distribuição de renda gerada pela política monetária.

É aqui que entra o conceito de autonomia capturada.

Não se trata de afirmar uma captura institucional vulgar, como se houvesse uma ordem direta do mercado financeiro ao Banco Central. A questão é mais sutil. A autonomia capturada ocorre quando uma autoridade formalmente independente passa a operar dentro de um ambiente cognitivo, institucional e comunicacional dominado pelas expectativas do próprio mercado que deveria regular e disciplinar.

Nas semanas que antecedem as reuniões do Copom, intensifica-se a pressão pública de economistas de bancos, gestores, consultorias e analistas sobre a decisão esperada para a Selic. O Focus consolida expectativas majoritariamente produzidas por instituições financeiras. A imprensa econômica amplifica essas projeções. E qualquer divergência do Banco Central em relação ao consenso de mercado tende a ser interpretada como risco à credibilidade.

Nesse arranjo, surge uma inversão curiosa. Em bancos centrais como o Federal Reserve, a autoridade monetária busca ancorar as expectativas do mercado. No Brasil, frequentemente parece ocorrer o contrário: o Banco Central acaba ancorado pelas expectativas do mercado financeiro.

Essa inversão é fundamental. Se as expectativas de inflação e juros são produzidas pelos agentes que também se beneficiam de juros elevados, e se essas expectativas passam a condicionar a política monetária, então a taxa de juros deixa de ser apenas uma resposta técnica ao risco. Ela passa a refletir uma estrutura de poder.

A consequência é distributiva.

Juros elevados transferem renda do setor público e da sociedade para os detentores de riqueza financeira. Aumentam o custo de carregamento da dívida, reduzem o espaço fiscal, comprimem o investimento público, desestimulam o investimento produtivo privado e reforçam a preferência pela aplicação financeira de curto prazo. Depois, o aumento da despesa com juros aparece como prova de que o Estado precisa cortar mais gastos primários.

É uma profecia autorrealizável.

A política monetária eleva a despesa financeira; a despesa financeira piora o resultado nominal; o resultado nominal alimenta o discurso de deterioração fiscal; o discurso fiscalista justifica juros altos; e os juros altos continuam elevando a dívida. O círculo se fecha.

A falsa endogeneização da taxa de juros cumpre, assim, uma função ideológica. Ao apresentar os juros como consequência natural do fiscal, ela oculta o fato de que a Selic é também uma escolha. E, ao ocultar essa escolha, retira do debate público a pergunta central: a quem serve uma política monetária que mantém o Brasil por décadas entre os campeões mundiais de juros reais?

A resposta convencional dirá que serve ao combate à inflação. Mas essa resposta também é incompleta. A inflação deve ser combatida, evidentemente. O problema é transformar a taxa de juros em instrumento quase único e permanente, mesmo quando os canais de transmissão são bloqueados, quando a inflação decorre de choques de oferta, câmbio, preços administrados ou conflitos distributivos, e quando o custo fiscal e social da política monetária passa a ser gigantesco.

A pergunta correta não é se devemos ou não ter responsabilidade fiscal. Devemos.

A pergunta correta é outra: por que a responsabilidade fiscal é sempre exigida dos gastos primários, mas raramente da política monetária? Por que se naturaliza uma conta de juros que consome parcela expressiva do orçamento público? Por que o investimento em infraestrutura, ciência, tecnologia, saúde e educação é tratado como gasto perigoso, enquanto a transferência bilionária via juros é tratada como consequência inevitável?

O debate precisa sair da causalidade única.

Dívida influencia juros. Mas juros também influenciam dívida. O fiscal influencia expectativas. Mas expectativas produzidas pelo mercado também influenciam o Banco Central. A política monetária reage à realidade. Mas também cria realidade.

Reconhecer essa circularidade não significa defender irresponsabilidade fiscal. Significa apenas recusar uma explicação simplista para um problema complexo.

O Brasil não precisa escolher entre responsabilidade fiscal e crescimento. Precisa de ambos. Mas não haverá crescimento sustentado enquanto o investimento produtivo for sistematicamente derrotado pela rentabilidade financeira. E não haverá responsabilidade fiscal verdadeira enquanto a conta de juros for tratada como fenômeno natural, acima da política e fora do debate democrático.

A taxa de juros não caiu do céu.

Ela é uma decisão. E toda decisão econômica relevante deve poder ser discutida publicamente, sobretudo quando seus efeitos recaem sobre a dívida, o crescimento, o investimento e a distribuição de renda.

Mauricio Martinelli Luperi é economista, doutor pela FGV-SP e mestre pela USP. Professor e pesquisador há mais de duas décadas, dedica-se ao estudo da macroeconomia, do desenvolvimento econômico, da política monetária e da história do pensamento econômico. Autor de trabalhos sobre equilíbrio geral, metodologia da economia, industrialização e regime de metas de inflação, tem concentrado suas pesquisas recentes na relação entre sistema financeiro, Banco Central e desenvolvimento, formulando o conceito de “autonomia capturada” para analisar a condução da política monetária brasileira.

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Mauricio Luperi

Mauricio Martinelli Luperi é economista, doutor pela FGV-SP e mestre pela USP. Professor e pesquisador há mais de duas décadas, dedica-se ao estudo da macroeconomia, do desenvolvimento econômico, da política monetária e da história do pensamento econômico. Autor de trabalhos sobre equilíbrio geral, metodologia da economia, industrialização e regime de metas de inflação, tem concentrado suas pesquisas recentes na relação entre sistema financeiro, Banco Central e desenvolvimento, formulando o conceito de “autonomia capturada” para analisar a condução da política monetária brasileira.

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  1. WRamos

    28 de junho de 2026 3:07 pm

    Oportuna exposição da dinâmica da política econômica. As análises de mercado nunca levam em conta o efeito dos juros na contração da oferta, que pode levar a um aumento da demanda relativa, com efeito contrário ao pretendido pela contração da demanda global. Sobretudo num sistema de preços que embute juros ao longo de toda cadeia de distribuição, encarecendo capital de giro com aumento de preço e redução de oferta.
    Os juros altos também garantem remuneração elevada aos agentes financeiros para simplesmente mudarem posições no portfolio dos clientes. Em um cenário de juros baixos, teriam que ralar para oferecer oportunidades de investimento em projetos rentáveis com fundamento econômico não meramente financeiro.

  2. JOSE OLIVEIRA DE ARAUJO

    29 de junho de 2026 8:42 am

    As explicaões técnicas que tentam justificar as escorchantes taxas de juros do Brasil não passa de vigarice, elas são fruto da ambição exagerada dos parasitas possuidores de capital improdutivo.

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