21 de maio de 2026

A transição energética e a elasticidade-preço do petróleo I, por Luiz Alberto Melchert

Etanol de milho no Brasil cresce, aumentando a elasticidade da demanda por petróleo e ameaçando o petrodólar.
Imagem gerada por IA

Trump resiste à transição energética para proteger o dólar lastreado no petróleo e sua demanda inelástica.
Brasil pioneiro no uso do etanol na gasolina desde 1934, facilitando a retirada do chumbo sem rupturas técnicas.
Etanol de milho no Brasil cresce, aumentando a elasticidade da demanda por petróleo e ameaçando o petrodólar.

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A transição energética e a elasticidade-preço do petróleo I

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por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

A resistência de Donald Trump à transição energética costuma ser tratada como ignorância ambiental ou negacionismo climático. Essa leitura é superficial. O que está em jogo não é o clima, mas a sustentação material do dólar como moeda de liquidação internacional. Sob esse prisma, a hostilidade à transição energética é racional, ainda que politicamente inaceitável.

O dólar consolidou sua hegemonia a partir de um lastro informal: o petróleo. Não se trata apenas da centralidade do petróleo como fonte energética, mas de uma característica econômica específica, a baixa elasticidade-preço da sua demanda. Enquanto o petróleo for insubstituível no transporte e na indústria, variações de preço pouco afetam o consumo global. Essa rigidez garante previsibilidade de fluxos financeiros, contratos de longo prazo e a necessidade permanente de dólares para liquidação internacional. Um ativo com demanda estruturalmente inelástica é condição necessária para sustentar uma moeda hegemônica.

A transição energética ataca exatamente esse ponto. Ao acrescentar substitutos ao petróleo, ela eleva a elasticidade-preço da demanda, corroendo sua função de âncora monetária. Não é preciso eliminar o petróleo; basta torná-lo substituível na margem. É nesse ponto que experiências históricas ignoradas passam a ganhar centralidade analítica. Nesta matéria, falaremos sobre os combustíveis leves; depois, falaremos de outras fontes alternativas de energia e sua implicação no aumento da elasticidade-preço da demanda do petróleo.

O Brasil foi pioneiro nesse processo muito antes da crise do petróleo dos anos 1970. A primeira experiência com etanol combustível ocorreu em 1927, e a adição oficial à gasolina foi institucionalizada em 1934. Desde então, a gasolina brasileira jamais deixou de conter etanol. As proporções variaram ao longo do tempo, mas nunca houve ruptura. Esse fato é decisivo para compreender a trajetória posterior do combustível no país.

A retirada do chumbo tetraetila da gasolina, motivada por razões ambientais e sanitárias — evitar a concentração de metal pesado no ambiente — não criou um vazio técnico. O chumbo cumpria função antidetonante, permitindo maiores taxas de compressão nos motores de ciclo Otto. O etanol já exercia exatamente a mesma função. O etanol anidro atua como antidetonante direto; o etanol hidratado, além disso, permite o uso como combustível único. A existência prévia desse substituto técnico foi o que possibilitou a eliminação do chumbo sem ruptura operacional no sistema de combustíveis.

O Proálcool, criado nos anos 1970, não inaugurou o etanol; apenas o elevou à condição de política macroenergética. À época, o impacto internacional foi desprezado. Tratava-se de uma solução regional, adotada por uma economia que não figurava entre as grandes potências. O etanol foi visto como excentricidade tropical, não como ameaça sistêmica.

Essa leitura ignorava dois vetores de transbordamento. O primeiro foi a difusão internacional da retirada do chumbo tetraetila, que exigia um substituto antidetonante tecnicamente viável e já testado. O segundo foi a reorganização da produção agrícola mundial, especialmente na Ásia. O crescimento da produção de açúcar na Índia e a migração de áreas agrícolas para a cana em países tradicionalmente produtores de látex criaram base material para a adoção de misturas elevadas de etanol, como o E85. Nesse caso, além do efeito antidetonante, buscava-se mitigar o problema do baixo ponto de fulgor da gasolina em comparação ao etanol. Nos Estados Unidos, a retirada do chumbo levou à adoção do etanol de milho, inicialmente como solução técnica e agrícola, mas com consequências energéticas profundas.

Esse conjunto de movimentos alterou a natureza da demanda por petróleo. Quando diferentes economias relevantes passam a dispor de substitutos líquidos, mesmo parciais, o petróleo deixa de ser insubstituível. Sua demanda torna-se mais elástica. E é na margem, não no volume total, que se forma o preço e se perde o poder monetário.

Durante décadas, o etanol de cana apresentou uma limitação estrutural que o impedia de ir além desse papel corrosivo. Por ser coproduto do açúcar, ele carrega um mecanismo automático de arbitragem. Quando o preço do açúcar cai, a garapa é direcionada à fermentação, ampliando a oferta de etanol; quando o preço sobe, o fluxo se inverte. Mesmo havendo correlação elevada entre os dois coprodutos, da ordem de 1,05, essa correlação não gera estabilidade. Ao contrário, impede que o etanol de cana apresente rigidez de oferta, requisito básico para qualquer ativo que pretenda servir de lastro monetário.

Essa limitação começa a ser superada por uma singularidade agronômica brasileira pouco explorada no debate internacional. O Brasil possui duas safras anuais na lavoura branca. Planta-se soja na primavera, colhe-se no auge do verão e, na sequência, planta-se milho, aproveitando integralmente a adubação residual da soja. O resultado é um custo baixo do milho, muito inferior ao observado em outras regiões produtoras.

Diferentemente da cana, o milho é plenamente estocável ao longo do ano. A cana precisa ser processada poucas horas após a colheita, impondo rigidez logística e concentração industrial. O milho desacopla o tempo agrícola do tempo industrial, permitindo produção contínua e planejamento de longo prazo. É esse fator que explica o crescimento exponencial do etanol de milho no Brasil, com projeção de superar o etanol de cana na próxima década.

Além disso, a destilação do milho gera coprodutos de alto valor agregado. Esses coprodutos internalizam valor e reduzem drasticamente o incentivo à exportação do grão in natura. O milho deixa de ser uma commodity primária destinada ao mercado externo e passa a ser absorvido pela indústria doméstica. O produto exportável passa a ser o etanol.

Essa inversão é decisiva. O etanol deixa de ser subproduto volátil de uma commodity alimentar e passa a ser o produto central de uma cadeia industrial integrada, com oferta previsível, armazenamento viável e independência de preços externos. Nesse novo arranjo, o etanol passa a preencher requisitos que antes lhe eram estruturalmente vedados, tornando-se elegível, ainda que parcialmente, como ativo de lastro.

O efeito sistêmico é duplo. De um lado, a elasticidade-preço da demanda por petróleo se eleva ainda mais, aprofundando a erosão do petrodólar. De outro, surge um ativo energético real, industrialmente previsível, capaz de sustentar novas arquiteturas de mercado, até monetárias. É nesse ponto que a transição energética deixa de ser ambiental ou tecnológica e se torna ameaça ao arranjo monetário vigente. E é exatamente por isso que ela passou a ser combatida com tanto vigor pelos defensores do velho regime do petróleo.

No próximo capítulo, vamos explorar os combustíveis pesados e como eles se contrapõem aos leves na transição energética.

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Affairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo. Depois de aposentado como professor universitário, atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.

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Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Afairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela USP. Aposentou-se como professor universitário, e atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.

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1 Comentário
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  1. luis de campos

    13 de janeiro de 2026 12:44 pm

    sensacional

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