Apelo à unidade antifascista, por Luiz Eduardo Soares

Não é preciso ser gênio para reconhecer que as esquerdas subestimaram o potencial de contaminação e letalidade do fascismo no Brasil

Luiz Eduardo Soares, antropólogo, cientista político e escritor. Foto: Reprodução/Wikipedia

Apelo à unidade antifascista

por Luiz Eduardo Soares, antropólogo, cientista político e escritor

 

No campo das esquerdas, tem sido crescente o apelo a revisões críticas e autocríticas. Afinal, se o país está à beira do abismo, com ameaças seguidas de golpe por parte do garimpeiro genocida do Planalto, se o que nos resta de democracia e de respeito constitucional está se esvaindo a cada dia, ante o avanço do fascismo, é porque, além de um vasto conjunto de fatores que não controlamos, alguns erros nós cometemos.

Pelo menos um deles é inegável: nós subestimamos o inimigo. Acho que até aqui há consenso. Muito bem, se é assim, o que não se pode admitir em nenhuma hipótese? A resposta é simples: repetir o erro. Que se cometam erros novos é natural e, na prática, inevitável. Mas insistir no mesmo erro seria estúpido e irresponsável, e demonstraria um nível de incompetência, tibieza, pusilanimidade de nossas lideranças incompatível com a gravidade do momento que vivemos.

Não é preciso ser um estadista, um visionário ou um gênio para reconhecer que subestimamos o potencial de contaminação e de letalidade do fascismo no Brasil, e que não podemos continuar a subestimá-lo. A história não se repetiria como farsa, mas, dessa vez, como tragédia absoluta.

Ontem, dia 16 de maio, Marcelo Freixo deu o primeiro passo, teve a coragem e a grandeza de fazer o gesto urgente, apontando o óbvio: diante da dupla catástrofe, a pandemia e Bolsonaro, não podemos pensar como antes nem agir como antes. Não estamos diante de mais uma eleição municipal em contexto de normalidade democrática. Agora, tem de cessar tudo o que a antiga musa canta.

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É imperioso e inadiável que cada partido, cada corrente, cada liderança, cada pré-candidato adie seus legítimos projetos próprios, ponha suas cartas na mesa, zere o jogo e se abra, desarmado, para uma grande concertação de todas as forças anti-fascistas, as quais não se esgotam nas esquerdas.

Não é hora de fazer cálculos para 2022, simplesmente porque as eleições de 2022 estão em risco, como as vidas de todos e todas nós, seja pela progressão da pandemia, seja pela iminência de um golpe.

O governo federal aposta no caos, anseia por saques, desespero popular, governos estaduais falidos, sem pagar funcionários, Congresso dividido, metade comprado, Supremo acuado, chantageado, mídia reduzida à irrelevância com sua fé retórica no funcionamento das instituições, crescentemente assaltadas pelo fascismo. Este será o momento em que Bolsonaro reivindicará concentração de poderes excepcionais no Executivo e nós começaremos a ser presos, se não executados, como prometeu o próprio presidente, em famosa entrevista: “O erro da ditadura não foi torturar, mas torturar e não matar depois. O Brasil só vai mudar quando matarmos uns 30 mil”.

As milícias estão a postos, segmentos policiais estão a postos, grupos se armam, setores das Forças Armadas aquecem os músculos e unificam o discurso ameaçador.

E nós, o que fazemos? Vamos continuar com as disputas miúdas de egos, carreiras, doutrinarismos sectários, calculando quantas cadeiras faremos nas Câmaras municipais, como ultrapassaremos a cláusula de barreira em 2022, como fortaleceremos nossos pré-candidatos à presidência?

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Pelo amor do que houver de mais sagrado para cada um e cada uma de vocês, companheiros e companheiras, despertem de seu sono dogmático, despertem enquanto é tempo – se é que ainda há tempo. Freixo saiu na frente, saindo da frente de um processo que estava congelado e agora precisa se completar na formação de uma ampla frente antifascista. Sem olhar para trás. Exigindo compromisso com o futuro. O que está em jogo é a vida ou a morte. É a história de lutas do povo trabalhador brasileiro.

É preciso a união de todos em torno da candidatura -em cada capital, pelo menos- da pessoa capaz de ampliar o movimento e de competir para vencer, em nome da resistência antifascista. A credencial indispensável é o compromisso claro de enfrentar o fascismo em todas as suas dimensões, chamando-o pelo nome.

Escrevo este texto com tanta emoção porque fui informado de que, assim que souberam que Freixo se retirara da disputa, partidos e lideranças do campo progressista passaram a rever suas estratégias de pontos de vista meramente eleitoreiros, sem qualquer alteração quanto à disposição de competir nos mesmos termos dos anos anteriores, sem nenhuma consideração, sem nenhuma consciência sobre o que está diante de nós. Será que não resta um mínimo de lucidez e de grandeza? Ninguém mais se erguerá ao lado de Freixo, mostrando estar à altura de seu gesto e se somando a ele na convocação para um pacto antifascista?

8 comentários

  1. Bom, a esquerda marxista está desde 2018 avisando e sendo solenemente ignorada. Até semana passada estava aqui gastando o latim para ter de convencer um pessoal de que o exército brasileiro é um lixo direitista.

    Por falta de aviso não foi.

    Espero que com isso parem de estigmatizar os marxistas como radicais dogmáticos anacrônicos e percebam o valor desse método e doutrina.

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  2. O Lula já afirmou que não quer saber de candidatura a Presidente em 2022. O Freixo foi correto: ele não ganha eleição majoritária. Conheço varias pessoas que, mesmo depois do desastre consumado da gestão Crivella, ainda assim justificam dizendo que era “ele ou o Freixo”….

    O fato é que a esquerda, na sua pantagruelica incapacidade de se comunicar com o eleitorado, deixou colar na testa que Direitos Humanos são pra proteger vagabundo, direitos civis de minorias são pra destruir a família cristã, direitos sociais são coisa de “comunista”… Sem falar da pecha de ladrões, de esquerda caviar… Ou seja, podem fazer a “frente” que for; podem assinar a notinha que quiserem; podem tuitar aa vontade…

    • A dimensão da moralidade conservadora, família cristã etc é mais importante do que se supõe, talvez ela explique a “tolerancia” ao autoritarismo. A situação combina manipulação e ignorância. Difícil calibrar o discurso racional se o objetivo é “revelar” o fascismo, que parece incomodar menos do que falar em gênero, feminismo, comunismo!?! Esta inversão é o que temos que derrotar!

  3. A coisa se agravou mesmo. Alguns meses atrás, os mais lúcidos clamavam por uma Frente Democrática. Agora, o nome foi agravado: Frente Antifascista.
    Enquanto isso, o PT cultiva a IDOLATRIA (atributo essencial do fascismo). O PT lançou o “Plano Lula para o Brasil” com a coordenação de Haddad !!! Como dizia Einstein: ” A definição de insanidade é fazer a mesma coisa repetidamente e esperar resultados diferentes”.

  4. Para a “esquerda” acho que é melhor um Bolsonaro que um Dória. É que os dois fazem as mesmíssimas coisas (a saber, o desmonte do estado como indutor de políticas democráticas e sociais, retirada da proteção ao trabalhador contra as mazelas do Capitalismo, privatizações, favorecimentos aos do “clube” – BTG e Zona Azul ou Sabesp são dois dos muitos exemplos – e tantas outras providências anti-cidadãs), porém Bolsonaro escancara, aposta na assunção da selvageria capitalista enquanto Dória é mais aparência, “para inglês ver”, o que levaria a classe média a aprofundar sua alienação, seu aleijão em consciência de classe. Mas a classe média ainda vai levar um tempo até sentir no bolso o que é a precarização das condições de trabalho que, repito, ambos – Dória e Bolsonaro – querem.

  5. Melhor antifascista que conheço chama-se Dr. Coronavírus…
    vai deixar a putada fascista brasileira, estrangeira e militar, completamente paranoica assim que perceberem que não vai restar quase nada do Brasil para a pilhagem que tinham combinado com Bolsonaro na tal intenção de primeiramente destruir tudo para depois construir

    não demora muito estarão se matando uns aos outros

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