21 de maio de 2026

Sequestro de Maduro e a Geopolítica da Barbárie, por Erick Kayser

O que testemunhamos é a substituição das normas do Direito Internacional por uma "Pax Americana" regenerada pela violência ostensiva
Reprodução

Os EUA sequestraram o presidente Nicolás Maduro, violando a soberania da Venezuela e usando força militar direta.
A ação dos EUA visa controlar as reservas petrolíferas venezuelanas, segundo declaração explícita de Donald Trump.
Reações internacionais incluem condenações e fragilização de alianças, enquanto movimentos sociais resistem à intervenção.

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O Sequestro de Maduro e a Geopolítica da Barbárie

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por Erick Kayser

A agressão militar desferida pelos Estados Unidos contra a Venezuela, culminando no sequestro e na extradição forçada do presidente Nicolás Maduro para solo norte-americano, não é apenas um episódio isolado de intervenção, mas o epitáfio definitivo de uma ordem internacional que outrora fingia zelar pela soberania das nações. Ao operar sob a lógica do “arrombamento” doméstico em escala global, Washington abandona as sutilezas da diplomacia e das sanções econômicas para adotar a força bruta como ferramenta primária de gestão regional.

Este espetáculo de força não busca apenas um objetivo tático; ele encena, de forma deliberada e teatral, o colapso definitivo da ordem internacional baseada em normas, soberania e direito. O que testemunhamos é a substituição das normas do Direito Internacional por uma “Pax Americana” regenerada pela violência ostensiva, onde a figura de um mandatário estrangeiro é tratada não como um representante soberano, mas como alvo em uma operação de caça.

Este evento sinaliza a emergência de uma fase da geopolítica marcada pela “selvageria do mais forte”, em que a assimetria de poder militar é convertida em licença para o arbítrio total. Ao capturar um chefe de Estado em exercício, os EUA sepultam qualquer veleidade democrática ou discurso sobre a “defesa das instituições”, revelando que a única instituição verdadeiramente respeitada é o poder de fogo de suas esquadras e drones. A arquitetura de segurança global, que já cambaleava sob o peso de conflitos na Eurásia e do genocídio em Gaza, agora desaba no Caribe, evidenciando que, na nova desordem mundial, o território alheio é apenas uma extensão do campo de manobra do império.

A franqueza brutal de Donald Trump ao comentar a operação remove as últimas máscaras ideológicas que costumavam revestir tais intervenções. Diferente de seus predecessores, que invocavam a “restauração da democracia” ou a “ajuda humanitária” para justificar golpes, o atual ocupante da Casa Branca admitiu explicitamente que o objetivo central é o controle direto das maiores reservas de óleo do planeta. Em suas próprias palavras, a intenção era “pegar todo aquele petróleo” que, na visão de Washington, foi “roubado” pelas nacionalizações venezuelanas, tratando o recurso natural de um país soberano como um ativo corporativo a ser reintegrado ao balanço de pagamentos das petroleiras estadunidenses.

Historicamente, essa postura representa o retorno do colonialismo em sua forma mais nua e crua, despido de qualquer verniz civilizatório. A mensagem enviada ao Sul Global é pedagógica e sinistra: a autodeterminação é uma concessão revogável, e a riqueza nacional de um país só é permitida enquanto estiver à disposição dos interesses do capital do Norte. O sequestro de Maduro, portanto, não buscou o fim de um regime, mas tem o objetivo de criar um protetorado energético estabelecido sob a mira de fuzis, onde a legalidade internacional é substituída pelo código de conduta das gangues de pirataria, agora elevadas ao status de política externa oficial.

As repercussões imediatas desnudam a arquitetura deste novo mundo. A condenação veemente de potências como Rússia e China, aliados tradicionais de Caracas, e de nações latino-americanas como Brasil e Colômbia, esbarra na sua incapacidade de ação efetiva. Em contraste, a hesitação calculada da União Europeia e de aliados tradicionais dos EUA evidencia o desvanecimento de um bloco outrora coeso em valores democráticos compartilhados. O evento testa e fragiliza as alianças tradicionais, enquanto solidifica eixos com governos de direita nacionalista e ideologicamente alinhados, como os de Argentina e El Salvador. A comunidade internacional, paralisada, assiste à soberania venezuelana ser violada e seu presidente, apresentado como troféu de guerra, encarcerado em solo estadunidense. A ordem liberal, se é que algum dia existiu além da retórica, mostra-se um fantasma impotente.

Contudo, a história ensina que a consolidação da barbárie encontra seu principal obstáculo não nos gabinetes diplomáticos, mas na resiliência inegociável dos movimentos sociais e das bases populares. A resistência democrática, ao transbordar as fronteiras nacionais e ocupar o espaço público, atua como um curto-circuito na tentativa de normalizar a violência imperial, reafirmando que a soberania não é uma concessão de potências estrangeiras, mas um exercício coletivo de dignidade. É nesse terreno da mobilização — onde a subjetividade política se recusa a ser reduzida ao papel de espectadora — que se trava a disputa fundamental: contra o fatalismo da força bruta, levanta-se a força da memória e da organização popular, única barreira capaz de impedir que o arbítrio se torne a gramática definitiva e aceita das relações humanas no século XXI.

Erick Kayser é historiador

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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