10 de junho de 2026

China e Rússia Reagem ao rearmamento de Takaichi, por Maria Luiza Falcão

Japão ampliou gasto militar, flexibilizou interpretações constitucionais, expandiu alianças e sugere até mesmo intervenção militar em Taiwan
Sanae Takaichi - Reprodução do South China Morning Post

A Nova Tempestade Asiática: China e Rússia Reagem ao rearmamento de Takaichi

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por Maria Luiza Falcão Silva

A geopolítica asiática vive hoje uma inflexão que quase não tem paralelo desde o fim da Segunda Guerra Mundial. As tensões que emergem no Indo-Pacífico não são apenas militares: são históricas, simbólicas e civilizacionais. A reunião de alto nível entre China e Rússia essa semana, em Moscou, na qual os dois países reafirmaram a defesa “intransigente do legado da vitória antifascista”, não é um ritual diplomático. É um sinal, um alerta. Uma resposta estruturada ao que Pequim e Moscou interpretam como o avanço de um revisionismo perigoso e, sobretudo, à guinada agressiva do Japão sob a liderança da primeira-ministra Sanae Takaichi, a “nova Thatcher da Ásia”.

Enquanto Xi Jinping busca consolidar uma visão de segurança compartilhada, multilateralismo renovado e estabilidade regional, Takaichi representa o movimento oposto: um rearmamento acelerado, uma retórica nacionalista crescente e a disposição explícita de inserir o Japão no centro das tensões envolvendo Taiwan. Para China e Rússia, a combinação é explosiva, e lembra um passado que as duas potências se recusam a permitir que retorne.

O Retorno do Fantasma: Militarismo Japonês como Risco Estrutural

Na terça-feira (2/12), em Moscou, Wang Yi e Sergei Shoigu presidiram a 20a rodada de consultas de segurança estratégica entre a República Popular da China e a Federação Russa.

A declaração conjunta de Wang Yi — Ministro das Relações Exteriores da China e   responsável pela formulação estratégica da política internacional da China junto a Xi Jinping — e Sergei Shoigu — Secretário do Conselho de Segurança da Federação Russa, o órgão que formula a doutrina militar e estratégica da Rússia e aconselha diretamente Vladimir Putin, reafirmou que ambos os países “se oporão resolutamente a qualquer tentativa de reviver o fascismo ou o militarismo japonês”.

O documento, amplamente comentado nas mídias dos dois países, ecoa mais do que memórias de guerra. É, hoje, o eixo de uma nova disputa pela interpretação legítima do pós-guerra. Pequim e Moscou percebem no Japão de Takaichi não apenas um ator alinhado aos Estados Unidos (EUA), mas um país que está rompendo consensos fundamentais estabelecidos após 1945.

O Japão, que durante décadas cultivou a imagem de potência pacifista, virou uma engrenagem central da estratégia norte-americana de contenção à China. Mas agora avança por conta própria: ampliou gasto militar, flexibilizou interpretações constitucionais, expandiu alianças e sugere até mesmo intervenção militar em caso de conflito em Taiwan — uma linha vermelha histórica para Pequim.

Do ponto de vista chinês, não há paradoxo: trata-se da volta de um ator que nunca lidou plenamente com sua herança colonialista e que convive, até hoje, com grupos políticos que relativizam crimes de guerra e exaltam o passado imperial. Sob Takaichi, essa sombra parece ganhar luz.

A “Nova Thatcher da Ásia”: Nacionalismo, Rearmamento e a Ruptura com o Pós-Guerra

Sanae Takaichi ascende em 2025 como uma liderança que se apresenta moderna, reformista e determinada, mas cuja agenda rompe com a essência da Constituição pacifista do Japão. Em muitos sentidos, sua figura política funciona como uma Thatcher asiática: assertiva, ideologicamente rígida, produtora de divisões e convencida de que sua missão histórica é restaurar um protagonismo militar perdido.

Essa postura colide diretamente com a filosofia geopolítica de Xi Jinping. Enquanto a China aposta em integração econômica, estabilidade e narrativas de “destino comum para a humanidade”, o discurso de Takaichi reacende a lógica de esferas de influência e alianças armadas. Para Pequim, esse contraste não é apenas teórico: é ameaça material.

É por isso que China e Rússia decidiram, neste momento, usar a memória da Segunda Guerra como instrumento diplomático. Juntos mandam uma mensagem a Tóquio, mas também aos EUA e à opinião pública internacional:
o revisionismo histórico japonês não é um debate acadêmico. É um vetor de instabilidade real.

A Ordem Pós-1945 em Disputa: Quem Tem o Direito de Dizer o que Foi a Segunda Guerra?

O centro da disputa geopolítica entre as grandes potências deslocou-se para o terreno da história. Não se trata apenas de quem controla o presente, mas de quem tem autoridade moral para definir o passado.

Para China e Rússia, o pós-guerra não é um simples marco jurídico. É uma memória existencial:

  • são países que perderam dezenas de milhões de vidas;
  • foram protagonistas diretos da derrota do fascismo;
  • pagaram o preço mais alto na luta contra regimes expansionistas.

Portanto, quando Tóquio flexibiliza sua política de defesa, Pequim e Moscou respondem não com tecnicalidades, mas com a força simbólica de 1945. Essa é uma narrativa poderosa porque associa o rearmamento japonês a um desvio moral e não apenas a uma decisão militar.

Taiwan como Epicentro da Crise

Quando Shoigu afirma que Moscou apoia “firmemente” a posição chinesa sobre Taiwan, ele envia um recado claro: o tema, que era visto sobretudo como disputa sino-americana, tornou-se questão de alinhamento geopolítico maior.

A fala de Takaichi sobre possível intervenção japonesa em uma “contingência de Taiwan” foi a gota d’água para Pequim. O Japão, protagonista histórico do expansionismo asiático, declarar-se disposto a atuar militarmente em um conflito envolvendo território considerado parte da China, soa — aos olhos chineses — como repetição de um padrão histórico que o mundo prometeu jamais repetir.

É por isso que a coordenação sino-russa está cada vez mais explícita: ambos querem evitar que Taiwan se transforme na Sarajevo do século XXI.

A Multipolaridade em Maturação: União Sino-Russa como Arquitetura de Contenção

O que emerge dessa conjuntura é a consolidação de um eixo sino-russo mais coeso do que em qualquer momento desde os anos 1950. Não se trata de uma aliança formal, mas de uma convergência estratégica impulsionada pelas ações de terceiros — EUA, Japão, OTAN.

O rearmamento japonês funciona, paradoxalmente, como combustível dessa convergência. Moscou vê em Tóquio um país alinhado a Washington em sua política de cerco ao território russo no Pacífico Norte. Pequim vê um possível agressor histórico renascido. E ambos veem, no sistema internacional, uma ordem que necessita ser defendida para evitar o colapso.

O Passado Não Passou — Ele Voltou ao Centro da Geopolítica

A reunião em Moscou não foi um gesto protocolar. Foi a formalização de uma leitura comum: o mundo presencia o retorno de velhos fantasmas, e o Japão está, novamente, no centro das inquietações regionais. A diplomacia da memória está de volta.

Para China e Rússia, o rearmamento japonês liderado por uma primeira-ministra com traços de “nova Thatcher” representa um deslocamento perigoso na arquitetura de segurança asiática. E é por isso que ambas decidiram transformar o legado da Segunda Guerra em bandeira política, como forma de conter o revisionismo, isolar comportamentos considerados provocativos e reafirmar seu papel no centro da ordem global.

A mensagem é clara:
a história não é um campo neutro. É um terreno politizado do século XXI.

Maria Luiza Falcão Silva – MSc em Economia (University of Wisconsin–Madison), PhD (Heriot-Watt University), Professora aposentada da Universidade de Brasília (UnB), membro da ABED e do Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC/NEASIA).

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Maria Luiza Falcão Silva

Maria Luiza Falcão Silva – MSc em Economia (University of Wisconsin–Madison), PhD (Heriot-Watt University), Professora aposentada da Universidade de Brasília (UnB), membro da ABED e do Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC/NEASIA).

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4 Comentários
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  1. Daniel Estevão

    7 de dezembro de 2025 9:15 pm

    Parem de falar merda! Numa guerra não tem nenhum santo em nenhum dos lados! Do jeito que falam nem parece que foi em solo japones que foram lançadas bombas nucleares!

    1. Milton

      8 de dezembro de 2025 9:49 am

      A História mostra claramente que o Japão foi um país agressor, tanto na China como na Coreia. Na II Guerra atacou os Estados Unidos,sem declaração de guerra, em Pearl Harbor e depois se espalhou pelo Pacífico. Há filmes aos montes sobre estes fatos. Agora se faz títere dos EUA em suas manobras contra a China. Taiwan sempre foi território chines. A Russia já tocou o alerta sobre o expansionismo japonês no Pacífico norte. Será que o Japão irá repetir os erros da Ucrania ? Lá os EUA pretenderam colocar foguetes com atômicos na fronteira com a Rússia. Acordos anteriores já tinham eliminado a manobra de cerco americano . O títere Zelenski se arriscou e agora paga com territórios o preço da burrice.

  2. Beti

    8 de dezembro de 2025 11:41 am

    O mundo nao precisa de armas! Precisa de Paz e muito amor!!!

  3. JOSE OLIVEIRA DE ARAUJO

    10 de dezembro de 2025 7:56 am

    Tem um dito popular, que não se deve cutucar uma onça com vara curta. A insane primeira ministra japonesa resolveu cutucar o dragão chinês, e sem vara. Será que a elite japonesa imagina que vão repetir os massacres que promoveram na China?

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