Como os acontecimentos no Irã impactam a economia internacional?
por José Paulo Silva Ferreira
Em 28 de fevereiro, os EUA, juntamente com Israel, realizaram um ataque aéreo de grande escala contra o território iraniano, em uma operação de decapitação que eliminou lideranças como o ministro da Defesa e o aiatolá Ali Khamenei. A operação suscita questionamentos no campo do direito internacional, cuja aplicação, em contextos da política das grandes potências, tem sido objeto de controvérsia. Evidência disso é o conflito na Ucrânia, em curso há quatro anos.
Ao longo das décadas que se seguiram à Revolução Islâmica de 1979, o regime iraniano perpetuou graves violações de direitos humanos. O avanço do país em direção a capacidades atômicas funcionaria como um instrumento de dissuasão. Ao mesmo tempo, aumentaria a instabilidade no Oriente Médio e os riscos globais de um conflito nuclear.
A mudança de regime é incerta e depende sobretudo de fatores internos. Ataques aéreos, isoladamente, não são suficientes para derrubar o governo. O custo político, humano e econômico torna uma incursão terrestre com tropas americanas e israelenses impensável para Donald Trump e Benjamin Netanyahu.
O ambiente político doméstico nos EUA indica que intervenções limitadas podem encontrar respaldo, enquanto engajamentos militares extensos e indefinidos tendem a enfrentar maior resistência. Assim, uma guerra total está fora de cogitação, e qualquer transição de regime dependeria de uma insurgência organizada.
O impacto econômico imediato tende a ser percebido já a partir de segunda-feira, dia 2 de março, no preço dos combustíveis. O Irã realizou movimentações para o fechamento do Estreito de Hormuz, por onde transitam entre 20% e 30% do petróleo mundial. O aumento do preço internacional do petróleo encarece combustíveis, transporte e diversos produtos. Com isso, a inflação pode subir muito acima da meta de 2,4% do banco central americano. A autoridade monetária ficaria menos propensa a cortar juros no curto prazo, pois sua redução desincentivaria a poupança, agravando a pressão inflacionária.
A China é o principal destino do petróleo iraniano, absorvendo mais de 80% de suas exportações dessa commodity. Uma eventual reconfiguração do alinhamento externo do Irã poderia repercutir na estratégia chinesa de segurança energética, relativa à estocagem de petróleo, frequentemente associada a uma anexação de Taiwan. Tal desaceleração ampliaria a margem de manobra para Taipei.
É altamente improvável que a China intervenha militarmente em defesa do governo iraniano, pois isso levaria potencialmente a uma Terceira Guerra Mundial. Com os EUA envolvidos no Oriente Médio e a OTAN fragilizada, enquanto os europeus estão divididos, a Rússia poderia interpretar o momento como oportuno para avançar no Leste Europeu. Isso configuraria uma guerra em duas frentes.
O cenário mais provável, contudo, é que a China limite sua reação a notas diplomáticas, assim como fez em relação à Venezuela, preservando a narrativa de defesa da ordem internacional. Enquanto isso, o governo dos EUA administra as repercussões políticas internas e externas do envolvimento no Oriente Médio.
Um eventual bloqueio chinês às exportações de terras raras para os EUA representaria um desafio significativo para a indústria americana, e Washington certamente responderia com sanções severas. Dada a interdependência entre as duas economias, o impacto também seria expressivo para Pequim. Nesse contexto, o Brasil poderia encontrar oportunidades de expansão comercial.
Os mercados financeiros globais já estavam sensíveis, devido à queda das ações de bancos e à volatilidade em ações de tecnologia. Um conflito prolongado no Golfo seria mais um choque a causar apreensão nos investidores e, consequentemente, retração do investimento.
Dessa forma, os acontecimentos no Irã impactam a economia internacional por múltiplos canais: energia, inflação, política monetária, cadeias produtivas, comércio internacional e confiança dos mercados. Todos esses fatores estão interligados em um ambiente geopolítico de elevada incerteza.
José Paulo Silva Ferreira é doutorando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB), mestre em Ciência Política e bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Pesquisador em Economia Política Internacional.
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