
Contra o fascismo
Lições de Bertolt Brecht (1)
por Carlos Ferreira de Araújo
Para Sieni Campos
Bertolt Brecht (1898-1956) não foi apenas um grande escritor e poeta, mas um dos maiores pensadores políticos do séc. XX. Muitas das suas reflexões sobre o fascismo e como resistir a ele continuam atuais, quando não adquirem uma atualidade inesperada. Assim no Brasil, onde Jair Bolsonaro se candidata a ser o novo “pintor de paredes”, como diria Brecht.
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SOBRE A DIFICULDADE DE COMPREENDER¹ OS ACONTECIMENTOS HISTÓRICOS
O pintor de paredes² chegou ao poder não apenas por meio de um golpe de Estado, mas também por via legal. De repente, seu partido foi o maior de todos, de modo que lhe coube por lei o direito de formar o governo. A maior confusão reinava no povo. Muitos votaram no inimigo da democracia por serem democratas. Houve ainda o grande número dos descontentes, insatisfeitos com determinados partidos, a saber, os partidos existentes. Eles viram o partido do pintor de paredes como um partido que ainda não estivera no poder, logo ainda não falhara. Insatisfeitos com seus tosquiadores, tratadores³ e pastores4, os novilhos decidiram experimentar agora o açougueiro.
(escrito em 1937)
¹ A palavra alemã, “Unübersehbarkeit”, designa a qualidade do que não um olhar não pode abranger.
² dolf Hitler. Desde 1906 de olho em uma carreira artística como pintor, Hitler tentou em 1907 e 1908, sem sucesso, matricular-se na Academia de Artes de Viena. Sempre considerou-se um artista fracassado. A palavra usada por Brecht é “Anstreicher”, “pintor de paredes”. Brecht não foi o único a ridicularizar as pretensões artísticas de Hitler. Para compreender melhor essa denominação de Hitler, recorremos ao poema satírico “A canção do pintor de paredes Hitler (1933). Hitler é apresentado aqui como alguém que apenas caia as paredes para tapar as gretas e fissuras. A quarta e última estrofe termina com o verso “Ganz Deutschland hat er angeschmiert”. A tradução literal seria “Ele besuntou/lambuzou toda a Alemanha”, mas o verbo “anschmieren” significa ainda hoje “enganar”. Brecht vincula a pintura mal feita, a caiação superficial, à fraude. O “pintor de paredes” é, portanto, um enganador.
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