Ciência fundamental, por Gustavo Gollo

O conhecimento básico, fundamental, está por baixo de tudo o que acreditamos, impossível não ser assim. Quanto mais fundamental, menos óbvio e mais relevante é qualquer conhecimento

O conhecimento em geral, e mais especialmente a ciência, pode ser representado por uma pirâmide, na qual a base sustenta o topo. Nesse caso, a base da pirâmide representa o conhecimento básico, ou fundamental, enquanto as partes mais próximas ao topo da pirâmide representam o conhecimento aplicado, superficial, assentado sobre a base.

Aos olhos dos tolos, pode parecer que tudo o que interessa seja o conhecimento superficial aplicado, ou de alto nível, representado no topo da pirâmide, que tem uma utilidade muito mais óbvia e uma visibilidade muito mais clara que o conhecimento profundo, de mais baixo nível. Pensam tais tolos, que o conhecimento possa pairar no ar, sem bases sólidas que o fundamente, que o suporte.

Não é necessária uma muito grande capacidade de compreensão para se perceber a importância dos fundamentos de qualquer conhecimento que se tenha por relevante; o desconhecimento de tais fundamentos impede, por exemplo, aperfeiçoamentos e inovações de suas aplicações – como aperfeiçoar algo que não se compreende?

Um exemplo simples e drástico pode ser dado pelos computadores. Quase todas as pessoas, hoje, sabem ligar um computador, ou um telefone inteligente – um computador de mão –, e executar funções elementares, de alto nível (superficiais), como dominar o windows, acessar aplicativos e suas principais funções. Pouquíssimos, no entanto, têm alguma ideia do que se passa no interior desses objetos percebidos pela maioria como caixas mágicas.

Quando entrei na escola, costumávamos rir da história de Caramuru, um português que teria ludibriado os índios disparando um tiro de garrucha, revelando-se assim, aos olhos das criaturas tolas, o Deus do trovão. A história tinha forte apelo humorístico para crianças muito jovens. Nossas caixas mágicas assemelham-se à arma de Caramuru.

Em 2013, Edward Snowden denunciou ao mundo os programas de vigilância massiva efetuados pelos EUA através de telefones e computadores. Os brasileiros em geral, incluindo aí os altos escalões da Petrobrás, do judiciário e de todo o governo e empresas, tendem fortemente a não acreditar em tais denúncias, reputadas por aqui como teorias de conspiração. Tente falar, por exemplo, sobre as táticas de guerra híbrida desenvolvidas pelos EUA para desestabilizar governos incômodos e promover golpes de estado, ou engolir suas petrolíferas e destruir empresas tecnológicas e perceberá a profundidade da inculcação de tal descrença.

Tempos depois de alardeada a denúncia, o mesmo Snowden se surpreendeu com o fato de que Dilma Roussef não houvesse tomado providências básicas para evitar a espionagem. Snowden sabia que computadores e telefones não são caixas mágicas. Em filmes americanos, os índios nunca conseguem compreender fatos como esse, sendo representados sempre de maneiras ridículas. Sistemas baseados em inteligência artificial analisam, preveem e delineiam o comportamento das pessoas com mais precisão que elas próprias, com respeito ao que quer que interesse aos espiões, mas informações como essa nos soam apenas conspiratórias. Os que compreendem o funcionamento das tais caixas mágicas percebem com naturalidade a imensa extensão que um sistema de espionagem pode alcançar.

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O conhecimento sobre programação de computadores, embora menos superficial que o uso do windows e aplicativos em geral, não chega a consistir conhecimento básico, consistindo em conhecimento tecnológico relativamente superficial.

A computação foi desenvolvida, originalmente, como um ramo da matemática. Sem tal conhecimento não existiriam computadores, nem telefones inteligentes. Virtualmente toda a tecnologia existente deriva de conhecimentos científicos prévios que a fundamentam, que serviram como base de apoio para seu desenvolvimento. O conhecimento dessa sustentação facilita enormemente a compreensão e o alcance das aplicações superficiais executadas pelas pessoas.

O tema me faz lembrar uma história já antiga:

O estranho caso dos ventiladores do PC

Um técnico/vendedor de computadores vinha tendo problemas com os PCs que vendia; as novas máquinas vinham superaquecendo devido, supunha ele, à enorme potência dos novos processadores que, por essa razão, aqueciam excessivamente e paravam de funcionar.

A solução implementada pelo técnico foi bastante óbvia: acrescentar mais um ventilador à caixa da máquina. Apesar da providência, os novos modelos continuavam superaquecendo. Passou então a vender computadores sempre com dois ventiladores que, mesmo assim, continuavam esquentando excessivamente, o que o levou a desejar e esperar que as novas caixas viessem com um terceiro “buraco” para o encaixe de mais um ventilador.

Quando uma usuária me informou estar tendo o problema de suoeraquecimento em seu computador recém-comprado, apesar dos 2 ventiladores nele instalados, perguntei-lhe de que modo eles haviam sido dispostos, se jogavam o ar para dentro, ou para fora. A dona do PC se sentiu meio insultada pela pergunta, respondendo-me que, obviamente, ambos jogavam ar para dentro da caixa, já que o intuito era resfriá-la. Sugeri-lhe então trocar o sentido de um dos ventiladores, invertendo a face do ventilador de cima de modo a fazê-lo jogar o ar para fora.

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A moça indignou-se com o que lhe parecia uma completa insensatez — e vou direcionar o ventilador para esfriar o lado de fora? Só consegui convencê-la a fazer o teste ao prontificar-me a executar uma magia que garantisse o bom funcionamento, ao final da operação.

Tendo invertido um dos ventiladores, fui convocado para jogar sobre a máquina a magia que garantiria o seu funcionamento. Então, frente ao computador, em meio a gestos teatrais inspirados no estilo de trogloditas televisivos proferi as palavras mágicas: Urucuca! Urucuca! (Suspeito que tal exigência tenha sido necessária mais para justificar a providência obtusa de esfriar o lado de fora, que por confiança nos poderes mágicos do Heresiarca).

Após um ou dois dias sem problemas de aquecimento, a incrédula concluiu que o processador de algum modo consertara-se sozinho, (descabida a hipótese de que a inversão de um dos ventiladores, posto para “resfriar o lado de fora”, tivesse corrigido o problema). Em vista disso, e em consonância com certo convencionalismo, decidiu, então, repor mãos à obra e retornar o ventilador à posição original, “correta”, jogando o ar para dentro da caixa. Coincidentemente, e de maneira surpreendente, o PC voltou a apresentar problemas de aquecimento e desligar fora de hora.

Tendo sido informado do retorno do problema, vi-me obrigado a responder, meio consternado, não saber mais o que sugerir, dado que a inversão do ventilador não funcionara. Para minha surpresa, ela disse que parecia ter funcionado, sim, e que enquanto o ventilador esteve jogando o ar para fora, “resfriando o lado de fora” o PC não apresentou problema, voltando a esquentar após o retorno ao estado original.

Tive então que usar uma certa autoridade, além da consagrada máxima: “em time que está ganhando não se mexe”, para exortá-la a retornar um dos ventiladores à posição invertida. Tendo a ação surtido o resultado esperado, corrigindo o problema, a incrédula ainda decidiu testar a hipótese absurda, retornando, uma vez mais, os ventiladores à posição original, supostamente correta, ventilando, ambos, para dentro da máquina.

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Flagrei-a consertando outra vez o computador, invertendo um dos ventiladores para finalizar a ação absurda pronunciando a palavra mágica “Urucuca”, utilizada anteriormente por mim que, ao ouvi-la no novo contexto, comentei divertido: – Iiiihhh, tem até urucuca, é?

Fui informado, então, de que, obviamente, a solução do problema tinha sido obtida através do procedimento mágico cujo cerne consistia na pronúncia da palavra “urucuca”, ritual auxiliado pela inversão absurda de um dos ventiladores que, desse modo, passava a resfriar o lado de fora (a hipótese de que apenas a pronúncia da palavra mágica fosse suficiente já havia sido testada).

Foi só então, talvez devido ao tom zombeteiro que não pude deixar de usar, que a incrédula atentou para minha explicação exposta várias vezes anteriormente: não se tratava de “resfriar o lado de fora”, mas de aumentar o fluxo de ar na caixa. O resfriamento é dado pelo fluxo de ar que o segundo ventilador acabava por impedir quando ambos jogavam o ar para dentro. A inversão de um deles, restabelecia e ampliava o fluxo de ar dentro da caixa, resfriando o PC eficientemente.

Soube posteriormente que o uso da palavra mágica urucuca havia se difundido pela cidade, como uma espécie de dança da chuva efetuada com o propósito de resfriar computadores, em consonância ao uso de ventiladores invertidos.

Nossa compreensão do mundo, de todas as coisas superficiais que nos rodeiam, é sempre fundamentada pelas crenças básicas que as sustentam, consideração inescapável. O conhecimento básico, fundamental, está por baixo de tudo o que acreditamos, impossível não ser assim. Quanto mais fundamental, menos óbvio e mais relevante é qualquer conhecimento.

O desconhecimento dos fundamentos que regem o funcionamento das coisas à nossa volta expõem-nos às mais rematadas tolices.

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Gustavo Gollo é multicientista, multiartista, filósofo e profeta

 

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