20 de outubro de 2026

O Asfalto em Transe: da Europa ao Brasil, por Maria Carolina Maziviero

Juventude percebe que não tem mais nada a perder e não deve nada a um sistema que enche o bolso dos mais ricos enquanto lhes rouba o amanhã.
Foto: Eline Luz/Imprensa ANDES-SN - Reprodução

Eleições expõem desconexão da esquerda com ruas e juventude, impulsionando mobilizações em capitais brasileiras.
Movimentos progressistas e juventude lideram protestos globais contra austeridade, enquanto extrema-direita ganha espaço nas ruas.
No Brasil, rua é vista como trincheira e propulsora da democracia, essencial contra o avanço do autoritarismo e extremismo.

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O Asfalto em Transe: da Europa ao Brasil, como os recentes levantes transformaram a rua na última trincheira da democracia.

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por Maria Carolina Maziviero

O alarme soou! O resultado do primeiro turno das eleições presidenciais expôs uma fratura perigosa para o campo progressista. O cenário revelou que a esquerda havia, de certa forma, perdido sua conexão histórica com as ruas, sua base popular e a juventude. Diante de um recorde de abstenções, ficou claro que a campanha não seria decidida apenas nos gabinetes ou na propaganda oficial, exigindo uma reconfiguração tática imediata.

Para reverter essa desconexão, partidos, movimentos sociais e militância recalcularam a rota e lançaram a ofensiva “Bora Virar”. A estratégia tem espalhado grandes mobilizações por capitais como São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Brasília e até Curitiba, mas com um diferencial: a fusão dos atos de massa com o contato direto. A aposta passou a ser ocupar praças e bairros com caminhadas, atividades culturais, panfletagens e o corpo a corpo das visitas de porta em porta. Embora especialistas apontem o desafio de converter manifestação em voto imediato, há um consenso de que a cidade e a rua são as únicas vias para combater a abstenção, dialogar com os desiludidos e disputar os eleitores fora dos espaços tradicionais da militância.

O fim de um ciclo eleitoral costuma carregar a ilusão de que a tensão social foi apaziguada, como se a energia das ruas pudesse ser domesticada e contida nos corredores institucionais. A realidade, contudo, tem atropelado essa falsa promessa de pacificação. Da Europa à América Latina, o que vemos é a reconfiguração constante do embate político físico. A democracia, em sua essência, nunca se sustentou apenas na abstração do voto ou na rotina administrativa dos gabinetes; sua infraestrutura física, seu verdadeiro laboratório e campo de disputas, é a cidade. Mais especificamente, a rua.

Para entender essa disputa, é preciso olhar para a raiz do esgotamento global. As políticas de austeridade e o corte drástico de gastos tornaram-se uma regra sufocante no mundo ocidental. Sob forte imposição geopolítica, ditada principalmente pela cartilha neoliberal e pelos interesses dos Estados Unidos, direitos básicos como saúde e educação vêm sendo transformados em mercadorias, enquanto as condições de trabalho sofrem uma precarização brutal.

É contra a violência desse desmonte que as novas gerações têm reagido. Como alerta a máxima que tem ecoado entre os movimentos europeus recentes: “Quem não pode oferecer um futuro, defende o presente com violência”. Não é por acaso que a Geração Z tem se levantado do Irã ao Brasil, passando pela Índia, Albânia e Alemanha. É uma juventude que percebe que não tem mais nada a perder e não deve absolutamente nada a um sistema que enche o bolso dos mais ricos enquanto lhes rouba o amanhã.

Essa coragem da juventude ganha contornos vívidos quando olhamos para as recentes mobilizações documentadas por jornais como Le Monde, The Guardian e La Repubblica. Na Argentina, estudantes e trabalhadores têm protagonizado marchas massivas contra os cortes nas universidades e o desmonte promovido por Javier Milei. Na França, a união entre classe trabalhadora e juventude paralisou Paris e impulsionou a Nova Frente Popular. Na Itália, o embate transbordou para uma repolitização visceral: milhares de estudantes vêm ocupando praças e escolas sob forte repressão policial, respondendo à asfixia econômica de Giorgia Meloni. Em Berlim, coletivos organizaram referendos para expropriar grandes conglomerados imobiliários. É essa multiplicidade que forja as alianças desobedientes do nosso tempo. Em total sintonia com o cenário francês, essa tensão social italiana explodiu contra o alto custo de vida e os baixos salários, forjando uma aliança entre mobilizações estudantis e reivindicações sindicais às vésperas de um debate orçamentário decisivo. É essa multiplicidade que forja as alianças desobedientes do nosso tempo.

Simultaneamente à força desses movimentos progressistas, a rua também reflete um perigoso fenômeno de hackeamento pela extrema-direita global. Partidos de ultradireita como a AfD (Alemanha), o Rassemblement National (França), o Chega (Portugal) e o próprio Fratelli d’Italia souberam traduzir o mal-estar crônico das populações em uma espécie de pânico identitário. Eles desceram ao asfalto. Transformaram a ansiedade econômica em ódio ao imigrante e ressignificaram as táticas insurgentes que outrora pertenceram exclusivamente às forças democráticas populares.

No Brasil, é justamente porque o motor da resistência voltou a girar com força nas ruas que ele se tornou o alvo principal da oposição. Ações recentes movidas no TSE por figuras da extrema-direita contra dirigentes sindicais e movimentos estudantis nas universidades públicas buscam asfixiar essa reação. Censurar quem luta não é defender a ordem democrática, mas atacar as trincheiras que a sustentam.

Para entender o transe do asfalto hoje e não ceder a cidade ao extremismo, é preciso cruzar essa realidade com a tradição teórica sobre a cidade. Não se trata de enxergá-la como um mero cenário inerte em que a política desfila suas bandeiras de dois em dois anos, mas de compreendê-la como o próprio sintoma das nossas crises. Quando o sociólogo francês Henri Lefebvre cunhou o conceito de Direito à Cidade, no final dos anos 1960, ele falava sobre o poder das pessoas de tomarem as rédeas da própria cidade. Em vez de tratá-la como um produto pronto, ele nos provoca a enxergá-la como uma obra coletiva. Para Lefebvre, a apropriação da cidade é condição indispensável para a existência de uma verdadeira democracia.

David Harvey atualizou essa urgência ao nos lembrar que o direito à cidade é um direito coletivo de mudarmos a nós mesmos ao mudarmos a cidade. Avançando esse debate, Manuel Castells mostrou que a metrópole é o verdadeiro campo de batalha das nossas desigualdades, onde a disputa por moradia e transporte acontece na prática. Justamente por concentrar tanta gente, recursos e oportunidades no mesmo lugar, a cidade tem uma força única de mudança. Quando a população toma as rédeas do espaço urbano, ele deixa de ser uma fábrica de desigualdade e vira um laboratório vivo, capaz de fazer a democracia funcionar na prática, muito além do voto.

A década de 2010 foi marcada por tremores sociais que sacudiram as cidades do Norte da África às Américas, passando pela Europa e Ásia. Embora cada um desses levantes tenha explodido por motivos locais imprevisíveis, havia um fio condutor global: a conta cruel do colapso financeiro de 2008. As políticas impostas para salvar os mercados empurraram o custo da crise para a população, aproximando realidades antes distantes na aldeia global. Formou-se aí um profundo caldo de insatisfação e uma crise de representatividade, em que a juventude já não se reconhecia nas vias tradicionais da política. Foi diante desse cenário que as ruas foram tomadas por novas táticas de mobilização de massa. O ano de 2011 ficou marcado por levantes como o 15-M na Espanha, e as Jornadas de Junho de 2013, no Brasil, consolidaram a tática do fluxo e do bloqueio. Contudo, 2013 também serviu como laboratório amargo: a volatilidade sem lideranças claras permitiu que a insatisfação fosse rapidamente capturada pela extrema-direita, provando que a rua não tem dono.

Nos últimos atos de rua de 2026, o que se vê é o encontro entre a tradição das lutas sindicais e a força espontânea das novas gerações para barrar o avanço da extrema-direita. Juntos, coletivos culturais, estudantes e trabalhadores formam a atual linha de frente dessa resistência nas cidades. Esses grupos atuam como sujeitos políticos que não enxergam a urbe apenas como um cenário para suas pautas. Pelo contrário, o próprio espaço urbano torna-se a principal ferramenta de luta, onde esses atores disputam o controle físico das ruas e buscam retomar para o uso público as infraestruturas e os centros de poder. Trata-se de apostar na potência do encontro físico, uma força capaz de trazer a política de volta para o agora e desarmar qualquer delírio de vigilância ou controle tecnológico.

Essa aposta no corpo a corpo é urgente porque as cidades brasileiras sofrem um processo contínuo de alienação. Reocupar a cidade não é um gesto romântico; é uma necessidade estrutural cuja efetivação será estéril se não passar pela retomada do trabalho de base nas favelas e periferias.. É a partir dessa reconexão real com as margens, disputando o espaço onde o Estado falha e o extremismo avança, que se torna imperativo estabelecer um duplo horizonte para a ocupação urbana pelas forças democráticas:

O primeiro horizonte é o da rua como trincheira. Diante do pior cenário possível nas urnas (o retorno da extrema-direita ao poder), a presença física na cidade torna-se o nosso último freio de emergência. Se as vias institucionais falharem, a rua atua como espaço de resistência ativa, onde a classe trabalhadora pode e deve se organizar para barrar o desmonte e o assédio judicial. A cidade pode funcionar como o escudo final contra o autoritarismo.

O segundo horizonte é o da rua como propulsora. Em caso de vitória eleitoral das forças democrática, a desmobilização é fatal. A rua precisa continuar ativada como ferramenta de pressão contínua. É a mobilização do asfalto que evita a acomodação burocrática e garante que a organização popular governe a cidade junto com o Estado. Um governo isolado do chão rapidamente cede à gravidade do status quo.

O que as práticas insurgentes nos ensinam é que a cidade é um campo de disputa constante. Se permitirmos que a extrema-direita monopolize a tradução do mal-estar contemporâneo e criminalize os movimentos sociais, as vitórias nas urnas serão apenas intervalos fugazes antes de colapsos maiores. A democracia é visceral! Terceirizar a política aos gabinetes é um risco que não podemos mais correr. Retomar o trabalho de base e a presença nas ruas é condição incontornável para ditar o nosso próprio futuro.

Maria Carolina Maziviero – professora de arquitetura e urbanismo na UFPR, e nas pós-graduações em Planejamento Urbano, e em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Pós-Doc e professora visitante na Universidade de Bologna, foi pesquisadora visitante junto ao Procam IEE/USP. Integra o grupo de pesquisa CUAL (Comuns Urbanos na América Latina) e o GovAmb (Grupo de Acompanhamento e Estudos em Governança Ambiental) e colaboradora da Rede BrCidades.

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