5 de junho de 2026

A voz da Saga (2), por Walnice Nogueira Galvão

Pouco reconhecida é a veia humorística de Guimarães Rosa, que escreveu algumas das coisas mais cômicas de nossa literatura.
João Guimarães Rosa - Acervo

▸Guimarães Rosa aborda diversidade em sua obra, destacando personagens como estrangeiros, ciganos, índios, crianças e animais.

▸O conto “Orientação” destaca confronto entre um chinês e uma sertaneja, explorando diferenças transformadoras, inclusive linguísticas.

▸A veia humorística de Guimarães Rosa é pouco reconhecida, com contos que exploram o picaresco e a linguagem, além de situações inusitadas.

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A voz da Saga (2), por Walnice Nogueira Galvão

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O Outro

A perquirição do diferente, em vasta gama, encontra-se em toda a obra de Guimarães Rosa, sempre com aberta empatia, querendo entender, visando desmanchar estereótipos, insinuando a tolerância e a solidariedade. Esse diferente pode ser o estrangeiro, o cigano, o índio, a mendiga, a assassina, o louco e o santo, o mandão e o capanga, a esposa errática, o rufião, a donzela-guerreira, o trapaceiro, mas pode ser também a criança e o bicho.

Neste volume, podem ser apreciados os contos “Orientação”, com um chinês; “Faraó e a água do rio”, com ciganos; “A menina de lá”, com  uma criança; “As garças” , com aves; “Meu tio o iauaretê”, com índios e onças. Quanto aos bichos, eis seu veredicto: “Amar os animais é aprendizado de humanidade”. A frase consta de um dos vários “Zoos” de Ave, palavra, em que este fino observador da fauna procura encontrar equivalentes verbais para todo um bestiário.

Pede destaque “Orientação”, que põe em confronto sob o signo de Eros um chinês extraviado no interior e uma sertaneja, destilando seu travo picante do contraste entre eles, examinando a diferença em seu poder transformador, inclusive linguístico. Impregnando até os sinais gráficos: são tão incongruentes ambos quanto “til no i, pingo no a”. Quanto à indisputável obra-prima que é “Meu tio o iauaretê”, será examinada no final, sob o tópico do narrador.

Fora desta seleção, encontram-se muitos outros contos com tais personagens : “Cipango”, com japoneses; “Uns índios, sua fala”, cujo título já diz tudo; “O cavalo que bebia cerveja”, em que a incompreensão e a intolerância para com um estrangeiro serão revertidas; “A benfazeja”, que põe em cena uma mendiga guia de cego, que mal sabe falar, já quase se despojando da humanidade, a quem o vilarejo sem misericórdia atribui atrocidades. E quando falamos em crianças na obra de Guimarães Rosa, logo lembramos de Miguilim (Corpo de baile), em que ocorre uma completa identificação, devida ao ponto de vista, com a sorte de um menino míope, desnorteado entre as paixões dos adultos, cujas reverberações o atingem sem que ele as compreenda.

Quanto aos animais, célebre entre todos é o “O burrinho pedrês”, no qual o protagonista é o mais humilde dos integrantes de uma condução de boiada, atalhada por uma enchente onde quase todos se afogam. Salvam-se apenas duas pessoas pelas quais o burrinho é pessoalmente responsável, uma que o cavalga e outra que se agarra a sua cauda. Mas outros estão sempre aparecendo na obra deste escritor que amava os gatos, a exemplo das onças objeto de detalhadas reflexões em “Meu tio o iauaretê”, nesta antologia, ou até mesmo das cobras, uma em “Como ataca a sucuri” e outra em “Bicho mau”. Já nem falamos em bois e cavalos, viventes do sertão, que são amorosamente descritos e louvados ao longo de toda a obra.   

Humor

Pouco reconhecida é a veia humorística de Guimarães Rosa, que escreveu algumas das coisas mais cômicas de nossa literatura.

Ao parodiar o vetusto modelo bíblico da parábola do filho pródigo, “A volta do marido pródigo” envereda pelo picaresco. Seu heroi, Lalino Salãthiel, é um trickster, misto de Pedro Malazarte, Macunaíma e Saci, capaz das piores malandragens, sempre visando à sobrevivência. Num lance de exemplar ignomínia, vende a esposa e depois a recupera sem despesa mediante tramóias. Modelo de jogo de cintura, é um pobre-coitado que procura não submergir na miséria e na anomia, servindo de peão nas politicagens dos coroneis do sertão. “Os irmãos Dagobé” explora a linguagem, enquanto zomba, de modo não cáustico mas até indulgente, dos valentões do interior, mostrando como são vulneráveis. “O porco e seu espírito” mistura com benevolência pecados capitais como a gula, a inveja, a soberba e a ira, que incidem nas relações entre dois vizinhos, um próspero e o outro carente.

“Darandina” narra um dia que se tornaria histórico numa cidadezinha mineira,  salvando-se da modorra habitual quando de repente um homem sobe numa palmeira na pracinha e tira a roupa, desencadeando uma série de reações que vão comprometendo a coletividade. A tal ponto que o pacato burgo, quando menos espera, vê-se imerso num clima de insurgência generalizado. É anárquico e jubiloso, regozijando-se na anarquia.

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

Walnice Nogueira Galvão

Professora Emérita da FFLCH-USP

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