Balanço da pandemia – que não acabou! Por Dora Incontri

Mas o que podemos já tirar até aqui de lições possíveis desses tempos pandêmicos, que aparentemente se estenderão ainda por meses?

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Balanço da pandemia – que não acabou! Por Dora Incontri

A pandemia não dá sinais de arrefecer. Nova onda na Europa, enquanto aqui nem vencemos a primeira onda. Isso, apesar do negacionismo que grassa em várias partes do mundo, um negacionismo que está  atrelado a uma rejeição da ciência – coisa assustadora, que chega ao extremo do terraplanismo – e que em alguns casos talvez seja uma espécie de defesa psíquica, para não enlouquecer com a realidade que, convenhamos, não está fácil de digerir.

Seja como for, as mortes avançam, os contágios continuam e ainda não há notícias seguras de uma vacina.

Mesmo assim, os interesses econômicos, eleitorais, políticos de grupos se sobrepõem muitas vezes ao respeito à vida.

Mas o que podemos já tirar até aqui de lições possíveis desses tempos pandêmicos, que aparentemente se estenderão ainda por meses?

A primeira delas é o quanto a tecnologia não substitui o toque, o beijo, o abraço, a vibração presencial, mas que bom que temos pelo menos a possibilidade de nos conectarmos através dela. Entretanto, a exclusão digital que ainda atinge milhões (que nem comida têm) no Brasil e no mundo, demonstra o quanto os benefícios civilizatórios que alcançamos nos últimos 100 anos estão injustamente distribuídos e não chegaram à maior parte da população humana.

A segunda e inescapável lição – já muito proclamada nas redes – é que algo que nos é imprescindível é a arte. A arte nos salva, nos consola, nos exprime, nos humaniza. E é tão desprezada pelos radicais de direita e tão desconsiderada na educação, e tão desvalorizada pelo mercado! E quando digo que a arte é vital, não é só a arte a que podemos assistir, consumir, devorar com nossos ouvidos e olhos sedentos – mas a arte que todos podemos produzir. É preciso considerar que todos os seres humanos poderiam e deveriam ter formas de escape estético – seja na feitura de uma poesia, no cantar de uma música, no preparo de um prato bem feito, num bordado, num desenho… A arte é terapêutica.

Terceira reflexão que me parece óbvia: a espiritualidade também salva e consola. É uma âncora de esperança, uma possibilidade de infinito, um olhar acima. Justamente na pandemia, observamos que ela pode e deve ser praticada para além das igrejas e dos centros – ela é íntima, universal, livre. E com tantas notícias de gurus abusivos – o último a ser condenado a 120 anos de prisão é esse tal de Keith Raniere, responsável por toda espécie de crime, inclusive tráfico e escravidão sexual – fica evidente que a espiritualidade tem que ser crítica e não submissa a hierarquias, fechada em seitas, cega pelo fanatismo.

Outra reflexão necessária e aqui me estendo um pouco mais. A educação – esse lugar de heroísmo dos professores, mas de atraso completo em relação ao mundo contemporâneo. Minha maior militância existencial, sem grande sucesso, é verdade, é justamente a mudança da escola e do modo de se fazer educação. A escola é um lugar que costuma ser chato para os alunos, num ensino passivo, engessado, em que tudo está preso pela grade curricular, sem liberdade para escolha de assuntos, para a busca de projetos individuais e coletivos. Os alunos são coagidos a aprender tudo que se lhes impõem, todos na mesma sequência, no mesmo ritmo, com resultados medidos matematicamente, em competição com seus colegas. Desde o Instituto de Yverdon de Pestalozzi, no início do século XIX, à Escola de Summerhill, fundada nas primeiras décadas do século XX e ainda em pleno funcionamento, passando pela Escola da Ponte em Portugal, e outras muitas experiências alternativas, já está sobejamente demonstrado que a melhor escola é onde o aluno tem autonomia, liberdade de escolha, desenvolvimento integral e em interação cooperativa com docentes e colegas. Essa escola que está aí não estimula, não gera interessa e acaba matando a vontade de aprender. Por outro lado, a tecnologia já deveria há muito ter substituído a lousa, o giz, a prova… não o professor. Esse deveria ter sido elevado à condição de tutor, de orientador, de facilitador…

Pois todos esses atrasos se mostraram ainda mais impactantes durante a pandemia. Se houvesse projetos de pesquisa a fazer, escolhidos pelos alunos, ao invés de aulas expositivas e chatas, teriam sido muito mais suaves e prazerosas as aulas pelo Zoom. Vimos professores correndo desesperados para aprender como usar a tecnologia, de que a maioria sempre esteve afastada. Alunos entediados, com as câmeras fechadas, tentando (ou não) acompanhar aulas expositivas, que já são chatas presencialmente, ainda mais à distância.

O desumano e cansativo presencial se tornou muito mais desumano e cansativo on-line, tanto para professores como para alunos.

Assim, quando tudo isso acabar, como seria bom que pudéssemos dar uma guinada na educação. Não para torná-la totalmente on-line. Mas para aproveitarmos saudavelmente o que a tecnologia pode nos oferecer, sem perda do contato humano, porém com mais liberdade, afeto, criatividade e motivação para alunos e professores.

Enfim… em tempos de reflexão de crise, em parada forçada e trabalho e tensão multiplicados, apeguemo-nos ao humano, ao transcendente e ao criativo, para nos reinventarmos em graça e beleza!

 

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2 comentários

  1. Enquanto o Amapá sofre há dias apagão de Enegia Eletrica, o Brasil todo sofre Apagão dos dados da Covid-19. O primeiro em decorrencia do desmonte do setor, o segundo é mais do que deliberado. A midia alternativa ainda nao se tocou. O GGN que faz o acompanhamento impecavel dos dados PRECISA ALARDEAR essa denúncia.

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