5 de junho de 2026

As raízes do carnaval político de BH, por Wesley Sousa

Muitos blocos trazem em seus conteúdos e intenções pautas políticas como “acesso à cidade”; destacam a luta antiditadura; refletem problemas

Carnaval de BH surgiu em 2009 como resistência a decreto que proibiu festas na Praça da Estação.
Blocos políticos abordam pautas como moradia, mobilidade urbana, tarifa zero e soberania nacional.
Prefeitura regula eventos; carnaval mistura cultura regional e luta social, mantendo caráter político.

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As raízes do carnaval político de BH

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por Wesley Sousa[1]

“Se eu morrer não chore, não, é só poesia” – Lô Borges

Para quem é de Belo Horizonte – ou vive na cidade há algum tempo – não é novidade o crescimento da festividade, ano após ano, com centenas de blocos e milhões de pessoas nas ruas. Mas, no princípio, o carnaval não apenas foi mal recebido, mas como foi “proibido”[2].

A história não é tão desconhecida: no período em que a Praça da Estação (região central) virou “Praia da Estação” entrou em vigor um decreto que visava limitar atividades festivas na praça; exatamente em resposta ao decreto do então prefeito Márcio Lacerda (PSB), diversos grupos (ou blocos) com espírito carnavalesco e político começaram a se juntar para fazer com que esse decreto não fosse apenas criticado, mas “festejado” como forma de resistência.

Desde 2009, a partir do decreto, foi quando – grosso modo – o carnaval de BH começou a se reinventar. Sintetizando: passou de alguns poucos blocos, com pequenas baterias e pouca estrutura, sem reconhecimento oficial, para uma mobilização conjunta entre coletivos populares e demais segmentos que foram aumentando ao longo dos anos. Assim, o carnaval de BH se tornou, pouco mais de uma década, o que veio a ser conhecido nacionalmente. Ainda recapitulando, em 2011 e 2012, fiscais da prefeitura coagiram comerciantes dos bairros Santa Tereza e Floresta para eles não receberem os foliões.

Mas, os blocos antigos e tradicionais, vindos dos bairros da Zona Norte, Leste e demais regionais, se mantiveram firmes, crescendo, com suas histórias e pessoas envolvidas. Não seria de se surpreender, portanto, que o carnaval de BH se tornasse, desde já, um carnaval político. Muitos blocos trazem em seus conteúdos e intenções pautas políticas como “acesso à cidade” (o que faz lembrar o decreto da proibição do uso da Praça da Estação); destacam a luta antiditadura; refletem problemas na cidade em termos de mobilidade urbana, a luta por moradia (ocupação de prédio abandonados), a Tarifa Zero, até as questões relacionadas à soberania nacional, violência policial, etc. e, sem dúvidas, visando uma sociedade equânime.

Entretanto, vale ainda mencionar que o processo de “institucionalização” dos blocos quando a PBH (Prefeitura de Belo Horizonte) se viu na necessidade da ampliação e adequação ao calendário cultural da cidade (com vistas de gerenciar o carnaval). A partir disso foi necessário “pedir” autorização à secretaria de cultura para que o carnaval pudesse, em diante, ser realizado[3]. As atrações artísticas vindas de fora nos últimos anos, como Anitta, Dj Alok, e tantos outros, os quais arrastam um monte de gente, é apenas um momento, aliás, que refletem certos padrões milionários que o carnaval se tornou – a mercantilização do que é sempre possível na indústria cultural. O carnaval, mesmo assim, quem o faz, está onde muitos holofotes não brilham.

Na ocupação do espaço urbano estão centenas de blocos, com temáticas e pautas diversas (em cujos nomes e respectivas descrições extrapolariam o escopo deste texto). Para isso, o artigo Da carnavalização do planejamento urbano para Belo Horizonte-para-a-guerra: da política ao político e vice-versa, do professor e Urbanista Frederico Canuto (UFMG), faz um ótimo trabalho analítico e reflexivo[4]. Todavia, menciono que, segundo o próprio autor do artigo, em face do Estado e da privatização das festividades (resultado disso é a proliferação de “festivais”), o carnaval de BH é construído num campo de disputa: “é uma luta que implica a manutenção do outro como adversário [Estado e iniciativa privada], numa prática agonística que não quer a destruição, mas sim aliança para a construção de novos territórios de discussão entre Estado e movimentos sociais – estes entendidos não apenas como entidades ou institucionalidades, mas também como movimentações sociais” (Canuto, 2016, p. 496).

Atualmente, uma das pautas que se tem discutido – senão ainda em alguns temas de determinados blocos – é acerca da “revitalização dos bairros do centro”, bem como a Lei da Tarifa Zero (votada e rejeitada pela Câmara Municipal em fins de 2025).

No sentido mais amplo, os blocos trazem consigo ritmos, caracterizações de musicalidades regionais, do norte e nordeste, em destaque com a memória da luta dos negros e indígenas. Não apenas o Clube da Esquina, há toda uma vivacidade da cultura mineira, a culinária e os festejos e as tradições da oralidade locais e regionais (interior do estado). Tudo isso, no entanto, seria uma obviedade se não fosse o caso de que há muita gente que pensa ser o carnaval uma festa de “desocupados” ou uma festa despolitizada. Como se uma luta política fosse apartada de uma festividade popular que é, em suma, de resistência. Aliás, nessa visão míope se vê um discurso reacionário de que “se fosse pra protestar esse povo não ia”, mas são em grande parte as mesmas pessoas que apoiam ou assumem uma “guerra cultural” em louvores sob auspícios de figuras como o ex-presidente J. B. e seus sicários, ou mesmo nutrem um “antiesquerdismo” tosco em suas mentes e corações.

Em suma, o carnaval não surge do nada, assim como quaisquer manifestações culturais. Com elas, trazem-se histórias, dilemas e lutas até se firmarem; embora as apropriações de sentido, reconfigurações das percepções do que é o “popular” sejam parte do imaginário social, não é por demais relembrar: o carnaval de BH é político, desde suas raízes mais contemporâneas, porque surgiu assim e cresceu, apesar dos pesares, sendo político. Talvez seja por isso que quem contrapõe “política x carnaval” mantenha uma visão turva das coisas: não veem que o decreto de Lacerda foi um vulto que virou vendaval.


[1] Doutorando em Filosofia pela UFMG.

[2] Aqui é desnecessário dizer as origens do carnaval no Brasil e seus rumos, já que o intuito do texto é mais circunscrito.

[3] Agradeço ao Lucas Parreira pela lembrança.

[4] Cf. CANUTO, Frederico. Da carnavalização do planejamento urbano para Belo Horizonte-para-a-guerra: da política ao político e vice-versa. Revista Brasileira de Estudos Urbanos, Recife, v. 18, n. 3, p.485-506, 2016.

Fonte da foto: https://www.noticiasdecontagem.com.br/cortejo-a-roda/

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