Auto-golpe, escalada autoritária, derrotar punitivismo, por Josias Pires

O caminho para a montagem de um estado policial vem sendo percorrido desde o impeachment.

Auto-golpe, escalada autoritária, derrotar punitivismo, por Josias Pires

Havia rabiscado mais algumas linhas sobre a crise política antes de ler o texto de Celso Rocha de Barros, publicado hoje (29) na Folha. O que escrevi complementa o texto dele e resolvi publicar abaixo, como comentário ao do sociólogo paulista.  

Escalada autoritária

Bolsonaro passou a campanha falando em destruir a democracia brasileira

Por Celso Rocha de Barros

Justiça seja feita: se Bolsonaro não tentasse destruir a democracia brasileira, teria praticado estelionato eleitoral. Foi isso que passou a campanha inteira dizendo que faria.

Durante todo o ano de 2018, Bolsonaro repetiu que não reconheceria uma derrota —isto é, que tentaria um golpe de Estado se Fernando Haddad tivesse sido eleito.

Seu filho Eduardo Bolsonaro, nosso futuro embaixador em Washington, declarou que, para fechar o STF, bastariam um soldado e um cabo.

Quando indagado, no programa Roda Viva, sobre seu livro de cabeceira, Bolsonaro citou, às gargalhadas, as memórias falsificadas do torturador Brilhante Ustra, que já havia homenageado na votação do impeachment.

Faltando uma semana para a eleição, compontos de vantagem sobre o opositor, Bolsonaro discursou dizendo que para a esquerda só restariam o exílio ou a prisão.

Sinceramente, vocês acharam que a Presidência desse sujeito ia ser o quê?

Nesses seis meses, não houve nenhum gesto de moderação. A deputada bolsonarista Bia Kicispropôs revogar a PEC da Bengala para permitir que Bolsonaro nomeasse mais ministros para o STF —um entre vários movimentos extraídos do repertório do ditador húngaro Viktor Orban.

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Militares filmaram ostensivamente uma palestra na Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência porque o palestrante tinha críticas à política ambiental de Bolsonaro.

O general Santos Cruz foi demitido de maneira humilhante porque entrou em conflito com a extrema direita bolsonarista.

Os ataques à imprensa começaram contra a Folha; prosseguiram —sempre sórdidos, sempre imundos— contra jornalistas do Estado de S. Paulo, da Globo e de toda a imprensa independente.

As universidades estão sob cerco, e toda a máquina governamental brasileira está engajada em uma guerra contra a ciência.

O Brasil passou a votar com a Arábia Saudita na ONU em todas as questões relativas a direitos humanos. Olavo de Carvalho começou a fazer doutrinação de graça para policiais, para a eventualidade de os militares se provarem democratas.

Depois da votação da reforma da Previdência, a escalada autoritária se acelerou.

Convicto de que a elite agora estava devidamente comprada, Bolsonaro tornou-se mais ousado. Os ataques contra Míriam Leitão foram o começo dessa ofensiva.

Mas foi com a guerra à Vaza Jato que Bolsonaro percebeu a possibilidade de destruir a democracia em nome do combate à corrupção. Não há combate nenhum, é claro: há, sim, um acordão para livrar Flávio Bolsonaro, com Supremo, com tudo. Mas, na falta de uma reputação de honestidade própria, Bolsonaro parasitou a de Moro, que, coitado, acha que isso tudo é para defendê-lo.

Como parte dessa escalada, no último sábado, Bolsonaro cruzou uma linha: sugeriu que Glenn Greenwald, fundador do Intercept, havia se casado e adotado duas crianças para não ser deportado, acrescentando que o jornalista poderia “pegar uma cana” no Brasil.

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É inaceitável e é mais um esforço bolsonarista de nos fazer cansar sob o peso do nojo.

Quanto antes os brasileiros entenderem que o bolsonarismo odeia tudo que neles é livre, maiores serão as chances de preservarmos a liberdade que nos resta. A escalada autoritária prossegue e é cada vez mais acelerada.

Celso Rocha de Barros

Servidor federal, é doutor em sociologia pela Universidade de Oxford (Inglaterra)

Comentário

Por Josias Pires

De fato, a pretensão do governo eleito em 2018 sempre foi criar as condições para o auto-golpe, anunciado por generais e pelo próprio presidente – este, inclusive, falou por telefone, na noite da eleição, cujo som foi transmitido para a avenida Paulista. Confirmado o resultado, anunciou sua disposição de eliminar a esquerda. Todos acreditamos naqueles dias terríveis que nas próximas semanas o céu desabaria sobre todos nós, sobretudo a partir de janeiro.

Mas como dizem que Deus é brasileiro, fomos todos surpreendidos, ainda no mês de dezembro de 2018, antes da posse, portanto, com o rumoroso caso do Queiroz e do filho deputado agora senador. A repercussão do assunto retirou parte da legitimidade para uma blitzkriegernos primeiros dias de governo. O deboche do Queiroz produziu uma crise política que repercutiu intensamente no Carnaval. Enquanto isso, o governo trabalhou nas sombras para fazer a série de decretos de fortalecimento da espionagem governamental, como bem revelou Piero Leirner e Romulus Maya.

O caminho para a montagem de um estado policial vem sendo percorrido desde o impeachment. Esta percepção está presente no imaginário da esquerda e de setores democráticos da população e da imprensa brasileira desde antes das eleições. É uma pauta presente em nossas conversas desde 2016, pelo menos, em todos espaços de lutas políticas no Brasil.

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Neste contexto torna-se indispensável entender o caráter da operação de espionagem em torno da Vaza Jato. Como bem sabemos a espionagem entre atores políticos e econômicos no Brasil cresceu enormemente desde o final da ditadura. Neste momento tornou-se questão relevante saber quem pagou os serviços do hacker de Araraquara, que tem toda a cara de arapuca armada pela espionagem do próprio governo. Contra-informação? Com a palavra a PF. O fato é que a Vaza Jato serviu para rasgar a aura da LJ junto a parcelas influentes da opinião pública, desmontou e trouxe as provas da farsa punitivista armada por Moro.

Alguns ainda afirmam que Moro nada perdeu politicamente com a Vaza Jato. A queda da popularidade, no primeiro momento, está longe do que ainda pode ocorrer. A tendência de queda é alta e depende das verdades que continuarão vindo à tona.  Desmontar o ideário punitivista de Moro assentado no direito penal do inimigo e do MPF agora é tarefa essencial.

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