Com Dilma, por uma nova política econômica, por J. Carlos de Assis

Com Dilma, por uma nova política econômica, por J. Carlos de Assis

Tenho sido radicalmente contrário à política econômica em curso. Sou igualmente contrário à proposta golpista de impeachment de Dilma. Portanto, minha luta – e acredito que seja a de milhões de brasileiros – não é simplesmente a de impedir o golpe mas, sobretudo, a de aproveitar o momento político crítico que o país atravessa para assegurar a mudança da política econômica de forma radical. Estamos em contração do PIB, caminhando para uma taxa negativa de 5%, e em processo de aumento do desemprego. É preciso contra-atacar logo.

Parte da opinião pública, envenenada pela mídia partidária e golpista, pode ter a ilusão de que o impeachment seja uma solução para os nossos problemas econômicos. É preciso deixar muito claro para a sociedade que essa mesma mídia é abertamente favorável às políticas econômicas adotadas desde 2011, sob inspiração neoliberal, e aprofundadas nos anos recentes. E com maior radicalidade pelo ministro Joaquim Levy, com seu ajuste tresloucado, justamente para acalmar os neoliberais. Na confusão política, isso tem sido omitido.

A sociedade se informa sobretudo pela grande mídia impressa e pela televisão, e em escala menor pela internet. Esta é um território democrático e, graças a ele, muita gente pode escapar da manipulação midiática. Contudo, também o instrumento da internet foi parcialmente apropriado pelos monopólios e oligopólios jornalísticos e televisivos deixando pouco espaço para a informação independente. Em razão disso, há pessoas que, influenciados pela grande mídia, que acham que impeachment resolverá os problemas econômicos do Brasil.

Vejamos, porém, os cenários possíveis. Uma vez afastada a Presidenta, assume Michel Temer. Quem é Temer? Do ponto de vista econômico ele se coloca ainda mais à direita de Dilma se tomarmos como referência o texto “Uma ponte para o futuro”, que ele patrocinou em nome do PMDB. Entre outras propostas ali apresentadas, destaca-se a desvinculação dos recursos orçamentários para saúde e educação, o que os reduzirá na prática, constituindo o primeiro ataque em larga escala depois de 88 aos direitos sociais garantidos pela Constituição.  

Em termos econômicos, Temer é muito mais próximo dos neoliberais do que dos desenvolvimentistas. Se não mantivesse Levy na Fazenda, certamente colocaria ali alguém igual ou pior (se houver) que Levy. Na altura em que assumisse o país estaria em aberta conflagração, perto de uma guerra civil, o que impediria na prática qualquer tipo de política racional por muito tempo. Politicamente, ou ele se rendia completamente à atual oposição, remetendo para o lugar dela a atual situação, ou também sofreria impeachment.

Suponhamos agora que Temer também seja impedido. Nessa altura, Eduardo Cunha já terá sido cassado e, pelo menos nesse caso, nos teremos livrado de um bandido na linha sucessória imediata. De qualquer modo o presidente da Câmara não seria muito relevante pois teríamos que ir para novas eleições presidenciais as quais ele deveria presidir. Com tanta água correndo debaixo da ponte, a economia, já em contração hoje, entraria em estado de coma. Daí em diante deixo à imaginação de vocês o que poderia acontecer. Eu desisto.

Para todos os efeitos, portanto, é melhor resistir ao impeachment, manter Dilma no poder e negociar com ela uma mudança na política econômica. Esse é o propósito da “Aliança pelo Brasil”, que o senador Roberto Requião e outros dirigentes políticos, empresariais, trabalhistas e intelectuais estão articulando. A Aliança estará direcionada sobretudo para aqueles que, de boa fé, e tão decepcionados com a atual política econômica quanto eu, estão empenhados em não deixar que o país seja entregue a um bando de irresponsáveis e golpistas.

J. Carlos de Assis – Jornalista e economista, doutor pela Coppe/UFRJ, autor de “Os Sete Mandamentos do Jornalismo Investigativo”, Ed. Textonovo, SP.

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9 comentários

  1.  “É preciso deixar muito

     “É preciso deixar muito claro para a sociedade que essa mesma mídia é abertamente favorável às políticas econômicas adotadas desde 2011, sob inspiração neoliberal, e aprofundadas nos anos recentes.”

     

    Quer dizer que, para o articulista, o controle do preço da gasolina e da luz é exemplo de política neoliberal?

  2. Concordo com o Professor

    Concordo com o Professor Assis em aproveitarmos o momento para propor mudanças econômicas. Mas que nosso apoio não seja condicional, já que está em jogo muito mais que a economia.

    Depois, embora não entenda do assunto, é preciso reconhecer que Dilma foi a única dos governantes das últimas décadas que conseguiu manter as taxas nominais de juros abaixo dos 10% por um período superior a um ano (http://www.bcb.gov.br/?COPOMJUROS). Como também buscou a ampliação dos programas sociais, o desenvolvimento industrial do país e níveis históricos de empregabilidade.

    Portanto, não é correto afirmar que políticas neoliberais foram adotadas desde 2011. Elas estavam aí com Lula e FHC, que governaram até o final de seus mandatos sem romper com tais políticas. Dilma merece um voto de confiança para que consiga governar (não lhe dão um segundo de trégua) e termine seu mandato e aí sim possa ser julgada. 

  3. Tarde demais…

    A questão é simples.

    Eu, assim como outros formadores de opinião, fomos o fiel da balança para a vitória no photochart da Dilma no 2o turno de 2014.

    Veio a tragédia econômica de 2015 e ficou constatado o estelionato eleitoral.

    Agora, é tarde para buscar apoio…

    … e essa história do ‘temor do que virá’ já não encontra mais guarida após o que vimos neste último ano…

  4. Acho que o Brasil vive uma

    Acho que o Brasil vive uma boa oportunidade para criar uma nova correlação de forças, tendo como ponto comum o combate ao golpe. Claro que não dá para simplesmente defender o mandato de Dilma para que ela continue o governo como está. Não dá. Logo ela será derrubada não por um impeachment articulado por um ladrão e seus associados, mas pelo povo nas ruas revoltado com as políticas recessivas e neoliberais. Antes que isso aconteça, está na hora de se formar uma ampla frente popular contra o golpe, denunciando os golpistas, mas ao mesmo tempo criando uma nova governabilidade, uma nova base de apoio, um novo rumo para o governo Dilma, com políticas geradoras de emprego, de juros baixos, de aumentos salariais e mais investimentos na área social. É com essa base – pela legalidade e por mais mudanças, como as prometidas na campanha de reeleição da presidenta -, que ganharemos o apoio de milhões e afastaremos o fantasma do golpe, além de desmascarar estes canalhas como Aécio, Serra, Eduardo Cunha, Caiado, Agripino, Paulino da Farsa, Temer e demais associados, incluindo a mídia golpista. Vamos transformar a tentativa de golpe num novo momento para o Brasil dos de baixo.

  5. Midia
    Caro Assis.
    A midia existe ha muito tempo e o mundo avancou independente destas formas de comunicacoes. Nao podemos eh negar que a grande influencia atual no Brasil se dah pelo jogo politico do Lula e Dilma principalmente por calarem e na cena do ato de nao bate de frente com medo. O governo do PT nestes anos se submeteram aos gerentes de redes e seus valores, como o mercado, como os bancos e etc.
    Nao vamos colocar somente a culpa na midia e sim falta tudo na presidente para completar a complicacao politica que submeteram a economia. Todos estes arranjos economicos do governo Dilma tem um nome, medo, falar de autoridade e lideranca. Infelizmente Dilma eh gerente.
    A midia com a oposicao nao erraram sozinhos e ai temos de colocar a parceria da Dilma.
    Sinceramente so teremos novamente uma economia sobre controle e estabilidade, para o bem o mal quando tiver um governo politico sobre estabilidade e nao sobre pontos ideologico.

  6. Mudanças

    Francamente, Sr. Assis, depois de cinco anos de Governo Dilma, cada vez mais enveredado para o abismo o Sr. acredita mesmo em mudanças?

    Quer dizer então que Dilma vai acordar num belo dia, depois de anos de erros colossais, vai jogar sua covardia fora e vai enfrentar a luta sem “republicanismo”. Se é contra o impeachment, eu até compreendo, mas fantasiar assim, aí já é falta de noção  demais

     

    Caro Assis, Dilma não vai mudar. É irreversível, e mesmo que esboce uma fraca tentativa de mudanças, depois de tantas mentiras, de tanta covardia de enfrentar a direita, ela não tem mais capital político. Capital Político é confiança do povo. Quando a confiança do povo num governante morre, é definitivo, não tem volta.

     

    O que seria de se pensar, isto sim, é que se Dilma não for derrubada este ano, a Lava Jato ano que vem voltará com carga total. Aí a recessão de -5% que estamos prevendo para este ano, vai parecer um picnic de final de semana. Por fim, o país, com uma crise economicade tal magnitude, corre o risco de entrar em guerra civil, e aí sim a sua democracia seria derrubada, de uma forma muito pior ainda. E com certeza, se isto ocorrer, Dilma nada fará, como nada tem feito.

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