Como o Governo ajuda bancos a roubar o povo com juros, por J. Carlos de Assis

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Como o Governo ajuda bancos a roubar o povo com juros

por J. Carlos de Assis

Há duas formas pelas quais o Governo ajuda os banqueiros privados a extorquir dinheiro da população. Uma é pela aplicação direta de uma taxa de juros exorbitante sobre o preço de uma geladeira ou outros produtos de consumo. Nesse caso, os juros de agiotagem ficam embutidos no preço das prestações não havendo diferença entre o preço à vista e a acumulação de prestações a prazo. O Banco Central, a quem competiria regular o sistema financeiro, não faz nada. É o reino absoluto do mercado livre a serviço da banca.

Ao lado dessa forma privada de roubar o consumidor, há uma mais ampla, mais institucional, mediante o mecanismo da dívida pública. Para explicar isso é importante notar que apenas uma fração ínfima da dívida pública, de caráter histórico, serviu alguma vez para financiar gastos públicos. A fim de esclarecer esse ponto, Maria Lúcia Fatorelli tem dedicado um tremendo esforço para convencer o Parlamento a fazer uma auditoria da dívida pública. Infelizmente isso só acontecerá se a classe dominante dos banqueiros perder o poder.

O mecanismo de drenagem de dinheiro do povo para a banca, através da dívida pública, tem a sutileza de um elefante, mas é pouco compreendido pelo povo. Tomemos o orçamento de 2017. Ele previu R$ 159 bilhões de déficit, ou seja, de insuficiência de recursos para que o Governo pagasse suas despesas. Entretanto, as despesas de juros da divida pública se elevaram no ano passado a mais de R$ 400 bilhões. O déficit está dentro desse valor. É pago com trapaças financeiras e renovação de títulos da própria dívida. É transferência direta de dinheiro e títulos públicos para os banqueiros privados.

Quando se fala sobre isso com algum economista vendido aos bancos, ele salta para trás e diz: dívida tem que ser paga, não há saída. Mas isso é um engodo. O que se paga anualmente são os juros, não a dívida. Se o Governo decidisse pagar a dívida pública aos bancos, em lugar de simplesmente rolá-la indefinidamente no contexto do Tesouro e do Banco Central, os aplicadores não teriam o que fazer com o dinheiro. Talvez alguns tentariam aplicar no exterior, mas a insegurança seria grande. Melhor seria manter os títulos aqui dentro.

Entretanto, não é necessário dar a o calote na dívida pública para melhorar, de uma tacada, o sistema fiscal-monetário do país. Basta reduzir drasticamente a taxa real de juros que remunera dos títulos públicos. Em lugar de mais de R$ 400 bilhões que estamos pagando (em 1916 foram mais de R$ 500 bilhões), os juros seriam menos de R$ 40 bilhões. Para isso, bastaria adotarmos os juros dos bancos centrais norte-americano e europeu. É uma taxa inferior a 1%, e, em situações de recessão, em torno de zero por cento.

Dirão, os economistas vendidos aos bancos, que não dá para reduzir drasticamente a taxa básica de juros incidente sobre a dívida pública porque isso geraria inflação. É outro engodo. Inflação é uma relação de preços de mercadorias e serviços, não, sobretudo numa situação de recessão ou contração como estamos, um fenômeno estritamente monetário. Temos margem para reduzir a taxa de juros sem gerar inflação. E isso possibilitaria uma queda significativa nos juros e na própria dívida pública, reduzindo o assalto ao povo.

 

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8 comentários

  1. Claro e objetivo

    Seria bom ouvir outros colegas mais entendidos no tema.

    A proposta do Assis é muito objetiva e seria bom que assim fossem os comentários, para não esconder este delicado assunto com palavras.

    Corre-se o risco que o comercio não reduza os preços, mesmo com juros tão baixos, mas, com certeza, a fatia que é paga pela rolagem da dívida seria insignificante.

    Mesmo assim, não descarto a execução de uma auditoria.

  2. Continuo sem entender…..

    De economia não entendo, apesar de me esforçar em ler gente como Bresser Pereira, Eduardo Gianetti, Alexandre Schwartzmann, e outros (sei que entre os 3 há divergências, mas gosto de experimentar a pluralidade). O que não entendo é o porquê. Ou seja, se o problema citado parece tão óbvio, porque nem Fernando Henrique, nem Lula, nem Dilma, nem Temer conseguiram alterar o descalabro? Cada um deve ter suas razões, mas nenhuma me parecerá melhor que a outra porque quem paga a conta finalmente somos nosotros e não eles.

    • GOVERNOS E OS JUROS

      Muito romântico. Não precisamos ir longe, não. No começo do governo Dilma tivemos juros reais muito baixos, a Selic atingiu seu menor patamar histórico. O que aconteceu depois? Tivemos uma iinflação medida pelo índice oficial de mais de 10% em 2015. Será que é tão simples resolver? Outro ponto: como um governo deficitário paga uma dívida que é superior a 70% de seu PIB? Com mais impostos? Com mais dívida, seria incoerente. Com emissão de moeda é a outra alternativa. O governo usava até meados dos anos 90 a emissão de moeda para cobrir seu déficit. A inflação chegou a 80% ao mês. Mais um outro ponto: de quem é o dinheiro que os banqueiros usam para comprar os títulos públicos? De seus clientes. O país já teve governo de direita e esquerda após a redemocratização. As soluções não são tão simples. E a resposta está no conceito mais básico da ciência econômica. Economia é a ciência da escassez. Como costumo dizer, não se pode tirar de onde não se tem.

      • Mas

        A inflação já vinha em movimento de alta antes da queda da selic pelo governo Dilma.

        80% do déficit do governo é oriundo das despesas com os juros (selic), então só haverá queda nas despesas financeiras se houver queda dos juros.

        No mercado primário de títulos da dívida só 12 instituições financeiras têm o privilégio de comprá-los utilizando principalmente os ganhos cos títulos que já foram pagos anteriormente.

  3. A resolução é tão simples

    A resolução é tão simples que… só pode estar errada! Se a taxa fosse extremamente baixa ou nula, o consumo explodiria, e com ele a inflação. E outra: quem, no exterior, vai comprar títulos brasileiros pagando a mesma taxa que títulos europeus, janponeses ou americanos? Ninguém…

  4. para ajudar a entender

    tem razão os comentários anteriores, que estranham o autor dizer que a solução é tão simples mas ninguém teve a “esperteza” de aplicá-la.

    A inflação não vai necessáriamente explodir se o juro cair a 1%. Depende da situação dos investidores em títulos e difícilmente alguém que tem hábito de poupar vai sair torrando suas economias em consumo. Provávelmente procurará investimento mais rentável, mesmo que com algum risco maior que o Tesouro.

    Na situação atual, se o Tesouro baixar tanto o juro, o meu dinheiro no Tesouro Direto ganha  na mesma hora uns 20% de valorização. Quem quizer entender pode pesquisar o que significa “marked to market”. Todos poderiam desconfiar que o governo fez isto para me favorecer.

    O mais provável é que o Tesouro iria precisar criar uma outra forma de tomar dinheiro emprestado, pagando juros maiores que 1%, para compensar a totatidade dos portadores de títulos antigos, que iriam vender imediatamente seus papéis e faturar uma bolada.

    Concordo que o juro real, aquele que incide depois que a dívida é corrigida pela inflação, pode rondar o 0% em momentos como o atual de depressão e uns 3% no máximo em situações de aquecimento da demanda. Ocorre que o mercado brasileiro é viciado em variações. Os juros não sobem ou descem por questão de lógica econômica. O fazem para mudar o valor presente dos ativos financeiros, que por definição só se realizam no futuro. Como ninguém sabe o futuro, ficam especulando com cenários para fazer variar a avaliação de risco do mercado. A coisa é tão patética que nem os porta vozes do Sr. Mercado se dão conta de que são manipulados. Acreditam tando que a conjuntura política afeta o preço de ativos que passam a querer interferir na escolha dos governos. Tolos, não aprendem que mesmo com os políticos deles os “mercadores financeiros” saberão espalhar pânico ou otimismo no momento que julgarem oportuno.

    Só existe uma fórmula simples para resolver um problema de dívida, pessoal do pública. Tem que pagá-la. Os governos petista estavam fazendo exatamente isto, começando pela dívida externa. A interna foi trazida para baixíssimos 35% do PIB em termos líquidos, ou seja, descontadas as reservas. O próximo passo de um governo responsável é o de “vender” o excesso de reservas e baixar a dívida líquida para uns 50% do PIB do dia pra noite. Para a solução do que sobra só tem um jeito: fazer um plano, aprová-lo na campanha de eleição presidencias e tratar de implementá-lo.

    O quão distantes estamos de sonhar com isto é só uma medida da enormidade de trabalho que temos que fazer antes de devaneios simplificadores.

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