Bolsonaro consagra Lula como maior brasileiro da história, por Gustavo Conde

Simplesmente não "pega" falar em corrupção da direita. É semântico: quando a esquerda comete algum desvio de conduta, é corrupção. Quando a direta comete um mal feito, é normal.

Bolsonaro consagra Lula como maior brasileiro da história

por Gustavo Conde

Eu acho uma graça, a palavra “corrupção” ter desaparecido do noticiário.

Ninguém mais fala em corrupção. Sumiu, escafedeu-se, foi extinta.

Quando se acusa algum bandido da elite, o crime é tipificado tecnicamente nas primeiras páginas, inclusive no “jornalismo alternativo”. Aí, ninguém entende, cara pálida.

Por exemplo, se o Luciano Hang pratica corrupção, é “sonegação de impostos”. Se Bolsonaro pratica corrupção, é “rachadinha”. Se Luciano Huck pratica corrupção, é “crime ambiental”.

É um fenômeno, de fato, espontâneo. Simplesmente não “pega” falar em corrupção da direita. É semântico: quando a esquerda comete algum desvio de conduta, é corrupção. Quando a direta comete um mal feito, é normal.

Essa é a materialidade do sentido político compartilhado por todos nós, inclusive os autoproclamados agentes progressistas. É dessa semântica que vem o autoflagelo hegeliano de Safatle e a autocrítica ferina de setores desgostosos com as próprias biografias, instalados no generoso guarda-chuva amplo e compreensivo que é o PT.

É da semântica da esquerda também se autoflagelar – porque há, ali, espírito crítico.

Mas, a rigor, todos somos movidos por uma onda discursiva homogênea e tentacular, cláusula pétrea para o direito de enunciar toda e qualquer sentença em língua humana e política: se o bem ‘vacila’, morte a ele. Se o mal ‘vacila’, é da sua natureza vacilar.

Essa é uma equação que remonta a Jesus Cristo. Talvez, seja o recado de fato embutido na origem da experiência cristã: o bem será crucificado e o mal desfilará soberano como eixo regulador do humano.

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Se tiverdes riqueza, glória e autoestima, serás destruído. Se sofrerdes à miséria e à fome, serás recompensado. O mundo moral e redentor se concentra no plano espiritual e o mundo real reserva-se o direito de ser operado por seres amorais.

Por isso a experiência de Lula no governo é uma sinuca de bico. Ser bom e ao mesmo tempo eficiente e inteligente – e não ‘autoflagelável’ – é uma impossibilidade da língua humana, não da racionalidade (precedida pela primeira).

Bolsonaro é a resposta a esse colapso dos sentidos provocado por uma esquerda eficiente dentro da selva capitalista. O sistema encontrou nele a possibilidade de restaurar a lógica universal da bestialidade humana, para que o circuito da corrupção voltasse a seu estado natural.

Mais adiante, iremos saber – no campo dos estudos da linguagem e do sentido – que a explosão de denúncias de corrupção nos governos Lula e Dilma foi, na verdade, um reconhecimento extraordinário da humanidade e da eficiência chocante desses governos – que a própria esquerda jamais entenderá.

A palavra ‘corrupção’ é o último artifício retórico dos canalhas. É o último recurso para restartar um sistema que começava a fugir de sua função histórica de autoperpetuação.

Usar a palavra ‘corrupção’ para derrubar a sequência delicada da democracia brasileira é, ademais, uma confissão de incompetência: já que não fui capaz de debater com meu adversário, despi-me da fantasia de democrata e parti para o vale-tudo da implosão dos sentidos institucionais.

É essa a razão para estamos, inclusive, em uma espécie de limbo linguístico: há pouco espaço para interpretação ao mesmo tempo em que há uma avalanche de grosserias, insultos e ofensas.

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É o colapso da linguagem (que precede a política, que precede o jornalismo, que precede as instituições – porque a língua é a maior das instituições).

Para ser factual, apenas reitero: o sistema buscou o re-equilíbrio. Ele se recusou a adentrar um novo conceito de conceber o mundo, de acreditar no ser humano, de vibrar com as nossas potencialidades artísticas e inovadoras.

Bolsonaro representa o exato contrário de Lula e do PT: toda a sua monstruosidade, toda a sua pusilanimidade, toda a sua tendência homicida e suicida, toda essa extensão monumental de horror é o espelho invertido dos governos do PT, humanizados, democráticos, transparentes e dotados de ousadia soberana.

O sistema, que fique bem claro, é a linguagem. É a estrutura de sentidos organizados ao longo da história que nos permite enunciar e produzir interações dentro de certos parâmetros que, por sua vez, podem ser suavemente modificados por sujeitos diferenciados como Lula, por exemplo, que constrói um discurso público afiançado em múltiplos lugares de fala, distante das garantias tradicionais de produção de significação.

Lula não vem da academia, das letras, da ciência, do direito, mas edifica sua verdade respeitando todas essas dimensões e se colocando ao lado delas com humildade – mas com a indelével sensação de estar acima de todas, pois enuncia com a força coletiva da palavra, da própria biografia e da história.

É por isso que Lula fala tanto em ‘país’, porque o país, de fato, está dentro de sua identidade mais profunda. País este que, nada mais é que o povo brasileiro, esta entidade tão temida pelos enunciadores de conveniência da elite brasileira, como Luciano Huck, Fernando Henrique Cardoso e Armínio Fraga.

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Todos eles se ressentem de não ter em seus próprios discursos a força persuasiva de Lula. E em vez de tentarem buscar essa força, optaram pelo eterno modo facilitado de estilhaçar debates público: invocaram a palavra ‘corrupção’.

O sistema é autorregulador, mas é também ingrato. Ele não tem lado, ele apenas se movimenta para se autoperpetuar. Quis o destino que nossas bases semânticas fossem a desumanidade e a lógica dos maus perdedores.

Mas Lula mexeu nesse sistema. E só essa ‘mexida’ já abre precedente para muitas outras mexidas no futuro.

É difícil, é demorado, é intimidador, mas é humano.

E, na falta de um líder para cumprir essa tarefa, tenho a obrigação de dizer: Lula, nos seus 74 anos pode abalar o sistema mais uma vez.

Terá o meu apoio.

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1 comentário

  1. Como se diz: abalou Bangu! O Barão de Itararé lacrou: “De onde não se espera é que não vem nada mesmo!”. Os pleonásticos estamentos repetiram enfaticamente a linguagem da burocracia patrimonial. A academia treinou a escola, que treinou a sociedade, que treinou a mídia, que amestrou o cotidiano com pau e prosa. Veja o caso Cid Gomes, emblemático, porque um Cavalcanti levar tiro da polícia é uma excepcionalidade oficiosa, escancarada, explícita, que subverte o esquema sistema binômio freyreano do antagonismo equilibrado: Cavalcanti e Cavalgados. Fosse um jagunço e as coisas estariam nos seus devidos lugares, mas a desarrumação que podemos chamar insideLula, está virando mesmo as coisas pelo avesso. A vitória semântica (Jacques Berquó) do Norte está em transe, ou trânsito.

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