Água de morro abaixo, fogo de morro acima…, por Jorge Alexandre Neves

Vejo vários atores políticos e pessoas minhas conhecidas que apoiaram o referido golpe estamental e seus dois lances decisivos (a deposição de Dilma e a prisão de Lula), mas que agora estão desesperados ao ver o que a cadeia causal do golpe nos legou.

Foto Ricardo Stuckert (modificada)

Água de morro abaixo, fogo de morro acima…

por Jorge Alexandre Neves

A expressão que dá título a este artigo é comumente usada para representar coisas que são totalmente previsíveis ou quase certas de ocorrer. Nas ciências sociais, dificilmente temos condições de propor leis científicas assim tão poderosas. Contudo, há algumas proposições que têm grande respaldo empírico. Uma que é bem conhecida é a chamada “Lei de Ferro das Oligarquias” de Robert Michels. Outra é o que costumo chamar de hipótese de Przeworski, em referência ao famoso cientista social polonês radicado nos EUA.

Adam Przeworski propôs a hipótese de que a esquerda só tem duas opções factíveis de ação política. A primeira seria a via leninista, através de um processo revolucionário e a desapropriação dos meios de produção e do capital em geral. A segunda seria a via socialdemocrata, com a busca de pactos sociopolíticos entre os diferentes estratos sociais.

Em 2016, quando eu me encontrava como pesquisador visitante da Universidade do Texas-Austin, nos EUA, assisti a uma conferência do Prof. Carlos de la Torre, da Universidade de Kentucky, sobre o que ele chama de “neopopulismo latino-americano”. Ele falou sobre os casos da Bolívia, Equador e Venezuela. Ao final, lhe perguntei como ele via o caso dos governos petistas no Brasil, pois parte da mídia conservadora costumava colocar esses governos sob uma categoria única junto com aqueles que ele havia acabado de analisar chamando-os de “bolivarianos”. Ele me respondeu que via tal afirmação como algo totalmente sem sentido, pois identificava os governos petistas como muito mais próximos do “tipo ideal” da socialdemocracia do que do “neopopulismo” (que também, obviamente, é um “tipo ideal”, no sentido weberiano).

De fato, eu diria que a maior parte dos analistas em ciências sociais teria entendimento semelhante (1). A famosa “Carta aos Brasileiros” de Lula, formulada para as eleições de 2002, é amplamente classificada justamente como uma iniciativa para a busca de um pacto socialdemocrata. A formação do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social por Lula também é evidência da busca desse pacto. 

Durante os oito anos de governo de Lula, de fato o pacto socialdemocrata pareceu funcionar bastante bem. Basta reunir os indicadores socioeconômicos e políticos do período. Todavia, claramente, parte relevante das elites brasileiras “cansou da brincadeira”, não quis aceitar a possibilidade de prolongamento do referido pacto. Para destruí-lo, foi necessário atacar a própria democracia e o estado de direito. O ponto crítico desse processo foi o golpe estamental iniciado pelo então juiz Sérgio Moro, no dia 16 de março de 2016, que terminou por levar tanto à deposição arbitrária da então presidenta Dilma Roussef quanto à prisão ilegal do ex-presidente Lula.

Agora, vejo vários atores políticos e pessoas minhas conhecidas que apoiaram o referido golpe estamental e seus dois lances decisivos (a deposição de Dilma e a prisão de Lula), mas que agora estão desesperados ao ver o que a cadeia causal do golpe nos legou (como eu disse na minha última coluna, já perceberam que “deu ruim”), indignadas com a falta de disposição de Lula e do PT de participarem de um amplo pacto pela democracia (2). Realmente, tenho muitas dúvidas se esse pacto ocorrerá e, penso que, para ocorrer, ele precisará surgir do centro do espectro político e terá que demonstrar muita generosidade com Lula e o PT para atrair para dentro essa força política que reúne cerca de 30% do eleitorado do país e que – nunca é demais ressaltar – foi o único dos grandes partidos tradicionais a sair ainda bastante forte da eleição de 2018 (3).

Isso será necessário porque, embora não seja algo totalmente inexorável como o título desse artigo sugere, a “tendência natural” de Lula e do PT hoje é uma maior radicalização. O golpe estamental iniciado por Sérgio Moro em 2016, com a consequente deposição de Dilma e prisão de Lula, empurraram o PT para essa radicalização. Afinal, se Lula e o PT fizeram tudo dentro das regras do jogo moderado do pacto socialdemocrata (4), mas ainda assim foram vítimas de um golpe estamental, por que deveriam agir da mesma forma outra vez? Nessa hora devemos nos lembrar da máxima de Albert Einstein “loucura é esperar resultados diferentes fazendo tudo exatamente igual”. De um ponto de vista puramente racional, não há hoje incentivos para que Lula e o PT busquem, outra vez, a moderação de um pacto socialdemocrata. Como afirmei em outras colunas, acho que, com a continuidade do golpe estamental e a manutenção da prisão ilegal de Lula, o mais provável é que o lulismo se transforme em algo mais próximo do peronismo argentino do que do modelo socialdemocrata ao qual o PT aderiu anteriormente. Acho que isso não será bom para o Brasil, basta ver o que aconteceu com a Argentina nas últimas sete décadas. Todavia, infelizmente, as condições estão dadas, água de morro abaixo, fogo de morro acima…

Jorge Alexandre Barbosa Neves – Ph.D, University of Wisconsin – Madison, 1997.  Pesquisador PQ do CNPq. Pesquisador Visitante University of Texas – Austin
Professor Titular do Departamento de Sociologia – UFMG

  1. Um dos maiores centros internacionais de estudos sobre o populismo chegou a uma conclusão semelhante (ver: https://exame.abril.com.br/brasil/o-que-bolsonaro-e-collor-tem-em-comum-segundo-pesquisa-o-populismo/).
  2. Pacto esse que veta totalmente a bandeira da libertação de Lula.
  3. Afinal, teve seu candidato no segundo turno da eleição presidencial e conseguiu conquistar a maior bancada na Câmara dos Deputados.
  4. Confesso que não tenho mais muita paciência para quem vem dizer que os governos do PT extrapolaram todos os padrões anteriores de corrupção política. Tomando como referência os governos FHC, gostaria apenas de lembrar alguns eventos: a) a denúncia da Folha de São Paulo (corroborada depois pelo depoimento – totalmente desinteressado, pois sem nenhum benefício de qualquer natureza – do ex-deputado Pedro Correia) sobre a presença de um representante de um doleiro de Brasília dentro do plenário pagando aos deputados que votavam a favor da Emenda Constitucional da reeleição; b) o depoimento de Nestor Cerveró afirmando que o maior escândalo da história da Petrobrás teria sido o caso da Braskem, durante os governos de FHC; c) os depoimentos de Nestor Cerveró e de Fernando Bahiano sobre o envolvimento pessoal de Paulo Henrique Cardoso, filho de FHC, em um esquema na Petrobrás envolvendo empresas internacionais de energia termoelétrica; d) a coluna de Gerson Camarotti na revista Época e a reportagem na revista Piauí descrevendo a reunião de FHC com ilustres representantes da plutocracia brasileira, no Palácio do Planalto, em seus últimos dias de governo, para arrecadar alguns milhões para criar a sua Fundação e; e) a informação da vaza jato mostrando claramente que o responsável principal pelo golpe estamental, o ex-juiz Sérgio Moro, agiu para proteger o ex-presidente FHC, evitando que fosse investigado pela força tarefa da lava jato. Obviamente, depoimentos não são provas (ao contrário do que a lava jato tem tentado nos fazer crer), mas as acusações surgidas em depoimentos precisariam ser investigadas. Aquelas contra FHC jamais foram e hoje sabemos porque.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora