Antissemitismo e Antissionismo
por Paulo Nogueira Batista Jr.
“O povo israelense e seu exército
converteram-se em rentistas do
Holocausto”. José Saramago
Volto a um tema que tem dado panos para manga. Qual o ponto essencial do debate sobre antissemitismo e antissionismo no mundo? Talvez seja a confusão desonesta e perigosa que os sionistas – um poderoso lobby transnacional – tentam fazer entres os dois fenômenos. A confusão é grande e tem sido manipulada para perseguir e assediar juridicamente críticos do sionismo e de Israel. Abundam acusações falsas de antissemitismo, feitas com o propósito de blindar Israel e o sionismo contra críticas não só legítimas, como também necessárias. Saramago, para citar um exemplo ilustre, foi acusado de antissemitismo pela frase citada em epígrafe.
No Brasil, há muitos intelectuais que escrevem com grande competência sobre esse tema – entre outros, Paulo Sergio Pinheiro, Reginaldo Nasser, Cláudia Assaf, Arlene Clemesha, Breno Altman, Glenn Greenwald e Bruno Huberman. Os três últimos são de origem judaica.
Apoiando-me em parte nas contribuições desses intelectuais, vou tentar esclarecer didaticamente a diferença entre antissemitismo e antissionismo, ainda que correndo o risco de resvalar para o óbvio ululante. Repisar o óbvio pode parecer desnecessário e ofensivo, reconheço. Mas, como dizia Nelson Rodrigues, o óbvio deve ser cultivado, pois ele sempre teve e terá inimigos implacáveis, refletindo uma mistura de burrice, ideologia e interesses escusos.
O que é o antissemitismo? É uma das muitas formas de racismo ou discriminação, voltada contra o povo judeu, entendido como raça ou etnia. Condena-se um povo inteiro, apontando os vícios e as violências de uma parte. Ainda que essa parte seja numerosa e influente, a generalização pode ser injusta e até caracterizar crime.
Antissionismo é algo essencialmente diferente. Trata-se da condenação de um projeto político, o sionismo, originado na Europa no final do século XIX, com o judeu germânico Theodor Herzl, e que resultaria na implantação de Israel na Palestina, em 1948. Uma terra para os “judeus errantes”, pedia-se. Mesmo que isso significasse, como significou, roubar as terras dos palestinos e cometer contra eles, desde o início e mesmo antes de 1948, toda sorte de violência, terrorismo e discriminação. Observe-se, de passagem, que antes do sionismo e da criação do Estado de Israel, árabes e judeus conviviam em certa harmonia no Norte da África e no Oriente Médio. De uma maneira geral, os judeus foram mais bem tratados no mundo islâmico do que na Europa.
Certas distinções são importantes. Primeira: nem todo judeu é sionista. Há uma sobreposição muito importante entre judeus e sionistas, mas há muitas exceções. Os três judeus brasileiros mencionados acima, por exemplo, que são visceralmente antissionistas. No exterior, temos o cientista político Norman Finkelstein e o historiador Ilan Pappé, entre muitas outras pessoas de grande destaque, que também são judeus antissionistas. Finkelstein, por exemplo, tem ressaltado que o problema não é só o governo Netanyahu, nem mesmo só o Estado de Israel, mas a própria sociedade israelense – caracterizada por ele como doente e predominantemente comprometida, ou no mínimo omissa, diante dos crimes hediondos praticados contra palestinos, libaneses e outros povos.
Segunda distinção: muitos sionistas, às vezes influentes, não são judeus Por exemplo, os sionistas cristãos, em especial os pentecostais e neopentecostais, representados politicamente no Brasil pelas figuras deploráveis de Jair Bolsonaro, seus filhos e Tarcísio de Freitas, que não se envergonham de abraçar a bandeira de Israel e confraternizar com o genocida Benjamin Netanyahu. Esses políticos mantém proximidade com entidades judaicas sionistas localizadas em nosso país, algumas das quais são verdadeiros antros bolsonaristas.
Em que pese essas distinções, os judeus sionistas constituem provavelmente a maior parte dos sionistas influentes e endinheirados no mundo, o que facilita a confusão que o lobby israelense quer promover entre antissionismo e antissemitismo. No Brasil, conseguiram, por exemplo, fazer com que a deputada Tabata Amaral apresentasse um projeto infame que tenta criminalizar como antissemitas as críticas a Israel e ao sionismo.
Vejam o paradoxo escandaloso. Quem é a principal força antissemita na atualidade? Ninguém menos que Israel! Por dois motivos, pelo menos. Primeiro, porque promove o maior genocídio contra semitas desde a Alemanha nazista. Não podemos esquecer que os palestinos e os árabes como um todo são povos semitas. Nesse sentido, Netanyahu é o maior genocida antissemita desde Hitler.
Segundo motivo: o comportamento criminoso de Israel, apoiado pelo lobby sionista no resto do mundo, deu nova vida ao antissemitismo, entendido como discriminação e até ódio contra os judeus. Os praticantes e defensores do assassinato em massa de crianças e mulheres na Palestina por Israel, transmitido em tempo real, tornaram-se ironicamente os principais propagadores do antissemitismo.
Israel, deve-se dizer, não é o único país, longe disso, a ter praticado sistematicamente o genocídio. Israel é na realidade a continuação tardia e o desdobramento de algo maior – o colonialismo genocida europeu, uma das piores pragas da humanidade. Nenhuma região do mundo escapou da sanha criminosa dos europeus. Nem a América do Norte, nem a Central, nem a do Sul, nem a África, nem a Austrália, nem a Ásia. E nem os próprios judeus. São tantos os exemplos que nem vou começar a mencioná-los.
Israel dá continuidade a essa tradição tenebrosa. Não é por acaso que, em geral, os governos norte-americano e europeus deram e ainda dão tanto apoio ao projeto criminoso de Israel.
A verdade é que a história mundial teria sido muito melhor sem a expansão da civilização ocidental ou europeia, principalmente depois da Revolução Industrial, que colocou armas poderosas nas mãos de povos relativamente primitivos, a começar pelos ingleses.
Civilização? Quando perguntado certa vez o que achava, afinal, da civilização ocidental, Mahatma Gandhi respondeu: “Seria uma boa ideia”.
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Uma versão mais curta deste artigo foi publicada na revista Carta Capital.
Paulo Nogueira Batista Jr. é economista e escritor. Foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, de 2015 a 2017, e diretor executivo no FMI pelo Brasil e mais 10 países em Washington, de 2007 a 2015. Publicou pela Editora Contracorrente o livro Estilhaços, em 2024.
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Fábio de Oliveira Ribeiro
17 de abril de 2026 8:47 amEu penso que é possível simplificar essa discussão.
Pode Israel ou não cometer um genocídio contra os palestinos em Gaza e na Cisjordânia? Pode Israel exterminar refugiados palestinos e civis libaneses no Líbano?
Nenhum Estado ou estadista deve ter o privilégio de cometer crimes de guerra. Esse é o ponto. O resto é lenga-lenga de criminoso israelense e de quem o apoia.
Antonio Uchoa Neto
17 de abril de 2026 10:39 amA propósito da Civilização Europeia:
“O que se buscou descrever, aqui, foi o tumor maligno – o homem – que assola nosso planeta, ao menos em seu hemisfério ocidental, sua etiologia, do ponto de vista de uma cosmogonia cristã e a partir desta, como nos cabe, e sua origem e morfologia, que localizamos e identificamos no homem branco europeu. Certamente isso ferirá algumas suscetibilidades, creio eu, gerando mal-estar semelhante às reações que o homem médio europeu terá experimentado, ao ler o prefácio de Jean-Paul Sartre ao livro de Frantz Fanon, há sessenta anos; suscetibilidades que, imagino, terão repercutido igualmente entre certa camada intelectual nativa de nosso país, eurófila; e, longe de querer equiparar-me ao grande pensador francês na visceralidade e poder de evocação de seu texto, admito plenamente que essa reação se deverá mais ao caráter explicitamente desagradável da analogia que dá contexto e textura a este livro, e não aos seus eventuais méritos filosóficos ou literários, malgrado sua vocação para o pastiche, a sátira. Portanto, acusações de eurofobia, ou antiamericanismo, é o que menos importa, aqui. Não sou apreciador nem apologista dos feitos e das “obras” dos europeus e seus sucessores norte-americanos, ao menos aquelas realizadas por eles fora de seus territórios; e sou testemunha e resultado das consequências destes mesmos feitos e “obras”; e elas não são nada edificantes.
Não há como evitar isso: somos filhos de nações colonizadoras europeias, com toda carga de crime, brutalidade, e exploração que tal condição implica; e o crime, a brutalidade, e a exploração, tal como a sífilis, vieram ao Novo Mundo pelas mãos (em verdade, também por uma parte mais recôndita e igualmente agressiva do corpo humano, no que diz respeito ao elemento enfático da frase) do homem branco europeu. Uma vez instalado o desastre, e constatadas suas consequências, seria possível evitar a menção ao agente do desastre? A constatação da involuntariedade e insciência das consequências desastrosas do movimento não os absolve da culpa, por certo, pois houve uma motivação concreta e real para tanto, e o Bem almejado eclipsa quaisquer objeções em sentido contrário, ainda que estas sejam, meramente, possibilidades e não certezas. O mal não deixa de ser mal, em nosso eterno cacoete antropomórfico, por não ter consciência de si, certamente; mas ser devorado por uma onça faminta – que é o mal, para mim, e unanimemente, mas para ela, a onça, segue sendo apenas uma forma de saciar a fome – não é a mesma coisa que ser capturado, escravizado, explorado e largado ao Deus dará, depois de esgotadas as possibilidades de pilhagem, por seres humanos iguais a mim. Esta árvore do conhecimento foi buscada por eles de forma febril, incessante e inamovível – eles não toparam com ela inadvertidamente. Por onde quer que seja que se busque avaliar ou justificar seus objetivos e métodos, sempre será inevitável esbarrar com o Mal (tal qual o entendemos, ou tornamos inteligível) e suas formas de expressão: a cobiça, o egoísmo, a ambição, dentre outras péssimas companhias com quem andamos de mãos dadas desde a expulsão do Éden.
(…) o homem não-europeu, aquele que, predominantemente, permaneceu ou buscou permanecer autóctone, preso à sua terra, ou que dela saiu apenas premido por necessidade de sobrevivência, e não de enriquecimento: principalmente o africano, o índio, e o homem asiático, ainda que este, nesses últimos tempos, esteja movimentando-se em direções suspeitas. Esta ausência de “ambição” (expressão desajeitada e talvez inadequada, mas que serve ao propósito da presente argumentação) acabou revelando-se sua desgraça: e não sob a forma de catástrofe natural ou coisa semelhante, mas pela mão do seu semelhante, criado pelo mesmo Deus misericordioso e benévolo. Ora, assinalar o Homem como o câncer do mundo não deveria, a princípio, poupar nenhuma ‘raça’ ou etnia, por força da etiologia necessária para classificação, uma vez que, do ponto de vista da semelhança, e se assumimos que a criação é a origem de tudo, esta é universal; quando muito, poupá-los do estigma seria um reconhecimento de inocência pontual e aleatória, além de expressão de parte interessada. Mas não é necessário tal chicana: esclarecemos que, em nossa visão, o Homem europeu pode ser classificado como uma neoplasia maligna, e os restantes como neoplasia benigna, e considerando-se a localização de ambos em termos de morfologia (geografia), para não levar longe demais a analogia (preocupação um tanto tardia, mas, vá lá que assim seja).
Evidentemente, pode-se advogar que o advento do homem europeu branco na porção setentrional do nosso continente não produziu os mesmos resultados verificados na porção meridional, ou centro-meridional das Américas. Esta é uma verdade parcial, e, sendo em alguma medida, verdade, também pontual, mas que não vale a pena mencionar aqui, e muito menos vale determo-nos nela. Teríamos que lidar com a lenda da ‘prosperidade’ americana, uma visão idílica e generalizante de uma suposta “Terra das Oportunidades”, em que todos, por seus próprios méritos, teriam condições totais não só de prosperar a partir de suas atividades ou ocupações, mas de enriquecer. Trata-se de uma fraude pia, sedutora e persistentemente atraente para o resto do mundo, da Verde Erin à Velha Bota, do Oriente Médio ao Sudeste Asiático, do Río Grande a Patagônia, Juiz de Fora aí incluída. Nos anos que se seguiram à Segunda Grande Guerra, fez-se propaganda maciça deste fenômeno, mas essa mensagem foi esgotando seu poder de comunicação por volta de 1970, seguiu definhando na década dos dois choques do petróleo, e esgotou-se definitivamente a partir de 1980, quando proclamou-se que as sociedades desapareceram e os indivíduos se apossaram do planeta, não como formigas ou baratas, que são muito numerosas, mas tem área de atuação restrita, mas como seres brancos de olhos azuis, que são pouquíssimos, mas com grande capacidade de deslocamento. Alguns desses seres, do sexo feminino, usavam laquê em excesso, outros, do masculino, não passavam de canastrões de filmes B. Isso pode parecer pouco sutil, e muito rancoroso, e estar ancorado em velhas (e muito contestadas) oposições primárias e mecânicas entre América anglo-saxã e América hispânica, América católica e América protestante, mas, dizei-me, onde e quando a forma e conteúdo do passado não influenciaram a forma e o conteúdo do presente? A estrutura deste malfadado livrinho até comportaria uma breve análise dos motivos culturais (forma de ocupação, etc.) e naturais (raças autóctones e clima, etc.) dessa separação de origens e destino dessas duas Américas, mas não o farei, aqui. Nos ocupamos, até aqui, do câncer maligno, e suspeitamos que sua variante benigna tenha um papel nessa separação, embora isso possa parecer presunçoso. Mas, para terminar este parágrafo enfatizando o final do parágrafo anterior, seria levar a analogia longe demais, e o suposto e improvável leitor já estará cansado, a essa altura, e com toda razão, de analogias. Fiquemos, portanto, nas que já estão em curso, e finalizemos logo com isso.”
Antonio Uchoa Neto, in “O Câncer – Crítica da Oncologia Política”.
JOSE OLIVEIRA DE ARAUJO
19 de abril de 2026 8:44 amOs termos semita e antisemita carecem de fundamento pois estão fundamentados na mitologia bíblica que descreve os habitantes do antigo reino de Judá como descendentes de Sem, filho do patricarca bíblico Noé. Portanto, sem nenhuma base histórica. No entanto, se quisermos hipoteticamente atribuir o termo semita aos habitantes do reino de Judá no período que estiveram sob domínio romano, deveremos considerar que os atuais palestinos que ainda vivem na faixa de Gaza e Cisjordânia são mais semitas do que os judeus europeus que fundaram o atual estado de Israel. É importante salientar, que uma grande parte da população de Judá permaneceu na palestina após a expulsão pelos romanos em 137 DC. Assim, a maioria dos que ficaram na Palestina foram convertidas para outras religões, mas não deixaram de pertencerem ao mesmo povo.
AMBAR
19 de abril de 2026 6:49 pm” Segunda distinção: muitos sionistas, às vezes influentes, não são judeus Por exemplo, os sionistas cristãos, em especial os pentecostais e neopentecostais, representados politicamente no Brasil pelas figuras deploráveis de Jair Bolsonaro, seus filhos e Tarcísio de Freitas, que não se envergonham de abraçar a bandeira de Israel e confraternizar com o genocida Benjamin Netanyahu. …”
É de se salientar que pela sua própria natureza utilitarista, os sionistas têm por hábito “instrumentalizar” e engajar pessoas, converte-las às suas convicções e depois oferece-las em sacrifício. Fazem isso até mesmo entre o seu próprio povo. Os crentes serão, portanto, inocentes úteis mas inamovíveis nas suas convicções em favor de israel.