Bolsonarismo roubou o discurso revolucionário da esquerda, diz psicanalista que estuda grupos bolsonaristas

"A exposição das ações desse governo desastroso deve sim ser explorada. No entanto, creio que não seja suficiente para mobilizar"

Jair Bolsonaro de terno e gravata, com a bandeira do brasil ao fundo
Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

Rita Almeida é escritora e psicanalista. Há anos, ela frequenta grupos bolsonaristas para fins de estudo. Na quarta-feira (25), Rita compartilhou em seu perfil no Facebook uma análise sobre como o bolsonarismo tomou para si o “discurso revolucionário da esquerda”, um fenômeno que ajuda a explicar como o eleitorado de Jair Bolsonaro se mantém tão engajado e ao lado do líder extremista, mesmo que ele seja o responsável por um governo desastroso e temerário.

Rita chama atenção para a usurpação da visão crítica que a esquerda, historicamente, detinha sobre as instituições da República. E, para além disso, provoca uma autocrítica das esquerdas: “(…) a utopia do retorno de Lula e seus projetos e programas nos colocou numa luta nostálgica, que também envolve uma volta ao passado. Mas e o futuro? Quais são os nossos sonhos e horizontes? (…) Onde estão as nossas utopias? O que desejamos para além de ver o fim desse horror para o qual fomos lançados?”

O GGN reproduz o texto abaixo:

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Para fins de estudo e pesquisa, eu frequento alguns grupos Bolsonaristas no Telegram desde 2020. São espaços extremamente ativos, com intensa interação dos participantes, e cujo principal objetivo é fazer circular publicações sobre política, sempre favoráveis a Bolsonaro e seus aliados. Há pouquíssima tolerância a divergências. Mas, desde o início, o que mais me chamou a atenção nessa imersão foi a constatação de que o Bolsonarismo tomou para si várias pautas que eram historicamente da esquerda, especialmente aquelas de crítica ao chamado establishment (a elite social, econômica e política do país). Também é muito presente por lá o discurso de enfrentamento às instituições, à mídia tradicional e à democracia representativa, além da presença de uma militância mobilizada disposta a ocupar as ruas; tudo que, até então, era monopólio dos movimentos de esquerda.

Não é fácil aceitar e compreender isso, mas a verdade é que o Bolsonarismo tomou para si o discurso revolucionário, de transformação social e crítica das instituições democráticas tradicionais que, até então, sempre foram bandeiras protagonizadas pelas esquerdas. Obviamente que, na prática, Bolsonaro não vem cumprindo suas “promessas revolucionárias”, mas nos grupos Bolsonaristas esse discurso se mantém muito vivo, e por isso, Bolsonaro precisa continuar culpando todo mundo pelo seu fracasso. Se ele não consegue fazer tudo o que prometeu – que é basicamente desconstruir o máximo possível do que a constituição de 88 nos possibilitou avançar nos últimos anos – é porque as superestruturas, legislações, burocracias, governadores, parlamentares e instituições não permitem, o que é verdade. Não fossem essas barreiras de resistência, Bolsonaro já tinha desconstruído e desmontado muito mais coisas. Ou seja, muito se fala das pautas conservadoras que Bolsonaro defende, no entanto, o movimento Bolsonarista não tem nada de conservador, muito pelo contrário.

Compreender que o Bolsonarismo se apresenta para os seus como um discurso revolucionário, pode nos ajudar a entender a potência da adesão das pessoas e este movimento, mesmo diante do fracasso real deste governo. O Bolsonarismo oferece para seus adeptos uma coisa muito importante quando se trata de política, que é a capacidade de sonhar; oferece uma utopia. Podemos questionar o objetivo de tal revolução e o horizonte dessa utopia (se trata de uma utopia regressiva, que promete o retorno a um passado idealizado da ditadura militar), mas não deixa de ser uma utopia. E todos sabemos a força desse tipo de adesão.

Recentemente, recebi de uma colega a fala de uma mulher Bolsonarista que sintetiza muito bem o que eu estou dizendo. Quando questionada sobre o fato de ainda apoiar Bolsonaro diante do caos econômico refletido no preço da gasolina, ela responde: “Não importa o preço da gasolina, o que importa é que não tem mais kit gay na escola.” Esta resposta ilustra bastante o que move a massa bolsonarista em suas redes. Elas não estão ali motivadas por questões do presente; pelo real do preço da gasolina, do gás, da carne, pelos índices de mortalidade da pandemia, pelo desemprego, pelo desastre econômico e social. Elas estão ali em nome de um ideal de Brasil futuro, mas curiosamente, um futuro de retorno ao passado. Eliminar o kit gay (que nunca existiu, mas isso não importa para essa narrativa) significa resgatar um passado mítico, idealizado, supostamente muito mais simples de se entender. Um passado onde havia apenas dois gêneros, onde mulheres simplesmente se submetiam aos homens, onde os trabalhadores e trabalhadoras se contentavam com qualquer tipo de exploração, onde as domésticas não andavam de avião, onde o PT não existia, e os indígenas, pretos e homossexuais se mantinham submissos e silenciosos em seus respectivos túmulos/senzalas/armários.

Frequentar o universo bolsonarista, debater e discutir com as pessoas que lá estão, nos dá a sensação de que eles habitam um Brasil paralelo, diferente do nosso. De certo modo, é isso mesmo que acontece, afinal, a luta política que eles estão travando não é a do cotidiano e suas mazelas sociais e econômicas, mas uma batalha ideológica, cultural, transcendente. Eles estão numa espécie de cruzada de purgação do mal e regeneração do bem, e se sentem agentes importantes e necessários neste processo.

Por outro lado, nós das esquerdas, assumimos um papel extremamente desconfortável nesse jogo de forças. A fúria destruidora dessa extrema-direita reacionária que, obviamente, precisa ser barrada, conseguiu o feito de nos arrastar para o centro, para o discurso conservador de defesa das instituições, da legalidade e das burocracias da democracia liberal, instâncias das quais sempre fomos os críticos. Talvez isso explique nossa pouca potência de mobilização e ausência nas ruas nos últimos tempos, afinal, o que faremos lá além de gritar “Fora Bolsonaro”? Levantar bandeira pelo Ministro Alexandre de Morais? Defender a Constituição de 1988 e seus avanços? Defender a democracia representativa e a urna eletrônica? Onde estão as nossas utopias? O que desejamos para além de ver o fim desse horror para o qual fomos lançados?

Eu entendo que, nessas eleições, a exposição das ações desse governo desastroso e suas consequências para vida real e cotidiana da maioria das pessoas, deve sim ser explorada. No entanto, creio que isso não seja suficiente para mobilizar outros tipos de afetos revolucionários e novas utopias, fundamentais para dar potência e alegria para nossa luta, e trazer para ela novos integrantes. Curiosamente, a utopia do retorno de Lula e seus projetos e programas nos colocou numa luta nostálgica, que também envolve uma volta ao passado. Mas e o futuro? Quais são os nossos sonhos e horizontes? No que desejamos avançar? Que outros afetos buscamos além do medo e ódio? Onde está nossa capacidade de inventar e criar?

Nós, das esquerdas, vamos precisar nos reinventar se quisermos vencer, não apenas as eleições deste ano, mas atravessar essa onda reacionária que nos atropelou. Para isso, precisamos urgentemente sair das cordas, e voltar a sonhar.

Confira a participação de Rita Almeida no Cai Na Roda.

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