Agrotóxicos. Alternativas há, falta honestidade tecnológica, por Rui Daher

As armas biológicas sempre existiram como forma de exterminar inimigos, paz ou guerra. São milhares os microrganismos e toxinas, desenvolvidos em laboratórios, capazes de matarem seres vivos.

Agrotóxicos. Alternativas há, falta honestidade tecnológica, por Rui Daher

(texto adaptado e expandido para o GGN, de coluna em CartaCapital)

As armas biológicas sempre existiram como forma de exterminar inimigos, paz ou guerra. São milhares os microrganismos e toxinas, desenvolvidos em laboratórios, capazes de matarem seres vivos. Felizmente, ainda são poucos os relatos confirmados de sua utilização. Os mais notórios remontam à Segunda Guerra Sino-Japonesa, entre as décadas de 1930 e 1940, utilizadas pelos nipônicos.

Criação e armazenamento foram proibidos em 1972 e ratificados em 1997 pela Convenção sobre Armas Biológicas, assinada por 150 países, inclusive o Brasil. Seu uso ainda é temido em ações de bioterrorismo.

O mesmo temor se repete com as armas químicas, quando em conflitos. É de fácil memória o Iraque de Saddam Hussein (1937-2006) e seu arsenal, até hoje procurado e não encontrado pelos norte-americanos. As secretas armas de destruição em massa que motivaram a destruição de um país.

Com as químicas o busílis é outro. Predomina a utilização de gases tóxicos. Já na Primeira Guerra Mundial aparecem usadas pelos alemães, em fosgênio, cianureto e gás mostarda. Os mesmos germânicos as repetem no Holocausto, em câmaras de gás usando Zyklon B, um pesticida à base de ácido cianídrico, cloro e nitrogênio.

Seguem-se ataques químicos em 1988, no Curdistão iraquiano; em 2002, pelos chechenos, em Dubrovka, Moscou; ano 2013, no ataque do governo sírio, arredores de Ghouta, próxima a Damasco, que matou mais de 1.500 pessoas.

Mais cinicamente, nos vinte anos de Guerra do Vietnã (1955-1975), em bombardeios de napalm contra populações civis vietnamitas. Se quiserem, peço os testemunhos do escritor Joseph Conrad (“Coração das Trevas”) ou do cineasta Francis Ford Coppola (“Apocalypse Now).

Leia também:  Réquiem para um país que poderia ter dado certo, por Vinícius Canhoto

Pois é, caridosos leitores e leitoras, – “obrigado por lerem até aqui” -, tematizamos conflitos, guerras, morticínios, futuros tecnológicos com potencial para destruir enormes parcelas da vida no planeta.

Mas só?

Na agricultura, os agroquímicos e agrotóxicos dominaram a produção e o consumo de insumos. Necessários? Em países tropicais e semitropicais, em parte, sim, mas não na intensidade em que são usados, se é que, realmente, em diversas culturas, sejam imprescindíveis.

Creio que não, pelos testes e experimentos que acompanho em campo com produtos naturais e orgânicos que resultam em produtividades semelhantes aos plantios convencionais, sem comprometerem o meio ambiente e a microbiota dos solos.

É fácil deduzir: se os produtos biológicos, quando para o mal, são capazes de exterminar vidas humanas e a fauna terrestre, por que não teriam o mesmo efeito se estudados e adaptados a matar pragas e doenças das plantas sem o uso de agroquímicos e agrotóxicos?

Vocês poderão conhecê-los, caseiros ou não, e verificar sua efetividade. Um problema: Dona Tereza Cristina, a ministra sinistra, dificulta seus registros no Ministério da Agricultura, o que não faz com os químicos e tóxicos.

Vejam a insanidade e, talvez, podridão. Na edição de outubro de 2018, da revista Globo Rural, matéria de Vinícius Galera, pinço o seguinte trecho: “segundo o ministério da Agricultura (MAPA), o mercado de biológicos é composto de biofertilizantes sem registro (…) registrados como fertilizantes ou caseiros”.

Verdade. E por quê? Porque o MAPA faz desses registros uma insanidade burocrática e financeira. Mentira. E por quê? Várias multinacionais, ricas em recursos e massa de divulgação, partem para dominar esse irreversível futuro, enquanto startups e pequenas empresas nacionais, inovadoras, têm funeral anunciado.

Tomo o testemunho do professor do departamento de genética da ESALQ/USP, Mateus Mondin, em artigo para o “Valor” (21/03/2019), Soluções biológicas e o futuro da tecnologia na agricultura: “[a revolução biológica] se dará pelo uso de organismos vivos que disponibilizam nutrientes e oferecem proteção fitossanitária, além daqueles que controlam pragas e já são uma realidade”.

Leia também:  Seis anos depois e ainda perguntamos: “Onde está o Amarildo?”

“Não se pretende erradicar completamente o uso de agroquímicos, tóxicos ou não, mas ver uma queda significativa nas suas aplicações”, diz Mondin. Nem que seja apenas pelo bem do bolso agricultor.

Inté.

 

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora