21 de maio de 2026

Brasil: trincheira democrática global ou regresso autoritário?, por Erick Kayser

A ameaça autoritária não depende mais de um único nome; ela opera como campo político, linguagem e disposição social.
Foto de Orlando Brito - Reprodução

O Brasil enfrenta disputa entre manter-se trincheira democrática global ou retroceder ao autoritarismo, com decisão em 2026.
A ascensão da extrema-direita foi impulsionada pela crise econômica e políticas de austeridade entre 2015 e 2018.
Sob Lula, o país resiste à ofensiva autoritária, mas ameaça persiste mesmo com Bolsonaro preso e bolsonarismo ativo.

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Brasil: trincheira democrática global ou regresso autoritário?

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por Erick Kayser

O futuro político do Brasil se resume a uma disputa crucial: o país se manterá como uma trincheira democrática global ou se sucumbirá a um regresso autoritário. Uma disputa de hegemonia com resultado ainda incerto que terá um capítulo decisivo nas eleições de outubro de 2026. Para um esforço de compreensão das reais dimensões desta batalha em curso, condição para prospectar as ações necessárias de forma eficaz, é importante recuperar aqui alguns de seus antecedentes históricos, o que nos auxilia no esforço de captar seus aspectos gerais e dimensionar seu sentido político.

O recente embate entre democracia e autoritarismo floresce sob um terreno onde, institucionalmente e também socialmente, o país constituiu salvaguardas que buscaram impedir o regresso a experiências ditatoriais. Esta “linha de defesa” começou a ser construída em 1988, quando a redemocratização “lenta e gradual” do Brasil chegava ao seu desfecho com a aprovação da chamada Constituição Cidadã. Naquela ocasião, o deputado Ulysses Guimarães, em seu discurso histórico, bradou: “Temos ódio à ditadura! Ódio e nojo”. Nascia a chamada “Nova República”, os militares voltaram para a caserna e o autoritarismo expurgado do palco principal, com seus apologistas sobrevivendo apenas nos subterrâneos da política brasileira, através da brecha proporcionada pela “anistia ampla e irrestrita” que beneficiou os criminosos da ditadura iniciada em 1964. O país viveu o seu mais longo e ininterrupto processo de democracia, mas o “pacto” político que o sustentou por quase três décadas acabou, colocando o Brasil numa situação de prolongado interregno e de disputa aberta quanto aos rumos de seu futuro político.

No entanto, o fim da Nova República não foi uma ruptura anunciada, mas um processo gradual que se galvanizou nas sombras do sucesso dos governos petistas e que tem seu símbolo maior no surgimento, com força eleitoral, de uma extrema-direita herdeira do regime de 1964. Sua ascensão foi possibilitada na esteira dos efeitos da crise econômica global iniciada em 2008, que passou a atingir o país especialmente a partir de 2011, com o fim do superciclo das commodities e o aprofundamento da desindustrialização do país. A resposta dada pela então presidenta Dilma Rousseff a este cenário adverso no seu segundo mandato, foi de apostar, em 2015, em uma guinada para políticas de austeridade neoliberais. O resultado foi ruinoso: a crise se aprofundou, o recuo neoliberal corroeu a base de apoio do governo petista, abrindo espaço para o retorno do autoritarismo ao palco principal da política brasileira.

Este projeto ditatorial acumulou uma série de vitórias políticas, em uma sucessão dramática de eventos que vão do golpe parlamentar que promoveu o impeachment da presidenta Dilma em 2016, a prisão arbitrária de Lula em 2018 e a eleição de Bolsonaro na presidência do Brasil naquele mesmo ano. Esta guinada autoritária foi apoiada e incentivada por diversos segmentos, como no mercado financeiro, de setores do chamado agronegócio, mídia, judiciário, das forças armadas, entre outros. Contudo, as fragilidades e contradições internas desta aliança, o péssimo desempenho do governo bolsonarista, além de uma crescente resistência popular, precipitaram a interrupção do projeto de fechamento democrático do país. A liberdade de Lula e sua vitória nas eleições presidenciais de 2022 representaram um triunfo democrático. Contudo, a intentona golpista de 8 de janeiro de 2023 em Brasília foi um violento aviso de que o “fantasma da ditadura” ainda não estava sepulto.

Ampliando nossa análise para além do cenário local, percebe-se que o momento atual coloca o Brasil em uma situação singular. Em um mundo onde a democracia liberal deixou de ser horizonte compartilhado para tornar-se exceção sitiada, a deriva autoritária já não se apresenta como ruptura espetacular, mas como erosão contínua. O trumpismo — agora menos como idiossincrasia pessoal e mais como ideologia política — indica o caminho: captura das instituições, normalização da violência simbólica, instrumentalização permanente da mentira. Bukele, em El Salvador, mostrou que é possível converter esse método em regime acabado, combinando hiperpopularidade, estado de exceção permanente e esvaziamento da legalidade. É nesse cenário que o Brasil, paradoxalmente, se converteu numa das principais trincheiras democráticas globais: não por virtude moral, mas por ter se tornado um dos poucos lugares onde a ofensiva autoritária foi derrotada nas urnas e contida, ainda que precariamente, pelas instituições.

Sob a liderança de Lula, o país tem operado uma resistência que é menos triunfal do que defensiva. Trata-se de recompor o mínimo institucional necessário para impedir a consolidação de um regime iliberal, ao mesmo tempo em que se enfrenta uma extrema-direita socialmente enraizada, culturalmente mobilizada e internacionalmente articulada. O lulismo, nesse sentido, não aparece como projeto expansivo de democratização, mas como dique histórico: um esforço de contenção que evita que o Brasil siga o roteiro já ensaiado em outras latitudes. A estabilidade que emerge daí é frágil, permanentemente ameaçada, mas suficiente para deslocar o país ao centro de uma disputa que ultrapassa em muito suas fronteiras nacionais.

É justamente por isso que as próximas eleições presidenciais assumem um peso que não pode ser subestimado. Ainda que Jair Bolsonaro (a principal liderança da extrema-direita) esteja preso, o bolsonarismo permanece como força política ativa, difusa e potencialmente majoritária. A ameaça autoritária não depende mais de um único nome; ela opera como campo político, linguagem e disposição social. O que estará em jogo, portanto, não é apenas a continuidade de um governo, mas a manutenção do Brasil como uma das últimas linhas de defesa contra a onda desdemocratizante global. Se essa trincheira cair, o impacto não será apenas doméstico: será mais um sinal de que, no século XXI, a autocracia deixou de ser desvio para se tornar norma.

Erick Kayser é historiador

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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