Artigos: ampliando discussões e problematizações de gênero e vidas T

O silenciamento do sujeito travesti na legislação, crianças trans e a suposta necessidade de um tratamento, refúgio às pessoas LGBTT, o corpo travesti na arte, preconceito com estudantes LGBTT, entre outros temas são debatidos nessa coletânea de artigos

TRANSINSURGÊNCIAS POLÍTICAS (RE)EXISTÊNCIAS EM REDE
Artigos publicados na Revista Docência e Cibercultura – ReDoC, em 2019

Esta edição conta com artigos de pontos de vista plurais, os quais encontram-se distribuídos nas Seções de Número Temático; Fluxo Continuo; Entrevistas/Conversas; Produções Artísticas e Culturais; Relatos de Experiência; Resumo de Teses e Dissertações; Pontos de vista, conforme expostos a seguir.

Na Seção Temática “TRANSINSURGÊNCIAS POLÍTICAS: (RE)EXISTÊNCIAS EM REDE”,
as organizadoras tiveram como objetivo ampliar discussões e problematizações por/entre vidas T, que corroboram para o esgarçamento das normas hegemônicas de gênero, sexualidade e raça entre outros marcadores sociais, a partir de processos formativos cotidianos.

Abrindo essa Seção, o artigo “EU GOSTO MESMO É DAS BIXAS”: REFLEXÕES SOBRE IDENTIDADE AO SOM DE LINN DA QUEBRADA”, de Ariel Dorneles Dos Santos e Tiago Duque apresenta uma análise do funk e do discurso utilizado por Linn da Quebrada, moradora de uma comunidade da Zona Leste da cidade de São Paulo. Em suas palavras, ela se identifica como “uma bixa, transviada, uma bixa travesti, periférica, preta que está experimentando o corpo e está se jogando”. A metodologia utilizada é a etnografia virtual,através de videoclipes e entrevistas da cantora disponíveis em diferentes canais na plataforma do YouTube. O referencial teórico é, principalmente, o pós-estruturalista, com ênfase na perspectiva queer. Considerando a forma como Linn da Quebrada refere-se ao seu próprio corpo e identidade, percebe-se a priore que ela parece apresentar uma dissidência dentro da dissidência por não ser cisgênera e também borrar o que se entende por ser travesti, contudo,essa ideia é problematizada devido ao fato de em alguns momentos borrar a norma, mas, em outros, reiterá-la. Sua experiência de identificação parece ser como a de um elemento que não cabe em nenhuma categoria, mas que se apossa das que foram designadas e as subverte,contestando e apresentando novas possibilidades, novos processos de inteligibilidade/reconhecimento.

Já no artigo “O SILENCIAMENTO DO SUJEITO TRAVESTI NA LEGISLAÇÃO”, Jaqueline Angelo dos Santos Denardin, a partir da perspectiva teórica da Análise de Discurso (PÊCHEUX, 1969, 1975), tem como proposta analisar os efeitos de sentidos produzidos pela Lei nº 11.340/2006, Lei Maria da Penha, a qual traz em seu texto considerações que permitem a aplicabilidade desse instrumento social normativo aos sujeitos Trans (transexuais e transgêneros) e o Projeto de Lei nº 8.032/2014, de Jandira Feghali, que amplia a proteção para esses sujeitos. O objetivo é refletir acerca do modo como questões relativas aos gêneros e àssexualidades são colocadas em funcionamento no discurso jurídico e dizem não só a respeito da mulher cisgênera, como também da mulher trans, embora a travesti seja nessas legislações apagada/silenciada. A finalidade da autora, com esta proposta, é perceber como a Lei e o Projeto de Lei compreendem e definem “orientação sexual”, “gênero”, “mulher”, “transexual” e “transgênero”, analisando como o discurso jurídico pode, muitas vezes, impor silenciamentos – neste caso com os travestis – aos sujeitos, mais do que garantir seus direitos.

Em “DEVIR SELVAGEM: A ARTE DO GRITO (OU DO GRITO NA ARTE)”, Mariah Rafaela Silva destaca, com base em uma performance realizada em 2016, que o grito opera como máquina de guerra (Deleuze e Guattari, 2012) capaz de agenciar um coletivo que mobiliza uma matilha, de modo que a experiência transexual seja entendida como potência, jamais como loucura. O objetivo desse trabalho é refletir sobre algumas dinâmicas de poder sobre às transexualidades tendo como marcadores de diálogo a raça e dispositivos de opressão na arte. O grito, como uma form a de resistência, coloca em agenciamento “estruturas” de subjetivação que compõem cartografias “trans específicas” em espaços hegemônicos. É deste modo que surge o devir selvagem; aquele que ao devorar os processos assimétricos que lhe assujeitam, cria mundos possíveis operando fissuras nas hegemonias e construindo redes de afeto e modos de existir.

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Erika Barbosa de Araújo e Glaucia Lima de Magalhães Theophilo relatam uma pesquisa sobre transgeneridade e sua compreensão, no artigo “TRANSGÊNEROS: AINDA INCOMPREENDIDOS?”. A expressão transgênero reporta-se num termo que acolhe a união política entre os indivíduos com distinções de gênero incompatíveis às condutas sociais caracteristicamente relacionadas a homens e mulheres “comuns” e que, como efeito disto, padecem de intolerância. No Brasil, práticas de intervenção têm levantado diversos questionamentos psicológicos, legais e sociais. No meio desta discussão, encontram-se os profissionais de psicologia que, como pertencentes a área de saúde, devem estar preparados para dar suporte a esta parcela da população que, na maioria das vezes, está envolvida em sofrimento psíquico. Assim, buscou-se investigar a forma como futuros psicólogos percebemo fenômeno da transgeneridade, já que esta percepção pode influenciar suas práticas. A hipótese levantada foi de que as atitudes de graduandos de psicologia face à identidade transgênero são baseadas na incompreensão do fenômeno. O objeto de estudo foi ancorado no constructo de atitude da psicologia social. Os sujeitos foram 100 graduandos em psicologia do 1º ao 10º período da Universidade Estácio de Sá (campus Nova Iguaçu/RJ). Utilizamo-nos de um questionário com escala likert de 5 pontos, para conhecer o grau de concordância quanto às questões e produzir descrições quantitativas. Em seguida, a análise dos resultados apoiou-se no ranking médio (RM) de anuência dos itens dentro de cada categoria de atitudes relacionando-se ao modelo ecológico do desenvolvimento humano. O ranking médio total do questionário foi de 3,97, o que demonstra uma aceitação da transgeneridade.

Finalizando a Seção Temática, o artigo “DIAGNÓSTICOS BENEVOLENTES NA INFÂNCIA: CRIANÇAS TRANS E A SUPOSTA NECESSIDADE DE UM TRATAMENTO PRECOCE” de Sofia Ricardo Favero; e Paula Sandrine Machado analisa a repercussão que o diagnóstico de Incongruência de Gênero tem na infância, situando os manuais de transtornos mentais como eixos centrais da discussão. Para tanto, reconhece-se o uso estratégico da patologização das identidades trans e travestis na adolescência e vida adulta, mas ressalta os desafios quando essa mesma patologização destina-se a crianças. Diferente de quando ocorre com pessoas adultas, compreende-se que o diagnóstico de gênero na infância se justifica a partir de uma concepção de cuidado e benevolência. Em conclusão, propõe-se abandonar o pensamento em saúde que se baseia na preocupação e tutela para pensar em um compromisso ético e político com a diferença.

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A Seção Artigos Fluxo Continuo começa com o artigo “PROBLEMATIZANDO GÊNERO E SEXUALIDADE EM INTERLOCUÇÃO COM EDUCADORAS/RES DE UMA ESCOLA CONFESSIONAL-FILANTRÓPICA” de Fernando Altair Pocahy e Priscila Gomes Dornelles. O artigo analisa como determinadas redes discursivas se (re)produzem nos processos educativos diante dos dispositivos da sexualidade e das normas regulatórias de gênero, tomando como foco os discursos da hetero normatividade e sua potência na produção de subjetividades em cotidianos escolares. Para isso, xs autores dialogam com os Estudos Feministas e queer de modo a privilegiar as produções no campo da Educação em interface com a escola. Como opção metodológica, esse estudo analisou primariamente entrevistas realizadas em uma instituição confessional e filantrópica de ensino fundamental e médio, localizada em uma cidade de grande porte no estado do Ceará. Para tratamento deste material, foi utilizado a análise de discurso inspirados/as em perspectiva foucaultiana. Esta abordagem teórico-analítica permitiu apontar que os/as educadores/ras assumem posições de sujeito localizadas em planoshetero/normativos, bem como disposições menos rígidas em relação a estes discursos. O que fez ponderar sobre um arranjo difuso de conjuntos enunciativos materializados em pedagogias de gênero e da sexualidade nestes cotidianos escolares, ao mesmo tempo em que percebemos condutas pedagógicas que funcionavam de modo crítico em relação aos estabelecidos normativos. Estes resultados nos informam algo de uma agonística cotidiana na educação e,neste sentido, revelam movimentos que (re)posicionam professoras e professores diante das tramas da heteronormatividade – seja através das formas de sujeição e das ortopedias pedagógicas, seja no plano da resistência e (re)invenção de (micro)políticas do cotidiano escolar.

“PASSA DEMAQUILANTE NO TEU PRECONCEITO: TUTORIAIS DE MAQUIAGEM COMO PERFORMANCE QUEER NO YOUTUBE”, de Elisângela Bertolottie Rosângela Fachel de Medeiros é o segundo artigo dessa Seção. Para as autoras, o Youtube é,atualmente, um espaço privilegiado de trocas e de interações no ambiente virtual, no qual reconhecemos uma crescente visibilidade e sucesso de performances que apresentam estéticas e/ou sensibilidades Queer, as quais, de maneira geral, transcendem o limite de um nicho de público LGBTTTQIA e, cada vez mais, são assistidas por um público heterogêneo. Nesse artigo, Bertolotti e Medeiros propõem uma leitura do “#TUTORIAL | Olho tudo + Boca tudo |Esfumado preto com glitter”, do famoso maquiador youtuber/influencer Antonio Campagna, enquanto performance Queer que subverter o discurso hétero normativo, que associa a maquiagem ao feminino e à mulher, e possibilita uma fruição lúdica da indeterminação que o Queer promove e celebra.

Allan Vieira Santos, no artigo “A CONCESSÃO DE REFÚGIO À PESSOAS LGBT”, argumenta que além do banimento social, vivenciado em várias sociedades ao longo do globo,cidadãos LGBT enfrentam problemas que incluem a legislação e a prisão em vários países,além de serem objetos de contínuos ataques. O infortúnio é no sentido de que, após saírem de seus países, algumas perseguições ainda podem persistir. Isto se dá na medida em que solicitantes de refúgio com condições sexuais e expressões de gênero dissidentes apresentam fragilidades distintas. Apesar de subsistirem avanços nas políticas que implementaram o refúgio, inclusive com a adoção da Declaração sobre Direitos Humanos, Orientação Sexual e Identidade de Gênero, a promoção de direitos de igualdade para com a população LGBT ainda caminha a passos módicos. Esse estudo busca analisar como a percepção de vivências pessoais de perseguição com vistas a demonstrar pertencer a um grupo social específico pode reforçar estereótipos de sexualidade e gênero que acabam por marginalizar e prejudicar a proteção a pessoas LGBT, reforçando aspectos de uma perseguição que pode estar se deslocando do país de origem para o país de acolhimento.

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Na Seção Entrevistas/Conversas, contamos com a “CONVERSA SOBRE EDUCAÇÃO COM RAEWYN CONNELL” realizada por Carmen Lúcia Guimarães de Mattos, Márcio Rodrigo Vale Caetano e Paula Almeida de Castro. A conversa com Raewyn Connell teve início pela sua trajetória acadêmica a partir do livro Making the Difference: Schools, Families and Social Division (1982), cuja publicação em língua portuguesa ampliou o interesse de pesquisadores em educação pelos estudos de gênero. Dada a amplitude da produção da autora nesta linha de estudos a conversa continua com indagações sobre a importância para escola em lidar com esse tema, assim como sua interconexão com os estudos sobre masculinidades e suas teorizações internacionais e mais particularmente no Hemisfério Sul, visto que Connell, à época estava divulgando o seu livro Southern Theory: The Global Dynamics of Knowledge in Social Science. Discutiu-se as possibilidades teóricas do Sul pelo Sul, o papel da escola na introdução dos temas sobre as ordenações de gênero e finalmente apresenta-se reflexões dos autores sobre seus próprios questionamentos acerca da obra da autora.

“O CORPO TRANSVESTI GÊNERE – O CORPO TRAVESTI – NA ARTE” de Renata Carvalho compõe a Seção de Produções Artísticas e Culturais. E na Seção Relato de Experiência, encontramos o artigo “PERSONAS TRANS Y EDUCACIÓN EN ARGENTINA, LA EXPERIENCIA EDUCATIVA DE MOCHA CELIS”. Já na Seção Resumos de Teses e Dissertações, é possível localizar as pesquisas de mestrado de Gabriela da Silva sobre “GÊNERO E SEXUALIDADE NO AMBIENTE ESCOLAR: CONCEPÇÕES DAS DIRETORAS FRENTE A PRECONCEITOS E DISCRIMINAÇÕES COM ESTUDANTES LGBTT”; e de Rayssa Karla Dourado Porto sobre “ITINERÁRIO TERAPÊUTICO DOS HOMENS TRANSGÊNEROS DA BAIXADA CUIABANA/MT”.

Por fim, na Seção Pontos de Vista, Jaqueline Gomes de Jesus destaca “XICA MANICONGO: A TRANSGENERIDADE TOMA A PALAVRA”; e Maria Eduarda Aguiarda Silva discute “A DIVISÃO NO ESPORTE DEVE SER SEPARADA POR SEXO OU GÊNERO”.

O GGN disponibiliza a íntegra da publicação abaixo:

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