As mensagens de Trump e Bolsonaro na ONU para seus públicos domésticos, por Otávio Dias de Souza Ferreira

Segundo as pesquisas de opinião mais recentes, a aprovação do governo Trump está em torno de 39%, ao passo que a de Bolsonaro é de 31%. Ambas as taxas parecem estabilizadas.

O presidente Bolsonaro discursa na AGONU, em 25 set. 2019

do OPEU – Observatório Políticos dos Estados Unidos

As mensagens de Trump e Bolsonaro na ONU para seus públicos domésticos

por Otávio Dias de Souza Ferreira

Donald Trump e Jair Bolsonaro discursaram na abertura da 74ª Assembleia Geral das Nações Unidas em 25 de setembro de 2019. Os conteúdos trouxeram abordagens similares sobre determinadas questões na ideologia e na geopolítica, mas tiveram diferenças em vários pontos. Além de transmitirem mensagens para a comunidade internacional e para determinados atores políticos no tabuleiro global, cada qual se comunicava também com seus respectivos públicos internos.

Trump se encontra no terceiro ano de seu mandato na Casa Branca. Bolsonaro, no fim de nove meses no comando do Executivo em Brasília. Enquanto o primeiro encara um momento de prestação de contas e de foco na eleição do próximo ano, o último ainda dispõe de período longo de mandato. A comunicação política recomenda estratégias contínuas de manutenção de laços com as bases e de ampliação gradativa de simpatizantes. Para tanto, costuma-se acompanhar as pesquisas de opinião medindo a aprovação popular da liderança. A proximidade com a eleição requer cuidados de maior urgência para angariar a simpatia de públicos mais amplos do que os apoiadores mais fiéis.

Segundo as pesquisas de opinião mais recentes, a aprovação do governo Trump está em torno de 39%, ao passo que a de Bolsonaro é de 31%. Ambas as taxas parecem estabilizadas. No Brasil, aqueles que consideram a administração regular contabilizam 32% dos entrevistados, enquanto quem não sabe, ou prefere não responder, 3%. Nos EUA, tal pesquisa de 2019 trabalhou com categorias intermediárias em comparação com a brasileira: aprovação forte, aprovação moderada, reprovação forte e reprovação moderada. Somando os moderados, temos um total de 21%. Apenas 6% não deram opinião.

O perfil das bases trumpista e bolsonarista

Quando pensamos na comunicação com o público doméstico dos dois países, espera-se identificar duas dimensões neste processo: uma voltada para os públicos mais fiéis à liderança, ao partido, ou ao que eles representam politicamente; e outra, para públicos menos convictos e mais flexíveis, mais especificamente aquelas parcelas que apareceram nas pesquisas com opiniões moderadas sobre a gestão e parte dos que preferiram não opinar. Nos dois discursos, as mensagens para esses públicos apareceram quase que simultaneamente, e as temáticas com potencial de apelo mais universal vieram, usualmente, permeadas de recados para exaltar os fiéis seguidores.

Para se ter uma vaga ideia do perfil mais devoto de um e outro, vejamos brevemente um par de análises. Analisando pesquisas do Datafolha, Prandi resumiu os maiores apoiadores de Bolsonaro como predominantemente brancos, do sexo masculino, com nível elevado de renda e de educação, situados principalmente no sul e no sudeste do Brasil, destacando, em termos ocupacionais, os trabalhadores autônomos e os empresários. Solano acrescentou conteúdos que fazem a cabeça dos bolsonaristas, como a ideia de impunidade e aversão aos direitos humanos, à corrupção inerente à política tradicional e às políticas de redistribuição de renda e a defesa da meritocracia e de valores da família e da religião.

No caso de Trump, analistas identificaram uma maioria de apoiadores mais fiéis que não tem nível escolar elevado, que se incomoda com a imigração, que vive predominantemente em partes do país com ressentimento racial, que se sentiam desprovidos de uma voz política que os representasse. A pesquisa de Pettigrew ainda identificou traços de personalidade que preferem a completa subordinação a uma autoridade, com orientação de vivência em estruturas sociais hierárquicas e com pouco, ou nenhum, contato estabelecido fora dos próprios grupos, que se ressentem quanto a um suposto prejuízo sofrido em relação a minorias étnicas e religiosas e que se sentem injustamente privados de algo que lhes pertence por direito.

Prioridades de cada um

Da transcrição dos dois discursos pronunciados em Nova York, produzimos duas nuvens de palavras dispostas a seguir, que nos ajudam a identificar aspectos reiterados nos conteúdos.

Fonte do Quadro 1: Reprodução do discurso na Revista Exame. Elaboração do autor.

Na nuvem de palavras elaborada com base no discurso de Jair Bolsonaro em Nova York (Quadro 1), a palavra “Brasil” destoa entre todas as outras, aparecendo também variações ligadas à pátria como “brasileiros”, “brasileira” e “brasileiro”, que, em articulação com a ideia de “soberania”, enfocam a ideia patriótica, central no discurso. A presença reiterada de palavras como “ideologia”, “socialismo”, “militares” e “religiosa” indica mensagens para certos públicos de sua base de apoio, sobretudo, os religiosos, conservadores e ligados às Forças Armadas, ou às agências de segurança pública. As referências à “Venezuela”, ao “socialismo” e à “mídia” tratam de supostos inimigos da “liberdade”, da “democracia”, do presidente e dos “interesses” do povo que o líder representa. Algumas pautas são mais abrangentes, como a “corrupção”, a “segurança”, a “violência, a “criminalidade” e a área “econômica, especialmente neste momento de grave crise.

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Na nuvem de palavras criada partindo-se discurso de Donald Trump (Quadro 2), vemos também o teor patriótico e as referências domésticas em expressões como “America”, “nation”, “national” e “Americans”. Os inimigos eleitos aparecem especialmente em “Iran”, “Venezuela”, “communism”. Como referência a determinados públicos internos da base eleitoral mais fiel do presidente americano, vemos “ideologies”, “religious” e “values”. Palavras como “prosperity” e “peace” sinalizam um tom de esperança e miram o futuro com otimismo. Outras, como “security”, “jobs”, “liberty”, “freedom” e “dignity”, referem-se a demandas políticas significativas para parte mais ampla do eleitorado estadunidense. Trump também sinalizou para públicos determinados, como mulheres (“women”) e pessoas de orientação LGBTQ.

Fonte do Quadro 2: Página da internet da White House. Elaboração do autor.

Convergências político-ideológicas

Houve similaridade em vários momentos dos discursos, como do teor patriótico, na defesa da família e das tradições, da religião e da liberdade religiosa e dos ataques ferrenhos ao comunismo e ao socialismo, geralmente associados a seus adversários políticos e à corrupção.

São notórias as semelhanças nas orientações político-ideológicas dos dois. Não é segredo o vínculo estabelecido entre o ex-assessor de Trump e ex-diretor-executivo da plataforma de mídia Breitbart News Steve Bannon com a família do presidente brasileiro, especialmente com seu filho Eduardo Bolsonaro.

Referência intelectual de Bolsonaro e responsável pela indicação de alguns dos nomes mais importantes na composição do governo atual, Olavo de Carvalho vive nos Estados Unidos, admira Trump e conhece – e utiliza por vezes em seus escritos – as referências do novo conservadorismo estadunidense, movimento ao qual se refere como a “boa e velha linha conservadora de [Barry] Goldwater e [Ronald] Reagan”. A criação da Cúpula Conservadora das Américas, a partir de evento em dezembro de 2018, e agora, em outubro de 2019, a realização de evento da Conservative Polítical Action Conference no Brasil parecem selar essa parceria.

Uma característica significativa em comum se situa exatamente no estilo político e no método, ou na estratégia de retórica dos dois líderes. Evidencia-se uma ênfase na comunicação, procurando exaltar alguns valores de fundo conservador de segmentos das populações internas contra determinados atores e iniciativas supostamente opostos a eles. Quanto mais radicalizado o discurso, maior tende a ser o impacto nos setores do eleitorado mais devotos aos dois líderes.

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As partes das retóricas patriótica e antiglobalista de fundo mais econômico assumem um potencial de apelo junto a uma parcela mais ampla da população. Quando Trump tratou da sua ambiciosa campanha para reformar a lógica dos tratados internacionais comerciais, acusando-os da perda de milhões de empregos no país e de prejuízos vultosos acumulados nas transações, ele se coloca na condição de protetor da classe média estadunidense, no sentido de “acabar com essa grave injustiça econômica” (“to end this grave economic injustice”). Como mostram as palavras de Trump: “Wise leaders always put the good of their own people and their own country first. The future does not belong to globalists. The future belongs to patriots. The future belongs do sovereign and independent nations who protect their citizens”.

O apelo ao patriotismo de Bolsonaro apareceu, principalmente, na argumentação em defesa da soberania brasileira em matéria de meio ambiente e de Amazônia contra, segundo ele, “ataques sensacionalistas” sofridos por “grande parte da mídia internacional”, que “despertaram nosso sentimento patriótico”. Já a abordagem escolhida de eleger as ONGs e o cacique Raoni como vilões dos interesses da nação e dos próprios índios foi mais direcionada a insuflar sua militância.

Otimismo econômico como isca

O movimento feito por ambos de explicitar as parcerias firmadas, ou em processo de construção – como, no caso americano, em relação a México, Canadá, Inglaterra e Japão; e no brasileiro, com Israel e União Europeia – visa a alardear possíveis oportunidades de negócios que se abrirão para os cidadãos de seus respectivos países.

O anúncio da isenção da exigência de vistos no Brasil para cidadãos dos Estados Unidos, Japão, Austrália e Canadá, mesmo sem exigência de reciprocidade, pretende atingir os brasileiros envolvidos com a indústria do turismo. No mesmo sentido, a propaganda promovida sobre a suposta melhoria na segurança interna brasileira pretende amenizar restrições de estrangeiros ao turismo no país.

Em ambas as falas, esteve presente a preocupação em transmitir otimismo para os agentes do mercado e para a população vitimada pela crise econômica e pelo desemprego, principalmente no caso do Brasil.

Thanks to our domestic pro-growth economic policies, our domestic unemployment rate reached its lowest level in over half a century. Fueled by massive tax cuts and regulations cuts, jobs are being produced at a historic rate. Six million Americans have been added to the employment rolls in under three years”, afirmou Trump, que aproveitou para endereçar mensagens para algumas fatias bem específicas de seu eleitorado. No último mês, disse o presidente dos EUA, o desemprego de “African American, Hispanic American, and Asian American” teria atingido as menores cifras da história.

Em suas promessas de abertura da economia brasileira conforme o livre-mercado e de responsabilidade fiscal, Bolsonaro acenou com muita generosidade para os atores do mercado, tanto internacional, quanto doméstico, e para os simpatizantes do ideário liberal econômico da Escola de Chicago, ou da Escola Austríaca, que povoam a nova direita brasileira: “Não pode haver liberdade política sem que haja também liberdade econômica. E vice-versa. O livre-mercado, as concessões e as privatizações já se fazem presentes hoje no Brasil. A economia está reagindo, ao romper os vícios e amarras de quase duas décadas de irresponsabilidade fiscal, aparelhamento do Estado e corrupção generalizada. A abertura, a gestão competente e os ganhos de produtividade são objetivos imediatos do nosso governo”.

Na parte da gestão supostamente competente, honesta e responsável do Estado, o presidente brasileiro flerta com a ideia de gestão técnica que atinge um público maior. Mais uma vez, não se perdeu a oportunidade de lançar farpas contra os adversários políticos.

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No discurso de Bolsonaro, o anticomunismo é geralmente associado à bandeira da luta contra a corrupção, supostamente inerente à “política tradicional” e aos governos petistas, contra os quais a vitoriosa campanha de Bolsonaro se insurgiu. Embora menos conhecido ao redor do planeta, a menção expressa ao nome de Sérgio Moro foi uma evidente mensagem ao eleitor interno, possivelmente almejando a transferência da alta popularidade do ex-juiz responsável pela Operação Lava-Jato para um presidente, cujo mandato tem diminuta aprovação popular. De modo similar, Trump chegou a falar em uma “regra própria corrupta comunista” (“own corrupt communist rule”), quando falava do envolvimento entre os regimes cubanos e venezuelano.

Fatores que explicam as diferenças

Um ponto divergente nos dois discursos se situa nas atitudes. Se Bolsonaro se mostrou demasiadamente agressivo, Trump foi bem mais moderado e contido. Algumas discrepâncias no tom de ambos os pronunciamentos refletem diferenças institucionais partidárias entre o “Great Old Party” (GOP, como o Partido Republicano também é chamado) e o Partido Social Liberal (PSL) e entre os próprios contornos ideológicos dos seus eleitores. A agenda LGBQT, por exemplo, presente na fala de Trump, foi introduzida no Partido Republicano pelo menos desde a gestão de Rudolf Giuliani na cidade de Nova York, no início dos anos 2000. Parece haver maior permeabilidade para parcelas do eleitorado estadunidense para essas agendas do que no caso brasileiro, onde as restrições maiores nessa temática vêm, principalmente, de segmentos religiosos conservadores.

Para além das personalidades dos presidentes, o suporte de um partido tradicional e consolidado – no caso estadunidense – e a falta de uma institucionalidade mínima partidária – no caso brasileiro – estão entre as principais diferenças que conformam as crenças de um e outro movimento. Explica em parte porque a liderança brasileira alcança constantemente posições mais extremas nos discursos. Aqui, os segmentos militares na composição do governo ensaiaram a pretensão de oferecer uma alternativa de freios, mas continuam sofrendo sucessivas derrotas nos atritos com setores mais ideológicos da base de Bolsonaro.

Entre diferenças e semelhanças, os dois discursos enviaram reiteradas mensagens aos públicos domésticos, tanto para os apoiadores mais fiéis e que guardam afinidades ideológicas entre si, quanto para públicos maiores, almejando receptores que avaliam estes governos de modo mais moderado, ou regular. O momento do mandato, a proximidade das eleições, os freios institucionais, as peculiaridades dos públicos-alvo e das agendas políticas internas são aspectos relevantes para explicar a postura, o tom da fala e os conteúdos proferidos de lado a lado.

 

Otávio Dias de Souza Ferreira é doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo, membro do corpo docente da Maestria Estado, Gobierno y Politicas Públicas da FLACSO Brasil e do Núcleo Direito e Democracia do CEBRAP.

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