Caio Ribeiro, o censor, por Rafael Molina Vita

Parece que Caio Ribeiro quis ser mais realista do que o rei, e perdeu o timing da linha editorial da emissora

Caio Ribeiro, o censor

por Rafael Molina Vita

Na semana passada, Caio Ribeiro, ex-jogador e atualmente comentarista da Rede Globo, criticou o ídolo são-paulino Raí em razão de suas críticas ao governo Bolsonaro: “Eu não gostei do discurso do Raí porque ele falou muito sobre política”.

É importante lembrar que Raí expressou sua opinião como cidadão, não como diretor do São Paulo. Ele tem todo o direito de se manifestar sobre qualquer assunto, segundo a Constituição Federal. Em uma declaração infeliz, Caio revelou o desejo de censurar, de determinar o que uma figura pública deve ou não discutir. E o comentarista da Globo não pode alegar desconhecimento da lei, já que é um dos poucos ex-jogadores provenientes da classe média em nosso país. Teve acesso ao capital econômico e cultural necessários para uma análise crítica da situação.

Esse episódio demonstra que no Brasil a censura é privatizada, ou seja, não é mais o Estado, através de seus agentes, que interdita o debate público, mas as grandes empresas de comunicação. Elas pautam a agenda pública (o que vai ser discutido) e não permitem a diversidade de opiniões sobre temas de relevância para a vida da população em geral. Tivemos um exemplo flagrante dessa censura no debate sobre a Reforma da Previdência: toda a grande mídia se uniu em favor do desmonte do sistema previdenciário, como uma medida necessária para o país não “quebrar”.

A rede Globo, grupo de comunicação mais poderoso do país, tem no seu DNA o desprezo pela democracia, desde o apoio aos golpes contra Getúlio Vargas e João Goulart até o impeachment sem crime de responsabilidade em 2016. Personagens cujas posições não agradem aos interesses da empresa, são perseguidos ou simplesmente ignorados. Segundo Leonel Brizola, Roberto Marinho utilizava métodos stalinistas, enviando seus desafetos à “Sibéria do esquecimento”.

As emissoras de rádio e TV são concessões públicas que, segundo a Constituição Federal, devem dar preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas. Ao invés disso, violam a liberdade de expressão ao isolar as vozes divergentes. É um método de censura mais sofisticado e eficaz do que qualquer ditadura do passado. Precisamos lutar pela efetivação do Direito Humano à Comunicação no Brasil: acabar com os oligopólios e democratizar a mídia para que todos tenham o direito de se fazer ouvir.

Neste caso, parece que Caio Ribeiro quis ser mais realista do que o rei, e perdeu o timing da linha editorial da emissora, que vem assumindo sua oposição ao governo Bolsonaro, e (pasmem!), após um longo inverno siberiano, concedeu um pequeno espaço a líderes de centro-esquerda neste primeiro de maio. Segundo relatos, a manifestação do comentarista pegou mal entre colegas da emissora.

Parabéns ao Raí, ídolo incontestável do São Paulo, que não se omitiu em um momento tão grave na história mundial, e se opôs a volta dos jogos de futebol nesse momento. Esporte e política são interligados, e ele, apesar dos interesses econômicos em jogo, priorizou a vida, a saúde das pessoas. O “pivete” [1], filho do Seu Raimundo e irmão do Dr Sócrates, honrou suas origens.

Rafael Molina Vita – formado em Direito, mestre em políticas públicas, membro da ABJD.

Referências:

Cardoso, Tom. Sócrates: A história e as histórias do jogador mais original do futebol brasileiro-1. Ed. – Rio de Janeiro: Objetiva, 2014;

https://www.terra.com.br/esportes/lance/critica-de-caio-ribeiro-sobre-comentarios-de-rai-nao-caiu-bem-nos-bastidores-da-globo-diz-site,06320efaa30579477ea239112fef6042t9w3tnj6.html

[1] Apelido dado por Sócrates ao irmão mais novo.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora